Como se aposentar nos Estados Unidos: brasileiros precisam de 40 créditos, mas isso não garante benefício alto

Jacy Abreu11 de setembro de 2026Imigração
Como se aposentar nos Estados Unidos: brasileiros precisam de 40 créditos, mas isso não garante benefício alto

Trabalhar dez anos nos Estados Unidos pode ser suficiente para atingir os 40 créditos normalmente exigidos para a aposentadoria do Social Security. Mas completar essa etapa não significa garantir uma aposentadoria alta, nem receber automaticamente o valor máximo pago pelo sistema americano.

Essa diferença é uma das mais importantes para brasileiros que trabalham, empreendem ou constroem parte da vida profissional nos Estados Unidos.

O Social Security funciona como um sistema de proteção social financiado principalmente pelos impostos pagos sobre salários e determinados rendimentos do trabalho autônomo. Ele oferece benefícios de aposentadoria, incapacidade e sobrevivência para trabalhadores e familiares que preencham os requisitos.

Para a aposentadoria regular, a Social Security Administration informa que o trabalhador precisa, em geral, acumular pelo menos 40 créditos. Como o limite é de quatro créditos por ano, chegar a essa marca normalmente exige pelo menos dez anos de trabalho coberto pelo sistema.

Quanto é preciso ganhar para conseguir os créditos em 2026?

Em 2026, cada crédito é obtido a partir de US$ 1.890 em rendimentos cobertos pelo Social Security e pelo Medicare. Quem acumular US$ 7.560 nesses rendimentos ao longo do ano poderá receber os quatro créditos possíveis naquele período.

Isso não significa pagar US$ 1.890 de imposto para comprar um crédito.

O valor de US$ 1.890 corresponde ao rendimento necessário para que o sistema registre um crédito. Os créditos são associados ao trabalho e ao pagamento dos impostos aplicáveis sobre aquela renda.

Também não é necessário trabalhar durante os 12 meses para obter os quatro créditos. A SSA considera os rendimentos totais do ano. Se o trabalhador atingir o valor necessário em um período menor, poderá receber os quatro créditos daquele ano, desde que os rendimentos estejam cobertos pelo sistema.

Ter 40 créditos não define quanto você vai receber

Esse é o ponto que pode mudar completamente o planejamento de quem pretende se aposentar nos Estados Unidos.

Os créditos servem principalmente para determinar elegibilidade. O número de créditos acima do mínimo não aumenta diretamente o pagamento mensal.

O cálculo da aposentadoria considera o histórico de rendimentos do trabalhador. A SSA usa os 35 anos de maiores rendimentos considerados pelo sistema, com ajustes previstos nas regras do programa.

Quem trabalhou menos de 35 anos pode ter anos com rendimento zero incluídos na média. Por isso, uma pessoa que trabalhou apenas dez anos nos Estados Unidos pode atingir os 40 créditos e ter direito ao benefício, mas os 25 anos restantes sem rendimentos americanos podem reduzir o valor calculado.

Na prática, completar 40 créditos responde à pergunta “tenho direito?”. Para descobrir “quanto vou receber?”, é preciso olhar o histórico de rendimentos.

A própria SSA oferece estimativas individualizadas por meio da conta my Social Security. O sistema permite conferir os rendimentos registrados e simular o benefício em diferentes idades.

A idade escolhida também muda o pagamento

O Social Security permite começar a aposentadoria aos 62 anos, mas antecipar o pedido reduz permanentemente o benefício mensal.

Para pessoas nascidas em 1960 ou depois, a idade plena de aposentadoria é 67 anos. Quem pedir aos 62 recebe 70% do benefício que receberia aos 67, uma redução de 30%.

O caminho contrário também existe.

Quem já atingiu a idade plena pode adiar o início do benefício e aumentar o pagamento mensal. Para pessoas nascidas em 1960 ou depois, adiar dos 67 aos 70 anos pode elevar o benefício para aproximadamente 124% do valor calculado na idade plena. Depois dos 70, o adiamento deixa de gerar esse aumento.

Não existe uma idade universalmente melhor. A escolha envolve renda disponível, saúde, necessidade de continuar trabalhando, expectativa de longevidade e situação familiar.

Quem recebe Social Security pode continuar trabalhando?

Pode, mas quem começa a receber antes da idade plena precisa observar as regras sobre rendimentos do trabalho.

Em 2026, para quem permanece abaixo da idade plena durante todo o ano, o limite anual do chamado retirement earnings test é de US$ 24.480. Acima desse valor, a SSA retém US$ 1 em benefícios para cada US$ 2 de rendimentos que excederem o limite.

No ano em que o trabalhador atinge a idade plena, o limite sobe para US$ 65.160 nos meses anteriores ao mês da idade plena, com retenção de US$ 1 para cada US$ 3 acima do limite. Depois de atingir a idade plena, esse teste deixa de ser aplicado.

Esses limites tratam de rendimentos provenientes do trabalho. Não significam que todo dinheiro recebido pelo aposentado seja considerado da mesma maneira.

Autônomos e empresários precisam prestar atenção à estrutura tributária

Para trabalhadores autônomos, a contribuição ocorre de forma diferente daquela do empregado tradicional.

O imposto de self employment reúne as parcelas destinadas ao Social Security e ao Medicare. A alíquota combinada é de 15,3%, formada por 12,4% para Social Security e 2,9% para Medicare. De modo geral, o IRS calcula o imposto sobre 92,35% dos rendimentos líquidos de self employment.

Em 2026, o teto de rendimentos sujeitos à parcela do Social Security é de US$ 184.500. A parcela regular do Medicare não possui esse mesmo teto. Dependendo do nível de renda e do status da declaração, também pode existir o Additional Medicare Tax.

Para empresários, porém, não existe uma regra simples dizendo que todo lucro da empresa será tratado da mesma maneira.

A forma de tributação depende da estrutura adotada. Sole proprietorship, partnership, LLC e S Corporation podem produzir tratamentos diferentes.

Em uma S Corporation, por exemplo, o IRS determina que o acionista que presta serviços à empresa receba uma remuneração considerada razoável antes de receber determinadas distribuições que não sejam salário. O órgão também pode reclassificar pagamentos quando entender que houve tentativa de substituir salário por distribuição para reduzir impostos sobre a folha.

Por isso, a ideia de simplesmente “virar funcionário da própria empresa” para economizar imposto não deve ser aplicada como fórmula. A decisão exige análise da estrutura da empresa, da remuneração, do lucro e das regras fiscais aplicáveis ao caso.

Brasileiros podem aproveitar tempo de contribuição no Brasil

Há uma particularidade que torna o planejamento de brasileiros diferente do de muitos outros imigrantes.

Brasil e Estados Unidos mantêm um acordo internacional de Previdência Social em vigor desde 1º de outubro de 2018. O acordo permite, em determinadas situações, considerar períodos de cobertura nos dois países para estabelecer o direito a benefícios.

Um brasileiro que não conseguiu completar os créditos necessários exclusivamente nos Estados Unidos pode se qualificar para um benefício americano parcial usando períodos de contribuição reconhecidos no Brasil.

Para que a SSA considere os períodos brasileiros nessa situação, o trabalhador precisa ter pelo menos seis créditos no sistema americano. Se já tiver créditos suficientes para obter o benefício americano regular, os períodos brasileiros não são acrescentados para aumentar esse benefício.

O acordo também pode funcionar na outra direção. Períodos de cobertura nos Estados Unidos podem ser considerados pelo sistema brasileiro para verificar determinados requisitos de benefícios no Brasil, conforme as regras aplicáveis.

Isso não significa somar duas aposentadorias integralmente nem transferir dinheiro de um sistema para o outro. Cada país calcula e paga sua parcela segundo suas próprias regras.

O primeiro passo é descobrir o que o governo já registrou sobre você

Para quem pretende se aposentar nos Estados Unidos, planejamento não deveria começar aos 60 anos.

O primeiro passo prático é acessar a conta individual da SSA e conferir quantos créditos já foram acumulados, quais rendimentos aparecem no histórico e quais são as projeções de benefício.

Um trabalhador que acredita ter contribuído durante anos pode descobrir períodos ausentes ou valores diferentes do esperado. Quem passou parte da carreira no Brasil também deve preservar documentos capazes de comprovar períodos de contribuição ao sistema brasileiro.

Para autônomos e empresários, a declaração correta da renda ganha peso adicional. Além das consequências tributárias, o rendimento reportado pode interferir no histórico usado pelo Social Security.

A aposentadoria americana, portanto, não começa com a escolha da idade em que o benefício será pedido. Ela começa com a forma como os rendimentos são registrados durante a vida profissional.

Os 40 créditos abrem a porta. O histórico de renda, a quantidade de anos trabalhados, a idade escolhida e, para brasileiros, a possibilidade de usar o acordo com o Brasil determinam o que existe depois dela.

Jacy Abreu

Jacy Abreu

Redatora do portal Vou Para América, com cerca de 30 anos de experiência na área de Comunicação. Ao longo da carreira, atuou em grandes empresas de mídia como América Online e Editora Abril. Possui ampla experiência em produção de conteúdo jornalístico e institucional, coordenação de projetos de comunicação e planejamento editorial. É fundadora da Lumepress Comunicação, agência de assessoria de imprensa.

Fontes e Créditos

Esta matéria foi elaborada com informações da Social Security Administration, incluindo as regras de créditos, cálculo da aposentadoria, idade de recebimento, limites de rendimentos e o acordo previdenciário entre Estados Unidos e Brasil, além das orientações do Internal Revenue Service sobre self employment tax e remuneração de proprietários de empresas.

Transparência Editorial

Os valores de créditos, teto de rendimentos tributáveis e limites aplicáveis a beneficiários que continuam trabalhando foram verificados para 2026 e podem ser atualizados em anos seguintes. A matéria tem caráter jornalístico e informativo. Regras tributárias e previdenciárias dependem da situação individual do trabalhador e não substituem orientação de contador, profissional tributário ou especialista habilitado.

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