Carol Fialho: quando recomeçar longe de casa revelou um novo propósito

Nascida e criada em Fortaleza, no Ceará, ela é a mais velha de cinco irmãos. Cresceu cercada de primos e guarda entre suas melhores lembranças as temporadas na fazenda dos avós, no interior. Andava a cavalo, brincava na natureza e inventava peças para os adultos assistirem.
Mas havia algo que chamava atenção naquela menina: as perguntas.
Carol queria saber se no céu existiam casas e bairros, se reconheceria seus familiares quando chegasse lá e por que alguém fazia uma expressão de felicidade enquanto contava algo triste.
O avô se divertia com tanta curiosidade e sugeriu que ela procurasse algumas respostas nos livros. Deu à neta As Memórias da Bruxa Onilda. Carol se apaixonou pela leitura e nunca mais parou.
A curiosidade pelo comportamento humano acabaria se transformando em profissão.
Formada em Psicologia em 2013, com pós-graduação em Neuropsicologia e Psicodrama, Carol teve ainda na universidade uma experiência decisiva. Seu trabalho de conclusão nasceu do contato com crianças que viviam em situação de violência doméstica.
Ali, compreendeu a importância do cuidado psicológico na infância. Mais tarde, perceberia algo que se tornaria central em seu trabalho: não é possível cuidar de uma criança sem olhar também para os adultos e para as relações que existem ao redor dela.
Quando mudar de país significou recomeçar
Em 2016, Carol deixou o Brasil e mudou-se para os Estados Unidos para fazer um mestrado em Recursos Humanos e Gestão.
O que deveria ser uma experiência acadêmica tornou-se uma mudança definitiva de vida.
Nos Estados Unidos, construiu sua família, passou por diferentes experiências profissionais e precisou redescobrir seu lugar. A psicóloga que já tinha formação e uma carreira no Brasil viu sua trajetória se dividir entre a Psicologia, o mundo corporativo, a educação e, posteriormente, a maternidade.
Durante anos, uma pergunta a acompanhou:
“Será que estou perdendo tempo?”
Como acontece com tantos imigrantes, mudar de país significou também aceitar que o caminho talvez não continuasse exatamente do ponto onde havia parado.
Carol trabalhou no mundo corporativo, fez um mestrado em outra área e reduziu o ritmo da clínica, mas nunca abandonou a Psicologia. Continuou estudando desenvolvimento humano, parentalidade e relações familiares.
Hoje, enxerga aqueles desvios de outra maneira.
“Uma trajetória não precisa ser linear.”
Às vezes, é preciso dar passos para trás, recalcular o percurso e fazer o necessário para sobreviver e seguir em frente.
Foi nos Estados Unidos que Carol aprendeu uma das lições que melhor definem sua própria história: recomeçar não significa voltar ao início. A gente recomeça carregando tudo aquilo que aprendeu no caminho.
A maternidade mudou a psicóloga
Se a imigração transformou sua trajetória profissional, a maternidade transformou sua maneira de compreender tudo o que havia estudado.
A transição foi especialmente difícil. Longe de uma ampla rede de apoio, Carol sentiu a solidão e a sobrecarga que fazem parte da experiência de muitos imigrantes. Enfrentou também uma depressão pós-parto.
A maternidade reativou feridas da própria infância e a levou a fazer um trabalho profundo consigo mesma para oferecer à filha um modelo de relação mais saudável.
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Uma coisa era estudar apego, desenvolvimento infantil e regulação emocional.
Outra era viver tudo isso.
Carol começou a compreender que grande parte do sofrimento das famílias não nasce da falta de amor. Pais amam seus filhos. Mas amor, sozinho, não ensina necessariamente alguém a se relacionar.
Educamos a partir daquilo que vivemos, dos modelos que recebemos e, muitas vezes, das nossas próprias feridas.
Ao perceber o impacto que essa compreensão teve dentro de sua própria casa, Carol sentiu que precisava compartilhá-la.
Sua missão ganhou contornos mais claros: ajudar adultos, principalmente mães, a compreenderem melhor seus filhos e também a si mesmos.
Porque cuidar da infância também significa cuidar de quem está cuidando dela.
Um lugar seguro para famílias
Em julho de 2022, essa missão ganhou voz com a criação do [Apegados Podcast].(https://open.spotify.com/show/4IhnJ22l73m7BGmcW7sS1e?si=Sc7PZ0awQ5amPsMN3tcw6A&utm_source=copy-link)
Carol percebia uma distância enorme entre o conhecimento produzido sobre desenvolvimento infantil e aquilo que realmente chegava às famílias. Ao mesmo tempo, encontrava mães cada vez mais ansiosas tentando corresponder à imagem de um adulto que nunca perde a paciência e sempre sabe como agir.
Ela queria fazer diferente.
Criou um espaço para falar sobre ciência sem perder o humano. Um lugar de informação, acolhimento e não julgamento, onde também fosse possível falar sobre cansaço, culpa, limites, conflitos e imperfeições.
No começo, Carol pedia aos familiares que ouvissem os episódios para conseguir enxergar dez reproduções e não desistir.
Hoje, o Apegados é ouvido em mais de 28 países e reúne milhares de inscritos.
Os livros vieram por outro caminho, igualmente pessoal.
Sua filha, a quem chama de “musa inspiradora”, motivou o primeiro deles, Papaizão vai viajar, criado para ajudá-la com a ansiedade de separação. Depois vieram Meu corpo é meu superpoder e A Fantástica Terra dos Erros.
Para Carol, podcast, livros e consultório são linguagens diferentes para uma mesma missão.
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Não é sobre acertar sempre
Depois de tantos recomeços, talvez não seja coincidência que uma das principais mensagens de Carol seja justamente sobre a possibilidade de errar.
Ela acredita que uma relação saudável não é aquela em que conflitos nunca acontecem.
Pais perdem a paciência. Crianças se frustram. Adultos dizem coisas das quais se arrependem.
A diferença está no que acontece depois.
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É possível voltar? Reconhecer? Pedir desculpas? Reparar? Tentar novamente?
Essa visão atravessa tanto seu trabalho quanto sua experiência como mãe.
“Minhas filhas não estão apenas crescendo diante de mim. Eu também estou crescendo diante delas.”
Quando olha para a menina curiosa de Fortaleza, para a psicóloga que deixou uma carreira no Brasil, para a imigrante que precisou recalcular sua rota e para a mãe que precisou olhar novamente para a própria infância, Carol consegue perceber uma linha ligando caminhos que antes pareciam desconectados.
Hoje, seu trabalho chega a famílias em diferentes partes do mundo. Mas a mensagem que deseja deixar cabe em pequenas frases repetidas dentro de casa:
“Eu estou aqui.”
“Vamos tentar de novo.”
“Eu errei com você e sinto muito.”
Porque, para Carol, uma das maiores heranças emocionais que podemos deixar aos nossos filhos é mostrar que eles não precisam ser perfeitos para serem amados.
E nós também não.
Jacy Abreu
Redatora do portal Vou Para América, com cerca de 30 anos de experiência na área de Comunicação. Ao longo da carreira, atuou em grandes empresas de mídia como América Online e Editora Abril. Possui ampla experiência em produção de conteúdo jornalístico e institucional, coordenação de projetos de comunicação e planejamento editorial. É fundadora da Lumepress Comunicação, agência de assessoria de imprensa.
Fontes e Créditos
Esta reportagem foi produzida a partir de entrevista e informações fornecidas diretamente por Carol Fialho ao Volpe América. O conteúdo foi editado e organizado em formato de storytelling, preservando os fatos, experiências, declarações e informações compartilhadas pela entrevistada.
Transparência Editorial
Esta reportagem foi produzida a partir de entrevista e informações fornecidas diretamente por Carol Fialho ao Volpe América. O conteúdo foi editado e organizado em formato de storytelling, preservando os fatos, experiências, declarações e informações compartilhadas pela entrevistada.