De Jacarepaguá aos EUA: como Victor Andrews transformou o futebol em propósito

Uma bolsa esportiva levou Victor Andrews do Rio de Janeiro aos Estados Unidos. Entre lesão, pandemia, casamento, filhos e mudanças de faculdade, o futebol deixou de ser seu destino e se tornou a ponte para transformar também a história de outros jovens.
Um sonho que começou no Brasil e atravessou fronteiras
Victor Andrews. tinha cinco, seis, talvez sete anos quando começou a dizer à família que um dia viveria nos Estados Unidos. Criado no Anil, em Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, ele ainda não fazia ideia de como chegaria lá.
Filho de um economista e de uma professora, cresceu em uma casa onde educação era prioridade. A mãe repetia que conhecimento era algo que ninguém poderia tirar dele. Por isso, mesmo apaixonado por futebol, Victor aprendeu desde cedo que o esporte precisaria caminhar ao lado dos estudos.
O problema apareceu quando chegou a hora de escolher uma profissão. Enquanto os amigos pareciam saber o que queriam fazer, Victor não encontrava uma direção. Tinha facilidade com diferentes matérias, interessava-se por várias áreas, mas nenhuma parecia ser definitivamente o seu lugar. Depois de fazer o Enem e não alcançar o resultado esperado, começou a acreditar que estava ficando para trás.
Foi então que seu pai soube de um profissional que preparava jovens para estudar nos Estados Unidos por meio do esporte. Victor descobriu que poderia unir três elementos que sempre fizeram parte de sua vida: futebol, educação e o sonho de viver fora.
A sensação de estar perdido começou a desaparecer.
65 propostas e uma passagem para os Estados Unidos
Durante aproximadamente um ano, Victor treinou, aperfeiçoou o inglês, organizou documentos e finanças e montou um vídeo com seus melhores momentos no futebol. O material começou a chegar a treinadores de universidades americanas.
Segundo ele, vieram 65 propostas para jogar e estudar nos Estados Unidos. Como só poderia escolher uma universidade, Victor percebeu que as demais oportunidades poderiam servir para outros jovens que também sonhavam em estudar fora. Ainda no Brasil, começou a apresentar possíveis estudantes aos treinadores e a orientar os primeiros interessados, dando os passos iniciais do que mais tarde se transformaria em sua empresa.
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Em agosto de 2019, Victor embarcou para a Siena Heights University. Sua mãe e seu irmão viajaram com ele para conhecer a faculdade, a cidade e o lugar onde viveria. Parecia o começo perfeito para o sonho que carregava desde criança.
Até que, em um dos primeiros treinamentos, ele se lesionou.
No dia seguinte, sua mãe voltou para o Brasil.
Victor ficou sozinho.
Longe da família e da namorada, precisou lidar com hospital, fisioterapia e recuperação em um país onde havia acabado de chegar. Havia ainda outra pressão: como estudante-atleta, sua bolsa estava relacionada ao futebol. Não conseguir jogar significava conviver também com o medo de perder a oportunidade que havia levado anos para conquistar.
Foi justamente quando não podia fazer aquilo que mais amava que o trabalho que havia começado no Brasil ganhou uma nova dimensão.
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Durante a recuperação, Victor passou a dedicar ainda mais tempo às redes sociais e à orientação de estudantes. Contava como havia conseguido uma bolsa, explicava o recrutamento universitário e mostrava que outros jovens também poderiam tentar aquele caminho. Sua presença digital ganhou força, ampliando o número de pessoas que passaram a procurá-lo em busca de oportunidades nos Estados Unidos.
O que ele havia aprendido para mudar a própria vida começava a servir para mudar a vida de outras pessoas.
A pandemia mudou novamente os planos
Depois de se recuperar, Victor voltou ao Brasil nas férias e retornou aos Estados Unidos no início de 2020. Poucas semanas depois, a Covid-19 fechou universidades, levou as aulas para o ambiente virtual e interrompeu competições. Ele voltou novamente ao Brasil.
Mais uma vez, o futebol parava. E, mais uma vez, o negócio crescia.
Nesse período, sua namorada engravidou. O primeiro filho nasceu em novembro de 2021 e, quando Victor retornou aos Estados Unidos com a família, a jornada já não era mais apenas dele. A namorada tornou-se sua esposa, vieram outros dois filhos e os dois passaram a construir juntos uma vida longe do Brasil.
Victor transferiu os estudos e chegou a competir em Minnesota, enfrentando um cenário completamente diferente daquele em que havia crescido no Rio de Janeiro, inclusive com meses de frio intenso. O casal não tinha uma grande rede de apoio. Faculdade, empresa, filhos e mudanças eram administrados pelos dois.
Victor resume aquele começo com uma imagem: eles chegaram com duas malas.
Enquanto a família crescia, a empresa também ganhava espaço. Aos poucos, o futebol deixou de ser a carreira que Victor precisava perseguir dentro de campo e passou a representar algo maior.
De atleta recrutado a alguém que recrutava atletas
Victor Andrews. mudou sua formação e se graduou em Business Economics. Em uma das universidades de sua trajetória, passou também a ajudar um treinador a estruturar um programa de futebol e recrutar estudantes-atletas.
Segundo ele, ajudou a levar 14 jogadores, nove homens e cinco mulheres, e recebeu uma bolsa que cobria seus custos acadêmicos mencionados no relato.
Havia uma ironia bonita naquela mudança de posição. Poucos anos antes, Victor era o garoto brasileiro preparando um vídeo e torcendo para que algum treinador americano lhe desse uma oportunidade. Agora, estava ajudando a encontrar jovens que carregavam sonhos parecidos.
A empresa já crescia a ponto de fazê-lo tomar uma decisão: não fazia mais sentido dedicar sua vida a tentar continuar jogando competitivamente. O futebol havia cumprido uma função muito maior.
Ele tinha sido a ponte.
Mais de 850 jovens e uma história chamada Jennifer
Segundo Victor, seu trabalho já alcançou mais de 850 meninos e meninas de 64 países, com clientes em lugares tão diferentes quanto Nigéria, Zimbábue, Inglaterra, França, Itália, Japão e Taiwan.
Mas ele prefere não explicar sua trajetória apenas por números.
Uma das histórias que mais o marcaram é a de Jennifer, jovem do Morro do Castelhinho, em São João de Meriti, na Baixada Fluminense. Aos 23 anos, segundo Victor, ela havia passado dois anos trabalhando em uma fábrica de copos enquanto tentava construir condições para estudar fora.
Diante da situação financeira da jovem, Victor decidiu não cobrar pela assessoria. Jennifer conseguiu uma bolsa integral e embarcou para os Estados Unidos.
Anos depois, ela telefonou para ele chorando.
Contou que havia conseguido dar entrada em um imóvel e tirar a família da comunidade onde havia crescido.
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Para Victor, aquela ligação dizia mais sobre seu trabalho do que qualquer número de clientes. Cada estudante que embarca carrega uma família, uma história e a possibilidade de transformar outras vidas além da própria.
O futebol era a ponte, não o destino
Quando terminou o ensino médio, Victor achava que estava perdido. Via amigos escolhendo profissões enquanto ele ainda tentava entender onde se encaixava. Hoje, interpreta aquele período de outra maneira: talvez ainda não tivesse encontrado algo capaz de reunir educação, futebol, negócios e o desejo de transformar vidas.
Curiosamente, alguns dos acontecimentos que pareciam afastá-lo de seus planos ajudaram a construir esse caminho. A lesão o tirou dos campos e o aproximou das redes sociais. A pandemia interrompeu novamente o futebol e abriu espaço para o crescimento da empresa. As mudanças de faculdade ampliaram sua experiência, enquanto casamento e filhos transformaram uma aventura individual em projeto de família.
Hoje, formado, casado e pai de três filhos, Victor olha para o intercâmbio esportivo como a grande virada de sua trajetória.
Ele saiu do Brasil acreditando que o futebol o levaria aos Estados Unidos.
Levou.
Só que essa era apenas a primeira parte da história.
Porque o menino que encontrou no esporte uma oportunidade para mudar a própria vida acabou descobrindo algo maior: se aquela porta havia se aberto para ele, talvez pudesse ajudá-la a se abrir para outros também.
E foi assim que o futebol deixou de ser o destino de Victor Andrews.
Virou propósito.
Jacy Abreu
Redatora do portal Vou Para América, com cerca de 30 anos de experiência na área de Comunicação. Ao longo da carreira, atuou em grandes empresas de mídia como América Online e Editora Abril. Possui ampla experiência em produção de conteúdo jornalístico e institucional, coordenação de projetos de comunicação e planejamento editorial. É fundadora da Lumepress Comunicação, agência de assessoria de imprensa.
Fontes e Créditos
Entrevista e relatos concedidos por Victor Andrews ao Vou pra América. As informações sobre sua trajetória pessoal, bolsas esportivas, propostas recebidas, formação acadêmica, desenvolvimento da empresa, número de estudantes atendidos e países alcançados foram fornecidas pelo próprio entrevistado. A história de Jennifer também é apresentada a partir do relato de Victor.
Transparência Editorial
Esta reportagem foi produzida a partir de entrevista e informações fornecidas por Victor Andrews ao Vou pra América. Os relatos foram editados e organizados em formato de storytelling para proporcionar clareza, contexto e fluidez narrativa, sem intenção de alterar o sentido das declarações. Números relacionados à atuação profissional de Victor, incluindo as 65 propostas universitárias, mais de 850 estudantes atendidos e clientes de 64 países, assim como detalhes sobre bolsas e histórias de clientes, são apresentados com base nas informações fornecidas pelo entrevistado.
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