Ela vendeu tudo no Brasil para estar nos EUA com a familia unida e apos 2 anos quase desistiu .

Jacy Abreu11 de julho de 2026Brasileiros nos EUA
Ela vendeu tudo no Brasil para estar nos EUA com a familia unida e apos 2 anos quase desistiu .

Durante muitos anos, Andrea Jimenez acreditou que sabia exatamente como seria seu futuro. Dentista especializada em cirurgias e reabilitação oral, ela havia construído uma carreira sólida em São Paulo e prestava serviços para 12 clínicas. Trabalhava muito, tinha autonomia profissional e, depois de passar uma década longe da capital por causa da carreira do marido, finalmente havia conseguido voltar a morar perto dos pais.

A vida parecia ter encontrado seu lugar.

Andrea tinha formação, experiência e uma profissão que amava. Era mãe de três meninas e carregava também a responsabilidade de cuidar do tio-avô, um homem que nunca havia se casado nem tido filhos e de quem ela era tutora e curadora. Para ela, família nunca foi um detalhe. Sempre foi o centro das decisões.

Por isso, quando a filha mais velha começou a dizer, aos 13 anos, que queria cursar o high school nos Estados Unidos, Andrea ouviu o desejo com atenção, mas não imaginou que aquela vontade mudaria o destino de todos.

Em 2016, aos 15 anos, a jovem foi para o Maine estudar durante um ano e aprimorar o inglês. O plano era temporário. Ela já estava no último nível do curso de idiomas no Brasil e retornaria depois da experiência. No entanto, durante o 10º ano, descobriu que poderia avançar para o 12º, concluir o ensino médio nos Estados Unidos e se candidatar a universidades americanas.

O que para a filha parecia uma oportunidade extraordinária, para os pais representava uma equação difícil. O dólar continuava subindo, havia mais duas meninas para criar e a vida da família estava estruturada no Brasil.

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Então veio outra notícia.

Em 2017, o marido de Andrea soube que a empresa onde trabalhava fecharia o escritório de São Paulo. Não havia possibilidade de transferência, e ele se aproximava dos 50 anos, uma idade em que, no mercado brasileiro, a busca por uma nova colocação pode se tornar especialmente difícil, mesmo para profissionais experientes.

Em fevereiro de 2018, a filha mais velha já estava matriculada em uma faculdade na Flórida. O marido estava desempregado. Andrea continuava trabalhando em 12 clínicas, mas sabia que, sozinha, dificilmente conseguiria sustentar toda a estrutura familiar, incluindo os estudos da filha nos Estados Unidos.

Foi então que ele sugeriu algo que ela não queria ouvir: talvez tivesse chegado a hora de todos se mudarem.

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A primeira resposta foi não.

Andrea não conseguia imaginar deixar o tio-avô, então com 92 anos. Ele dependia dela, e partir significaria abandonar uma responsabilidade afetiva que havia assumido muito antes de pensar em imigração.

Mas, em março daquele mesmo ano, ele faleceu.

A perda trouxe dor, mas também eliminou o principal impedimento que mantinha Andrea no Brasil. Foi ela quem procurou o marido e disse que começassem a pesquisar caminhos legais para viver nos Estados Unidos.

A família tinha uma vantagem importante. Andrea é filha de espanhola, e os avós haviam emigrado para o Brasil na década de 1950. Com a cidadania europeia, surgiu a possibilidade de solicitar um visto de investidor. Para que o projeto fosse consistente, porém, o negócio precisaria dialogar com a experiência profissional dela.

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Seu marido viajou aos Estados Unidos em abril de 2018 com uma pasta de oportunidades selecionadas com o apoio de um corretor de empresas. Alguns negócios foram descartados porque a contabilidade não parecia segura. Entre as opções restantes havia uma companhia de comunicação visual em Tampa e uma clínica de estética em Winter Park.

A escolha pelo spa pareceu lógica. Andrea era dentista, possuía formação em procedimentos como aplicação de toxina botulínica e tinha familiaridade com saúde, estética e atendimento ao público. Uma empresa de placas e adesivos dificilmente teria relação com sua trajetória; uma clínica de cuidados estéticos, por outro lado, permitia construir um plano coerente para a imigração.

Em apenas cinco meses, a família precisou tomar decisões que normalmente levariam anos. Vendeu apartamento, dois carros, consultório e outros bens. Desfez-se não apenas de patrimônio, mas de objetos que carregavam memória: pinturas, recordações e trabalhos escolares das filhas que não cabiam nas duas malas permitidas para cada pessoa.

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Para Andrea, essa foi uma das dores mais silenciosas da mudança. Não era apenas vender coisas. Era decidir quais partes de uma vida inteira poderiam atravessar o aeroporto e quais precisariam permanecer apenas na lembrança.

Em agosto de 2018, ela chegou à Flórida com o marido e as filhas mais novas, então com oito e nove anos. A mais velha já estava nos Estados Unidos. A família comprou o spa de uma proprietária que dizia estar pronta para se aposentar depois de décadas de atuação na região.

No dia da conclusão do negócio, a antiga dona chorou. Disse estar feliz com a venda, mas temia entrar em depressão se deixasse de trabalhar. Pediu para permanecer mais um ou dois anos como funcionária.

Andrea e o marido aceitaram. Parecia uma decisão sensata. A antiga proprietária conhecia os clientes, dominava a rotina da clínica e poderia facilitar a transição. A permanência dela também reduziria a perda natural de pessoas que, em negócios de serviços, costumam ser fiéis ao profissional, e não apenas à empresa.

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O que parecia uma segurança, no entanto, tornou-se o início do período mais difícil da vida de Andrea nos Estados Unidos.

Logo nos primeiros meses, uma funcionária antiga decidiu sair. Segundo explicou, havia dedicado anos ao spa e imaginava que um dia teria a oportunidade de comprá-lo. Sentiu-se traída ao descobrir que a empresa havia sido vendida a terceiros.

Em seguida, surgiram outros problemas. Andrea e o marido começaram a desconfiar de informações contraditórias sobre agendas, atendimentos e clientes. Como ela ainda não compreendia bem o inglês falado, ele assumiu a presença diária na recepção, mesmo que aquele ambiente fosse voltado majoritariamente a tratamentos femininos.

Dez meses depois, o marido conseguiu emprego em uma empresa na qual já havia trabalhado no Brasil. Era uma oportunidade importante para a estabilidade da família, mas havia uma condição: no início, ele precisaria trabalhar presencialmente em Massachusetts e voltar para casa apenas nos fins de semana.

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Andrea ficou sozinha com as filhas, a casa e um negócio que ainda não conseguia administrar plenamente no idioma local.

Foi uma inversão completa de identidade. No Brasil, ela era uma dentista experiente, procurada por várias clínicas. Nos primeiros meses nos Estados Unidos, passou a maior parte do tempo cozinhando, limpando, levando e buscando as crianças na escola. Quando precisou assumir o spa, não dominava o inglês falado e ainda desconhecia vários aspectos do mercado americano.

“Mulheres abrem mão de suas vidas por amor aos filhos e ao companheiro”, ela resume.

A solidão também pesava. Não havia pais, irmãos, amigos antigos ou uma rede de apoio por perto. Tudo o que antes poderia ser resolvido com uma ligação ou uma visita passou a depender exclusivamente dela.

Enquanto tentava compreender a operação, Andrea afirma ter enfrentado uma relação profundamente conflituosa com a antiga proprietária. De acordo com seu relato, novas contratações eram desencorajadas, profissionais deixavam o espaço e clientes ouviam comentários negativos sobre os compradores brasileiros. Andrea entendia parte do que era dito, mas ainda não tinha fluência suficiente para se defender.

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Esse talvez tenha sido um dos sentimentos mais frustrantes daquele período: saber que estavam falando sobre ela, compreender a hostilidade e não encontrar as palavras certas para responder.

A antiga proprietária tinha décadas de relacionamento com as clientes. Andrea era a estrangeira recém-chegada, com dificuldade no idioma e sem uma história construída naquela comunidade. Em uma disputa de versões, ela sabia quem parecia mais confiável aos olhos do público.

O conflito cresceu e chegou à esfera jurídica. A família contratou advogados, reuniu mensagens e registros e tentou proteger o negócio. Segundo Andrea, os gastos se aproximaram de 100 mil dólares. Para quem havia vendido praticamente tudo no Brasil e investido o patrimônio no spa, aquilo representava uma sangria que poderia destruir a empresa e a estabilidade da família.

Ela também relata que clientes foram estimulados a pedir reembolsos de pacotes já vendidos, o que provocou um impacto financeiro imediato. O negócio perdia receita, enfrentava despesas jurídicas e ainda precisava sustentar o visto que permitia à família permanecer legalmente nos Estados Unidos.

Em menos de dois anos, Andrea passou de uma carreira consolidada em São Paulo para a possibilidade real de perder tudo o que havia levado décadas para construir.

Então chegou março de 2020.

A pandemia fechou o spa e esvaziou de uma vez o pouco que ainda parecia seguro. Sem atendimentos, com o marido trabalhando para sustentar a casa e sem reservas suficientes, a família chegou a buscar alimentos distribuídos por uma igreja.

Para Andrea, essa imagem resume o tamanho da queda. Pouco tempo antes, ela tinha apartamento, carros, consultório e uma agenda profissional intensa no Brasil. Agora, estava em outro país, com as portas da empresa fechadas, dependendo de ajuda para atravessar uma crise que ninguém sabia quanto tempo duraria.

Ela chegou a fazer as malas.

Queria voltar.

Mas voltar para onde?

O apartamento havia sido vendido. O consultório já não existia. Os carros, os móveis e boa parte do patrimônio tinham sido transformados no investimento americano. Ela não tinha sequer uma casa pronta para receber as três filhas no Brasil.

Desistir não significaria apenas admitir que o plano falhou. Significaria retornar sem estrutura, sem trabalho organizado e sem saber como recomeçar mais uma vez.

Foi nesse momento que Andrea entendeu que precisava se ressignificar.

Ela não podia continuar dependendo de profissionais que poderiam sair a qualquer momento. O spa precisava de alguém licenciado, capaz de executar os procedimentos, criar relacionamento com as clientes e assumir a empresa de verdade.

A dentista decidiu voltar a estudar.

Licenciou-se como esteticista e ampliou sua formação. Tornou-se também micropigmentadora e flebotomista. Aprendeu procedimentos como microagulhamento, tratamentos para recuperação capilar, curvatura de cílios, depilação e outras técnicas utilizadas no spa.

O inglês, que durante tanto tempo havia sido uma barreira, começou a melhorar justamente porque ela deixou de poder evitá-lo. Precisava atender, explicar tratamentos, responder a dúvidas, conversar com fornecedores e conquistar a confiança das clientes.

Uma delas teve papel especial nessa transformação. Quando Andrea ainda dizia que nunca conseguiria tocar a clínica sozinha, essa cliente insistia que conseguia enxergá-la no comando do negócio.

Andrea não acreditava.

A cliente acreditava por ela.

Com o tempo, a previsão se realizou. A aproximação com o público mudou o ambiente. As clientes passaram a conhecer Andrea diretamente, perceber seu esforço e confiar em seu trabalho. Os comentários positivos começaram a aparecer, e o spa deixou de ser apenas o investimento que sustentava o visto. Tornou-se uma empresa que ela sabia administrar.

Apesar das experiências difíceis, Andrea faz questão de não transformar sua história em uma acusação contra os Estados Unidos ou contra os americanos. Pelo contrário, diz que encontrou neles respeito, incentivo e disposição para ajudar.

Ela nunca foi ridicularizada pelo sotaque. Quando não entendia algo, muitos repetiam com paciência. As pessoas reconheciam seu esforço e davam espaço para que aprendesse.

Para Andrea, o conflito que quase destruiu o negócio foi causado por indivíduos, não por uma nacionalidade. Seu relacionamento com os clientes americanos se tornou uma das partes mais positivas da experiência.

Durante a pandemia, a família também iniciou outra mudança decisiva. Como o marido é engenheiro, eles buscaram uma categoria migratória que poderia levar à residência permanente. A transição foi concluída, e o Green Card finalmente chegou.

A diferença foi profunda.

O visto de investidor permitia que a família permanecesse no país enquanto mantivesse as condições exigidas, mas não oferecia um caminho direto para a residência permanente. Com o Green Card, Andrea deixou de sentir que toda a vida familiar dependia exclusivamente do futuro do spa.

A segurança migratória abriu espaço para pensar além da sobrevivência.

Hoje, aos 54 anos, Andrea administra o spa em Winter Park, atende clientes, fala inglês no dia a dia e olha para trás com a consciência de que sobreviveu a uma fase que poderia tê-la destruído. As filhas cresceram. As duas mais novas, que chegaram com oito e nove anos, agora têm 16 e 17. Trabalham, dirigem e circulam com uma liberdade que, para a mãe, representa uma das maiores conquistas da imigração.

A busca por segurança tem uma origem dolorosa. Em 2000, Andrea perdeu o irmão, aos 19 anos, vítima de um assalto em São Paulo. Essa perda nunca deixou de influenciar a maneira como enxerga a vida.

Nos Estados Unidos, ela vê as filhas estudando, trabalhando e dirigindo sem o mesmo medo que marcou sua história familiar. Não considera o país perfeito. Critica, por exemplo, o sistema de saúde e reconhece que algumas regiões também enfrentam problemas. Ainda assim, sente que os impostos retornam em forma de escolas, ruas cuidadas, organização e serviços públicos.

Para uma mulher que conhece o preço da violência, poder deixar uma encomenda na porta ou ver as filhas saírem de carro sem entrar em pânico não é um detalhe. É uma forma de paz.

Existe, porém, um capítulo que ainda não foi concluído.

Andrea aprendeu estética por necessidade, salvou o spa e construiu respeito em uma profissão nova. Mesmo assim, quando fala sobre o futuro, sua voz retorna sempre ao mesmo lugar.

“Meu coração é da Odontologia. Preciso voltar para o que sou.”

Ela pretende vender o spa, revalidar a formação e cumprir todo o processo necessário para exercer a Odontologia nos Estados Unidos. Sabe que não haverá atalhos. Aos 54 anos, está disposta a estudar novamente, conseguir licenças e, se for necessário, começar em um consultório como auxiliar ou higienista.

Não considera isso uma humilhação. Considera parte do caminho.

Andrea descende de imigrantes espanhóis que chegaram ao Brasil na década de 1950, trabalharam muito e conseguiram formar os filhos em universidades. Agora, percebe que está repetindo esse movimento em outra direção. Assim como os avós abriram caminhos para a geração seguinte, ela espera que as filhas construam oportunidades ainda maiores nos Estados Unidos.

Quando conquistar a cidadania, pretende buscar alternativas para ter os pais por perto. Durante a pandemia, o pai enfrentou um câncer, e Andrea sofreu por não poder acompanhá-lo como gostaria. A distância continua sendo uma das partes mais difíceis da imigração.

Seu maior orgulho não está apenas em ter mantido a empresa ou conquistado o Green Card. Está em não ter desistido quando todas as circunstâncias pareciam dizer que o melhor seria parar.

Ela perdeu dinheiro, enfrentou conflitos, viu o negócio fechar, buscou comida na igreja e chegou a arrumar as malas. Ainda assim, ficou.

Ficou pelas filhas. Ficou porque já não havia uma vida pronta esperando no Brasil. Ficou porque acreditou que aquele período não poderia ser o final da história.

E não foi.

Hoje, Andrea não é apenas a dentista que deixou São Paulo, nem apenas a esteticista que salvou um spa na Flórida. Ela é a mulher que precisou desmontar a própria identidade, sobreviver ao momento mais difícil e descobrir que recomeçar não significa abandonar quem se foi.

Às vezes, significa atravessar anos de luta para finalmente encontrar o caminho de volta.

O próximo sonho de Andrea não é comprar outra empresa nem ampliar a clínica. É retornar ao consultório, vestir novamente a identidade profissional que nunca deixou de carregar e exercer a Odontologia no país onde suas filhas estão construindo o futuro.

Depois de vender uma vida inteira, quase perder tudo e reconstruir a própria história, ela se prepara para começar outra vez.

Não do zero.

Mas com toda a força de quem já aprendeu que sobreviver também é uma forma de vencer.

Jacy Abreu

Jacy Abreu

Redatora do portal Vou Para América, com cerca de 30 anos de experiência na área de Comunicação. Ao longo da carreira, atuou em grandes empresas de mídia como América Online e Editora Abril. Possui ampla experiência em produção de conteúdo jornalístico e institucional, coordenação de projetos de comunicação e planejamento editorial. É fundadora da Lumepress Comunicação, agência de assessoria de imprensa.

Fontes e Créditos

Entrevista concedida por Andrea Jimenez. Respostas escritas e áudios enviados pela entrevistada Informações compartilhadas com a equipe do Vou Pra América

Transparência Editorial

Este conteúdo foi produzido a partir das informações e percepções relatadas diretamente por Andrea Jimenez. Os conflitos empresariais e jurídicos mencionados refletem a versão da entrevistada e foram resumidos para preservar o foco narrativo, evitar a exposição desnecessária de terceiros e manter a história adequada ao formato editorial. O texto organiza os acontecimentos em formato storytelling sem alterar a essência da trajetória compartilhada.

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