
Viviane Lima não cresceu sonhando com a América.
A vida dela estava no Ceará. Em Fortaleza, depois no Porto das Dunas, onde construiu uma rotina que misturava família, casa e trabalho. Mãe, empreendedora e cozinheira por vocação, transformou o talento herdado dentro de casa em renda, produzindo salgados finos para eventos e atendendo desde encontros pequenos até coquetéis maiores.
Foi observando a mãe ensinar gastronomia em escolas como o Senac que o interesse nasceu. Vieram os cursos, a profissionalização e os clientes. A vida era estável, conhecida, construída com esforço.
Mudar de país nunca esteve nos planos. Ter um negócio fora do Brasil, menos ainda.
Mas algumas decisões não começam com planejamento. Começam com um impacto.
Depois da pandemia, ela veio aos Estados Unidos com a mãe para visitar o irmão, que já morava no país há dez anos. A ideia era simples: conhecer a família e passear. Quinze dias bastaram para mudar tudo.
A organização da cidade, o comportamento das pessoas, o funcionamento das coisas chamaram atenção. Mais do que isso, surgiu a sensação de que existia outra forma de viver.
Em pouco tempo, ela entendeu que queria estar ali com a própria família.
O desafio, então, não era ir. Era convencer quem ficava.
O marido e o filho nunca tinham ido aos Estados Unidos. A decisão exigia coragem, ruptura e confiança. Mesmo assim, ela insistiu. Disse que a vida que levavam no Brasil era uma falsa sensação de qualidade e apostou nisso.
Vieram meses de planejamento. Um ano inteiro organizando a mudança. Venderam tudo: casa, carros, estrutura. Mesmo com apoio familiar ao chegar, sabiam que precisariam de reserva para sobreviver até encontrar uma forma de se sustentar.
Chegaram a Orlando no dia 1º de dezembro de 2023.
Na bagagem, vieram o medo, a incerteza e uma decisão silenciosa: não voltar.
O início foi duro.
O processo imigratório travou, as regras mudaram e passaram um ano sem conseguir dar entrada na documentação. Nesse período, viveram uma realidade comum a muitos imigrantes recém-chegados: precisavam trabalhar, mas não tinham permissão.
Era risco. Era necessidade.
Mas nunca foi opção desistir.
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Sem muitas alternativas, Viviane começou pelo caminho mais comum. Virou helper em limpeza de casas, entrou em grupos de brasileiros e buscou oportunidades como podia.
Logo entendeu uma das primeiras barreiras: quem contrata quer experiência. Poucos querem ensinar.
Quando surgem oportunidades, nem sempre são justas.
Ela viveu isso de forma direta. Trabalhou por valores baixos, foi enganada, desrespeitada e chegou a limpar 28 banheiros em um único dia por 60 dólares.
Não romantiza essa fase. Também não se coloca como exceção.
“Não sou a primeira, nem serei a última”, diz.
Mesmo assim, não parou.
Enquanto trabalhava, estudava o mercado. Observava produtos, técnicas, comportamento dos clientes. Entendia, aos poucos, como aquele setor funcionava de verdade.
Sabia que não queria permanecer naquele lugar.
Queria autonomia.
A transição veio quando passou a trabalhar com limpeza de casas de temporada. A rotina ficou ainda mais intensa, com dias seguidos de trabalho e poucas horas de descanso. O marido virou parte essencial da logística, levando, buscando e ajudando a manter o ritmo.
Em muitos dias, ela saía de um trabalho e aguardava na calçada, com todo o material, até seguir para o próximo cliente.
Era nesse momento que, às vezes, ligava para a irmã no Brasil e desabafava.
“O jeito que a América humilha a gente é diferente.”
Mas havia algo maior sustentando tudo.
Ela sabia exatamente o que estava buscando.
Com o tempo, começou a divulgar o próprio trabalho em grupos no Facebook. Pequenos anúncios, insistência e presença. Nos Estados Unidos, indicação é o que constrói reputação.
E as primeiras vieram.
Um cliente. Depois outro. Depois mais um.
Até que chegou o momento de deixar as casas de temporada. Já havia clientes suficientes para pagar as contas. A partir dali, a construção mudou de nível.
Ainda havia limitações.
Sem carro próprio, dependia do marido para se locomover, o que dificultava a expansão. Até que veio uma virada importante: o filho deu a ela um carro.
Foi mais do que mobilidade. Foi independência.
Com isso, a operação ganhou ritmo. Vieram mais clientes, mais organização e mais controle do próprio tempo.
Em fevereiro de 2024, nasceu oficialmente a Viviane Solutions Company.
No início, como uma necessidade prática para formalizar o trabalho. Com apoio do filho Victor, que estruturou planilhas e processos, do marido Roberto, que garantiu suporte constante, e do irmão Vinicius, que abriu portas nas comunidades americanas, a base do negócio se consolidou.
A empresa cresceu.
Hoje, atende cerca de 30 clientes, em sua maioria famílias americanas, com alto nível de fidelização. A operação inclui limpeza residencial, comercial e gestão de casas de temporada, com equipes treinadas e padrão definido.
São de três a quatro atendimentos por dia.
Mas há uma regra central.
O cliente decide quem fica.
A qualidade não é discurso. É prática.
Viviane fala com tranquilidade sobre preconceito. No início, veio principalmente de brasileiros. Mas ela não carrega isso como peso. Transformou em aprendizado e direção.
Hoje, afirma que nunca sofreu desrespeito na comunidade americana onde atua. Pelo contrário, fala de reconhecimento, confiança e oportunidades que continuam surgindo.
O que construiu vai além de um negócio.
É uma reputação.
E também uma nova relação com o trabalho.
No meio de 2025, ela percebeu que aquilo que começou como sobrevivência poderia se transformar em qualidade de vida. Não apenas financeira, mas de tempo, de escolha e de autonomia.
Esse era o verdadeiro objetivo.
Liberdade.
Hoje, ela olha para a própria trajetória com clareza. Sabe o quanto foi difícil, reconhece os desafios, mas não tem dúvida sobre a decisão que tomou.
Se pudesse voltar no tempo e conversar com a Viviane que estava em Fortaleza, aos 48 anos, vendendo tudo para recomeçar, diria algo simples.
Nada vai ser fácil.
Mas vai valer a pena.
E talvez seja isso que define sua história.
Ela não construiu apenas uma empresa.
Construiu uma vida que faz sentido.
Conheça a Viviane Solutions Company.
Relato exclusivo de Viviane Lima, fundadora da Viviane Solutions Company, concedido ao portal Vou pra América
Esta matéria foi produzida com base em entrevista direta com a personagem. Todas as informações foram extraídas do relato fornecido, sem inclusão de dados externos não verificados, conforme a política editorial de não fabricação e verificação de conteúdo.
Redatora do portal Vou Para América, com cerca de 30 anos de experiência na área de Comunicação. Ao longo da carreira, atuou em grandes empresas de mídia como América Online e Editora Abril. Possui ampla experiência em produção de conteúdo jornalístico e institucional, coordenação de projetos de comunicação e planejamento editorial. É fundadora da Lumepress Comunicação, agência de assessoria de imprensa.