Da favela para Harvard: Como Natalhia Viana transformou desafios em oportunidades

Da favela para Harvard: a história de Natalhia Viana
Natalhia Viana não nasceu cercada de oportunidades. Ela nasceu cercada de desafios.
Na periferia do Rio de Janeiro, estudar nunca foi apenas estudar. Às vezes, era preciso lidar com escola sem professor. Com tempo vago demais. Com uma base educacional frágil. Com a realidade dura de quem, em alguns dias, precisava largar o caderno, deitar no chão da própria casa e esperar o barulho do tiroteio passar.
Mas, mesmo em um cenário onde muita gente aprende cedo a diminuir os próprios sonhos, Natalhia começou a enxergar uma saída.
E essa saída veio pela educação.
O primeiro grande sinal aconteceu em uma competição empreendedora da Junior Achievement. O desafio era simples: criar o MVP de um projeto. Natalhia não sabia quase nada sobre empreendedorismo, storytelling ou pitch. Mas ela tentou. Aprendeu. Participou. E venceu.
O prêmio não era dinheiro, viagem ou fama. Era um voucher de R$ 200 ou R$ 300 para comprar livros.
Para muita gente, aquilo poderia parecer pouco. Para Natalhia, foi enorme.
Porque naquele momento ela entendeu algo que mudaria sua vida: talvez aquele universo das competições, das ideias e da educação empreendedora pudesse abrir uma porta para fora da realidade que ela conhecia.
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E abriu.
Depois daquele primeiro feedback, quando ouviu que tinha potencial, Natalhia decidiu acreditar. Começou a participar de outras competições. Uma após a outra. Em 2021, venceu mais de 12 competições nacionais e internacionais, incluindo desafios como Ita Challenge, Fundação Casas Bahia, JA Startup Dell e outros.
Mas o grande divisor de águas foi o Desafio TACK4.
Naquele ano, o tema era tecnologia como agente de transformação social. Natalhia e sua equipe criaram um projeto de startup de NFT voltada para artistas independentes da periferia. A ideia era construir a maior galeria virtual de arte popular do Brasil em NFT.
Foram seis meses de dedicação. Pesquisa. Mentoria. Eventos. Conversas com artistas. Testes. Erros. Ajustes. Ensaios de pitch. Tudo isso enquanto Natalhia ainda precisava estudar para o ENEM, no último ano do ensino médio.
Ela estava tentando construir o futuro enquanto ainda lutava para atravessar o presente.
Então veio o resultado.
A banca final foi online, durante a pandemia. Natalhia estava em casa, no Rio de Janeiro. A mãe estava sentada na sala, de frente para ela. O computador estava no volume máximo.
Quando anunciaram que a equipe dela tinha vencido em primeiro lugar, a mãe começou a gritar de felicidade. Natalhia se emocionou. Não era só uma vitória em uma competição. Era a sensação de que todo esforço tinha valido a pena.
Era como se a vida dissesse: “Você conseguiu. Agora o caminho mudou.”
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E mudou mesmo.
A vitória levou Natalhia a Harvard.
A menina que descia a ladeira da favela para estudar em uma escola pública, muitas vezes sem aula, agora pisava em um dos campus mais importantes do mundo.
Ao chegar em Harvard, Natalhia se emocionou. Viu as bibliotecas, os prédios, os dormitórios, a história daquele lugar. Mas o impacto maior não foi apenas a grandiosidade da universidade. Foi perceber o contraste.
Ela tinha saído da favela e estava ali.
Representando sua família. Sua comunidade. Sua história. E todos os jovens que, como ela, cresceram ouvindo que certos lugares não eram para eles.
Naquele momento, Natalhia entendeu que uma experiência nos Estados Unidos não é apenas uma viagem. É uma mudança de mentalidade.
Estar em Harvard e no MIT, durante a Brazil Conference, abriu horizontes. Ela viu brasileiros ocupando espaços globais. Conheceu histórias de pessoas que também vieram da periferia e chegaram a universidades como MIT. Conversou com líderes, estudantes e referências que mostravam, na prática, que o impossível muitas vezes é só aquilo que ainda não foi planejado.
A experiência nos Estados Unidos mostrou para Natalhia uma realidade completamente diferente. Um ambiente onde educação, inovação, liderança e ambição caminham juntos. Um lugar onde o sonho americano deixa de parecer uma fantasia distante e começa a parecer um projeto possível.
Mas possível não significa fácil.
O sonho americano exige preparo. Exige inglês. Exige planejamento. Exige coragem para tentar, disciplina para continuar e visão para aproveitar as oportunidades certas.
Natalhia voltou diferente.
Depois da viagem, participou do processo seletivo do ProLíder, programa de formação de lideranças no Brasil. Foram cerca de 13 mil inscritos para apenas 60 vagas. Ela foi selecionada. Era a mais jovem da turma. Foi assim, inclusive, que conheceu São Paulo.
Hoje, Natalhia mora em São Paulo, cursa Administração e trabalha no corporativo do Itaú Unibanco. Pretende voltar aos Estados Unidos para fazer intercâmbio, morar legalmente no futuro e realizar um MBA em empreendedorismo.
A história dela não é sobre sorte.
É sobre uma jovem que decidiu não aceitar a realidade como sentença. Que usou a educação empreendedora como ponte. Que entendeu que oportunidades existem, mas precisam ser buscadas com preparo. Que viu nos Estados Unidos não apenas um destino, mas uma janela para um mundo maior.
Natalhia Viana saiu da favela para Harvard aos 17 anos.
E talvez a parte mais bonita dessa história seja que ela não foi sozinha.
Quando ela chegou lá, levou junto a mãe que gritou na sala, os amigos de projeto, os artistas da periferia, os jovens da comunidade e todos aqueles que precisavam ver alguém parecido com eles atravessando uma porta que parecia impossível.
Porque quando uma jovem da favela pisa em Harvard, ela não realiza apenas o próprio sonho.
Ela prova que outros também podem sonhar.
Jacy Abreu
Redatora do portal Vou Para América, com cerca de 30 anos de experiência na área de Comunicação. Ao longo da carreira, atuou em grandes empresas de mídia como América Online e Editora Abril. Possui ampla experiência em produção de conteúdo jornalístico e institucional, coordenação de projetos de comunicação e planejamento editorial. É fundadora da Lumepress Comunicação, agência de assessoria de imprensa.
Fontes e Créditos
Entrevista exclusiva concedida por Natalhia Viana ao portal Vou pra América.
Transparência Editorial
Esta reportagem foi produzida a partir de entrevista concedida por Natalhia Viana ao portal Vou pra América. As informações relacionadas à trajetória pessoal, participação em competições, viagem aos Estados Unidos e planos futuros foram fornecidas pela entrevistada e organizadas editorialmente pela redação.