Construtoras relatam falta de trabalhadores em meio a recorde de prisões do ICE nos EUA

Jacy Abreu23 de setembro de 2026Imigração
Construtoras relatam falta de trabalhadores em meio a recorde de prisões do ICE nos EUA

Construtoras de diferentes regiões dos Estados Unidos relataram dificuldades para encontrar trabalhadores em meio à intensificação das operações de fiscalização migratória. Os relatos apareceram em uma pesquisa da John Burns Research and Consulting sobre prazos de construção e foram publicados nesta terça-feira, 22 de setembro, pela Axios.

O dado chama atenção porque as respostas relacionadas ao ICE não foram provocadas diretamente pela pesquisa. Segundo Rick Palacios, diretor de pesquisa da consultoria, a pergunta feita às empresas tratava dos prazos das obras. Construtores em Houston, Richmond, na Virgínia, e Jacksonville, na Flórida, citaram espontaneamente problemas relacionados à disponibilidade de trabalhadores, fornecedores, custos ou cronogramas.

Os relatos empresariais não demonstram, sozinhos, que as operações migratórias sejam a causa de uma escassez nacional de trabalhadores. Eles mostram que algumas empresas estão associando a fiscalização do ICE a dificuldades que já aparecem nos canteiros.

Prisões do ICE atingiram recorde em agosto

O levantamento surge depois de três meses consecutivos de recordes de prisões anunciados pelo Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos, o DHS.

O ICE realizou 50.925 prisões em agosto, segundo o governo federal. Em julho foram 50.208 e, em junho, 43.900. Agosto registrou o maior total mensal divulgado pelo DHS. Prisão pelo ICE não deve ser confundida com deportação ou remoção do país, que são etapas diferentes do processo migratório.

A Casa Branca contestou a interpretação de que a fiscalização esteja retirando trabalhadores legalmente autorizados do mercado. Em declaração reproduzida pela Axios, a administração afirmou que o ICE não prende pessoas que estão legalmente no país e defendeu que existe mão de obra americana disponível. O governo também apontou seu novo escritório de política migratória como instrumento para orientar empregadores sobre as regras de imigração.

Representantes da construção apresentam outra preocupação. Segundo a reportagem, o presidente da National Association of Home Builders, Bill Owens, afirmou que as ações migratórias também produzem receio entre trabalhadores autorizados e acabam afastando pessoas dos locais de trabalho. Trata-se de uma avaliação da entidade empresarial, não de uma conclusão estabelecida pelos dados do DHS.

Construção depende mais de imigrantes do que a média sugere

A dimensão da discussão aparece nos números da própria indústria.

Trabalhadores nascidos fora dos Estados Unidos representavam 26,3% de toda a força de trabalho da construção em 2024, segundo análise da NAHB baseada na American Community Survey do Census Bureau. Entre trabalhadores diretamente ligados aos ofícios da construção, a proporção chegava a um terço.

Em algumas profissões, a dependência é maior. Imigrantes representavam 57% dos instaladores de drywall e placas de teto, 56% dos profissionais de gesso e estuque, 53% dos telhadistas e 53% dos pintores. Entre trabalhadores gerais da construção, a participação era de 43%.

Esses percentuais medem trabalhadores nascidos no exterior. Eles não indicam quantos possuem visto, residência permanente, cidadania americana, autorização de trabalho ou situação migratória irregular.

Essa distinção é essencial. Ser imigrante não significa estar sem documentação nos Estados Unidos.

Na Flórida, quatro em cada dez trabalhadores são imigrantes

Para brasileiros que vivem na Flórida, a exposição do setor é ainda maior.

Imigrantes representavam 40,6% dos trabalhadores da construção no estado em 2024. A proporção ficava atrás apenas da Califórnia, com 42,1%, e superava a do Texas, onde o índice era de 39%.

Califórnia, Texas, Flórida e Nova York concentravam, juntos, mais da metade dos aproximadamente 3 milhões de trabalhadores imigrantes da construção identificados pela análise da NAHB.

Isso ajuda a explicar por que mudanças na disponibilidade de mão de obra têm peso especial nesses mercados. Também torna o assunto relevante para brasileiros que trabalham como pintores, instaladores de drywall, carpinteiros, telhadistas, empreiteiros e prestadores de serviços ligados à construção.

Problema chega quando materiais e financiamento já estão mais caros

A mão de obra não é a única pressão sobre as construtoras.

O custo mediano dos materiais necessários para construir a mesma casa aumentou 6,7% em 12 meses, segundo pesquisa da NAHB divulgada em agosto. Entre pequenas construtoras que iniciaram cinco casas ou menos em 2025, a alta mediana chegou a 9,1%. Nas empresas com 100 ou mais unidades iniciadas, ficou em 1,8%.

Os juros também pesam. O índice de confiança das construtoras caiu três pontos em setembro e atingiu 32, o menor nível em um ano, enquanto as taxas hipotecárias voltaram a subir. A Reuters informou que o setor enfrenta simultaneamente financiamento caro, custos de materiais, demanda enfraquecida e dificuldades de mão de obra.

Esse conjunto ajuda a entender por que uma possível redução na disponibilidade de trabalhadores preocupa as empresas. Uma obra pode enfrentar, ao mesmo tempo, materiais mais caros, financiamento mais custoso e dificuldade para preencher determinadas funções.

Ainda não há, porém, base suficiente para afirmar que as operações do ICE produziram um determinado aumento no preço das casas. O valor final de um imóvel depende também do terreno, financiamento, materiais, demanda, produtividade e margem da construtora. Da mesma forma, os dados disponíveis não quantificam quantas obras foram atrasadas especificamente pela fiscalização migratória.

O que isso significa para brasileiros na construção e no mercado imobiliário

Para o trabalhador brasileiro, o primeiro ponto é separar fiscalização migratória de direito trabalhista. A composição do setor mostra que a construção americana depende fortemente de imigrantes, mas cada trabalhador pode estar em uma situação migratória diferente. Os números da indústria não permitem presumir o status de ninguém.

Para quem está construindo ou reformando uma casa, principalmente na Flórida, a questão prática está nos prazos e contratos. Se uma construtora informar que houve alteração no cronograma por falta de trabalhadores, o proprietário deve verificar quais datas, responsabilidades e condições de extensão estão previstas no contrato antes de aceitar custos adicionais.

Para compradores, o efeito exige ainda mais cautela. Os relatos de construtoras apontam pressão sobre a oferta de mão de obra, mas não comprovam que uma casa específica ficará mais cara por causa das operações do ICE.

O sinal mais concreto está na combinação dos dados: 40,6% dos trabalhadores da construção na Flórida são imigrantes, materiais subiram uma mediana de 6,7% em um ano e construtoras agora relatam dificuldades adicionais para manter equipes e cronogramas.

Para o brasileiro que trabalha, contrata serviços ou compra imóveis nos Estados Unidos, acompanhar essa combinação será mais útil do que transformar a questão em uma conclusão simples sobre imigração. Os próximos indicadores de emprego, custos de construção e prazos de entrega mostrarão se os relatos atuais se transformam em uma tendência mensurável no mercado residencial.

Jacy Abreu

Jacy Abreu

Redatora do portal Vou Para América, com cerca de 30 anos de experiência na área de Comunicação. Ao longo da carreira, atuou em grandes empresas de mídia como América Online e Editora Abril. Possui ampla experiência em produção de conteúdo jornalístico e institucional, coordenação de projetos de comunicação e planejamento editorial. É fundadora da Lumepress Comunicação, agência de assessoria de imprensa.

Fontes e Créditos

A apuração foi baseada na reportagem original da Axios, nos dados sobre prisões divulgados pelo Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos e nas análises da National Association of Home Builders sobre trabalhadores imigrantes e custos dos materiais de construção. Informações adicionais sobre as condições atuais do mercado residencial foram verificadas pela Reuters.

Transparência Editorial

Esta matéria diferencia relatos de construtoras, declarações do governo e dados estatísticos. Não há evidência disponível nas fontes consultadas que permita atribuir ao ICE um percentual específico de aumento nos preços das casas ou determinar quantas obras foram atrasadas exclusivamente pelas operações migratórias. Dados sobre trabalhadores nascidos no exterior também não permitem inferir o status migratório dessas pessoas. Apuração atualizada em 22 de setembro de 2026. A redação segue a Política Zero Ficção do Vou pra América, que exige fonte rastreável para o fato central e para dados numéricos.

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