
Antes de Harvard, antes da Forbes, antes de ser reconhecida como uma das pessoas negras mais influentes do mundo em filantropia e impacto social, Bia Santos aprendeu sobre dinheiro dentro de casa.
Não foi em planilhas sofisticadas, nem em cursos caros, muito menos em grandes salas de reunião. Foi observando a mãe equilibrar contas, reorganizar o orçamento e transformar limitação em estratégia. Foi ali, dentro de casa, no Cachambi, bairro do subúrbio do Rio de Janeiro, que sua história realmente começou.
Criada em uma família de classe média baixa, ela cresceu em um ambiente onde estudar nunca foi opcional. Era prioridade. Mas prioridade não significava facilidade. As oportunidades eram limitadas e o orçamento exigia disciplina diária.
A mãe fazia o impossível para garantir que a filha pudesse seguir em frente. Sem acesso a uma educação financeira estruturada, ensinava na prática aquilo que muitos só descobrem tarde: dinheiro também é sobre dignidade, autonomia e possibilidade.
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Foi ali que Bia começou a entender o mundo.
“Minha mãe foi minha primeira referência de disciplina, responsabilidade e visão de futuro”, conta. “Ela me criou para alçar voos altos e sempre me incentivou a correr atrás dos meus objetivos, mesmo que parecessem distantes.”
Muito antes da Barkus, empresa que fundaria anos depois, existia essa inquietação silenciosa de quem percebe cedo que realidade social não é destino inevitável. Existia a sensação de que algumas estruturas precisavam ser questionadas, e de que o dinheiro, muitas vezes tratado apenas como número, era também uma ferramenta de liberdade.
A virada começou ainda no ensino médio.
Em uma escola pública, ela teve acesso a algo que mudaria sua trajetória: pesquisa acadêmica. Aos 15 anos, influenciada por dois professores, iniciou um projeto sobre comportamento do consumidor jovem e educação financeira.
Naquele momento, ainda sem conseguir nomear completamente o que estava acontecendo, encontrou o tema que passaria a atravessar toda a sua vida.
Entender dinheiro deixou de ser apenas uma questão pessoal e passou a ser uma ferramenta de transformação coletiva.
“Quando as pessoas entendiam como o dinheiro funcionava, algo maior acontecia: elas começavam a questionar suas realidades, fazer escolhas diferentes e imaginar futuros.”
Essa percepção veio cedo e trouxe urgência.
Aos 17 anos, começaram os primeiros passos profissionais. Era um misto de curiosidade, necessidade e vontade de independência. Havia também a inquietação de quem queria entender como as coisas funcionavam fora da teoria, no mundo real.
Trabalhar cedo trouxe bagagem, mas também exigiu maturidade acelerada. Responsabilidades grandes chegaram antes do tempo confortável. Errar fez parte do processo.
Mas havia uma convicção que já começava a se desenhar com clareza: ela não queria apenas construir uma carreira. Queria construir algo que fizesse sentido.
Aos 20 anos, abriu o próprio negócio e se tornou a primeira empreendedora da família.
Nascia a Barkus.
A empresa surgiu de uma percepção simples e poderosa: a educação financeira que existia não conversava com a realidade da maioria das pessoas, principalmente das mais vulneráveis. Era técnica demais, distante demais, elitizada demais.
Faltava linguagem acessível. Faltava comportamento. Faltava vida real.
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Bia queria outro caminho.
A proposta da Barkus era tornar a educação financeira mais próxima, prática e transformadora, combinando comportamento, tecnologia e inclusão para pessoas que, até então, nunca tinham sido convidadas para essa conversa.
Não era apenas sobre ensinar finanças.
Era sobre devolver autonomia.
Criar um negócio tão jovem, no entanto, exigiu mais do que visão. Exigiu provar o tempo todo que ela sabia exatamente o que estava fazendo.
Ser CEO cedo significa liderar enquanto ainda se está aprendendo a ser adulta. Significa tomar decisões estratégicas enquanto a própria identidade profissional ainda está em formação. Significa sustentar escolhas importantes diante de pessoas mais velhas, mais experientes e, muitas vezes, mais desconfiadas.
A credibilidade virou um desafio permanente.
“Muitas vezes precisei provar mais, me posicionar mais e sustentar minhas decisões com ainda mais consistência”, afirma.
Mas havia uma camada ainda mais profunda.
Durante muito tempo, ela não se sentiu representada. Não via pessoas como ela ocupando espaços de decisão, inovação e liderança. Não via referências próximas que mostrassem aquele caminho como possível.
Isso poderia ter sido um freio.
Virou combustível.
Se não havia espelho, ela decidiu ajudar a construir um.
“Se eu não me via representada, então abracei o papel de ajudar a construir essas referências.”
Essa decisão mudou não apenas sua trajetória pessoal, mas a forma como passou a ocupar o próprio espaço. Ela não queria chegar sozinha.
Queria abrir passagem.
O reconhecimento veio.
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Entrar para a Forbes Under 30 Brasil foi um desses momentos em que o esforço deixa de ser apenas interno e ganha validação pública. Para quem empreende no Brasil, especialmente com impacto social, o caminho costuma ser longo, difícil e pouco reconhecido.
A lista funcionou como confirmação.
Era possível gerar impacto e resultado ao mesmo tempo. Era possível fazer o bem e construir um negócio sustentável.
Depois veio o reconhecimento internacional.
Bia foi incluída pelo MIPAD, iniciativa apoiada pela ONU, entre as 50 pessoas negras mais influentes do mundo em Filantropia e Impacto Social. Seu nome passou a dividir espaço com referências globais como Oprah Winfrey.
O peso simbólico disso não passou despercebido.
Não era apenas uma conquista profissional.
Era pertencimento.
Era a prova de que ocupar certos espaços também reescreve imaginários.
“Esse reconhecimento amplia a responsabilidade, mas também o senso de pertencimento”, resume.
Agora, a próxima fronteira tem nome e endereço.
Harvard University. Stanford University.
As aprovações para programas de mestrado em Educação com foco em Políticas e Liderança representam mais do que prestígio acadêmico. Representam continuidade.
Uma nova etapa de um projeto que começou muito antes, dentro de casa, observando uma mãe fazer milagres com pouco.
A decisão de estudar fora foi tomada em 2023 e não nasceu do impulso. Foi planejada com a mesma lógica que sempre guiou sua trajetória: intenção.
Cada escolha profissional, cada movimento de carreira e cada construção de reputação foram pensados como parte desse caminho. A experiência empreendedora, o trabalho com inclusão financeira e a atuação em diferentes espaços da esfera pública ajudaram a formar esse conjunto.
Mas, no fundo, Harvard e Stanford não são ponto de chegada.
São ferramenta.
O objetivo continua sendo maior.
Bia não fala sobre legado como quem pensa em homenagem futura. Ela fala como quem enxerga responsabilidade presente. Quer transformar o acesso à educação e à autonomia econômica no Brasil e, se possível, no mundo.
Mas há algo ainda mais importante.
Ela quer ampliar o imaginário de quem vem depois.
Quer que meninas negras, jovens periféricas e pessoas que cresceram ouvindo mais limites do que possibilidades possam olhar para esses espaços sem a pergunta que tantas vezes aparece primeiro.
Será que isso é para mim?
Ela quer substituir essa dúvida por outra.
Como eu chego lá?
Talvez essa seja a parte mais poderosa da sua trajetória.
Não Harvard. Não Forbes. Não ONU.
Mas a capacidade de transformar a própria história em autorização coletiva.
Porque algumas conquistas não mudam apenas uma vida.
Mudam o que outras pessoas passam a acreditar ser possível.
E isso, no fim, vale mais do que qualquer lista.
Entrevista exclusiva com Bia Santos para o portal Vou pra América
Esta matéria foi produzida com base em relato direto da entrevistada e informações fornecidas em entrevista exclusiva. O conteúdo foi estruturado em formato de perfil-reportagem, sem adição de fatos não confirmados externamente.
Redatora do portal Vou Para América, com cerca de 30 anos de experiência na área de Comunicação. Ao longo da carreira, atuou em grandes empresas de mídia como América Online e Editora Abril. Possui ampla experiência em produção de conteúdo jornalístico e institucional, coordenação de projetos de comunicação e planejamento editorial. É fundadora da Lumepress Comunicação, agência de assessoria de imprensa.