
Após meses de incerteza até o diagnóstico de autismo da filha, André e Dani Sophia decidiram recomeçar a vida na Flórida em busca de tratamento especializado. A experiência pessoal acabaria levando, anos depois, à criação de estruturas terapêuticas fundamentadas na ciência, na integração clínica e no suporte emocional às famílias.
Antes dessa virada, o futuro da família parecia previsível. No Rio de Janeiro, Dani era formada em moda e já havia atuado como estilista, mas optou por interromper a carreira após o nascimento de Valentina para se dedicar integralmente à filha. André, por sua vez, avançava de forma consistente no setor financeiro, ocupando posições estratégicas em grandes empresas. A estabilidade profissional dele e o planejamento familiar indicavam uma vida organizada dentro do esperado.
Essa sensação começou a se desfazer quando Valentina, ainda muito pequena, passou a apresentar mudanças sutis no desenvolvimento. Até cerca de um ano e oito meses, o progresso era considerado típico. Ela falava palavras simples, respondia a estímulos e interagia com o ambiente. Com o tempo, porém, algumas dessas habilidades deixaram de aparecer com a mesma frequência.
O silêncio não foi total. A menina ainda pronunciava termos ligados a desejos muito específicos, como o nome de personagens ou objetos favoritos. Essa intermitência tornou o processo ainda mais difícil de interpretar. A hipótese inicial era de que se tratava apenas de uma fase passageira.
Sem respostas claras, a família iniciou uma sequência intensa de consultas, exames e avaliações com diferentes especialistas. As hipóteses médicas variavam. Nenhuma explicação definitiva surgia. A ausência de diagnóstico produziu um impacto emocional profundo.
Segundo Dani, o medo chegou a assumir proporções extremas. A possibilidade de uma condição rara ou fatal passou a ocupar seus pensamentos. Na tentativa de recuperar habilidades e estimular o desenvolvimento da filha, Valentina foi matriculada simultaneamente em diferentes terapias.
O diagnóstico conclusivo veio apenas próximo dos três anos de idade. Autismo. A notícia trouxe um sentimento inesperado. Em vez de desespero, surgiu alívio. A confirmação indicava que não se tratava de uma doença degenerativa. Existiam caminhos terapêuticos possíveis, baseados em evidências e acompanhamento contínuo.
Durante uma consulta com o neurologista responsável pelo acompanhamento da criança, o casal fez uma pergunta direta sobre o melhor local do mundo para o tratamento. A resposta apontou para Weston, na Flórida, conhecida pela concentração de clínicas estruturadas e programas baseados na terapia comportamental aplicada, a ABA.
A decisão de mudar de país não foi simples. André estava profissionalmente consolidado no Brasil. A família não possuía rede de apoio nos Estados Unidos. Mesmo assim, após meses de reflexão, escolheram reorganizar completamente a própria vida em torno de uma nova prioridade.
A mudança marcou o início de uma fase de adaptação intensa. Nos primeiros anos no sistema terapêutico americano, a família reconheceu a qualidade técnica dos serviços, mas também identificou lacunas no suporte oferecido aos pais. A falta de integração entre especialidades e o desgaste emocional das famílias passaram a incomodar Dani de forma crescente.
Esse incômodo se transformou em projeto durante a pandemia. Ao lado de outras pessoas impactadas pelo autismo e pelo trabalho clínico com ABA, ela participou da criação da Infinite Minds. A proposta inicial não era transformar o negócio na principal fonte de renda da família. André seguiu atuando como executivo financeiro por um período enquanto a estrutura da clínica ganhava consistência.
O diferencial estava na abordagem. Antes mesmo da terapia formal, o foco seria o acolhimento. Muitas famílias chegavam sem informação suficiente para compreender o diagnóstico ou organizar a rotina de cuidados. Em diversos casos, o primeiro passo necessário era simplesmente escutar.
Com o crescimento das atividades, uma percepção estratégica ganhou força. A terapia comportamental isolada não atendia a todas as necessidades de crianças no espectro. Tornava-se evidente a importância de integrar diferentes especialidades, como fonoaudiologia, terapia ocupacional, psicologia e atividades motoras, sob um mesmo padrão de acompanhamento.
A partir dessa visão surgiu a Connection, concebida como um centro transdisciplinar. A estrutura buscava reunir profissionais diversos em um único ambiente, com protocolos compartilhados e comunicação constante entre as equipes.
A escolha da cidade para expansão refletiu uma leitura clara do movimento migratório brasileiro. Em vez de permanecer em Weston, onde já existia uma rede consolidada de atendimento especializado, o grupo optou por Orlando. A região vinha atraindo cada vez mais famílias em processo de recomeço, embora historicamente não fosse reconhecida pela excelência em terapias voltadas ao autismo.
A estratégia pretendia ampliar o acesso. Para André, o sucesso terapêutico não depende apenas da qualidade técnica. O equilíbrio emocional e financeiro das famílias influencia diretamente a continuidade dos tratamentos.
Existe ainda um aspecto pouco conhecido dessa trajetória. Apesar de terem participado da criação de um dos centros mais completos da região, o casal não pode atender a própria filha dentro das estruturas que ajudou a desenvolver. Normas éticas que regem o exercício clínico impedem esse tipo de atuação direta.
Na prática, isso significa que o sistema construído a partir de uma experiência pessoal passou a beneficiar outras famílias antes mesmo de poder ser plenamente utilizado dentro de casa.
Hoje, a história do casal circula entre comunidades brasileiras como referência de busca por tratamento especializado no exterior. O que começou como um período marcado por incerteza evoluiu para a construção de um modelo que combina ciência, integração terapêutica e suporte emocional.
Uma trajetória em que o medo inicial foi gradualmente transformado em missão.
Relato direto da família envolvida Contexto geral sobre terapias ABA e migração por saúde com base em cobertura histórica de veículos brasileiros sobre o tema
Esta matéria foi produzida a partir de relato dos protagonistas e requer validações documentais adicionais sobre registros empresariais, volume de atendimento e certificações clínicas. O portal opta pela publicação diante do evidente interesse público e relevância comunitária, mantendo abertura para atualizações futuras.
Redatora do portal Vou Para América, com cerca de 30 anos de experiência na área de Comunicação. Ao longo da carreira, atuou em grandes empresas de mídia como América Online e Editora Abril. Possui ampla experiência em produção de conteúdo jornalístico e institucional, coordenação de projetos de comunicação e planejamento editorial. É fundadora da Lumepress Comunicação, agência de assessoria de imprensa.