25 anos do 11 de Setembro: o que foi comprovado, o que virou teoria e por que o principal julgamento ainda não começou

Ataque ao World Trade Center em Nova York em 11 de setembro de 2001 — Foto: Seth Mcallister / AFP
Na manhã de 11 de setembro de 2001, 19 integrantes da Al Qaeda sequestraram quatro aviões comerciais nos Estados Unidos. Dois atingiram as torres do World Trade Center, um atingiu o Pentágono e o quarto caiu na Pensilvânia depois que passageiros reagiram. Os ataques mataram 2.977 pessoas.
Vinte e cinco anos depois, grande parte do que aconteceu naquele dia foi reconstruída por investigações policiais, documentos de inteligência, depoimentos, registros financeiros, vídeos, gravações e pela Comissão do 11 de Setembro. Ao mesmo tempo, dúvidas sobre falhas do governo, possíveis apoios externos e a própria queda dos edifícios alimentaram teorias durante duas décadas.
Há uma diferença importante entre essas categorias. Existem fatos estabelecidos pelas investigações. Existem questões sobre as quais os documentos oficiais reconhecem limitações. E existem alegações examinadas ao longo dos anos sem evidências que as sustentem.
O que aconteceu naquela manhã
O primeiro avião atingiu a Torre Norte do World Trade Center às 8h46. Outros dois aviões sequestrados atingiram a Torre Sul e o Pentágono. O quarto, o voo United 93, caiu perto de Shanksville, na Pensilvânia.
O FBI abriu a investigação PENTTBOM, que se tornaria a maior da história da agência. No auge do trabalho, mais da metade dos agentes do FBI participou da investigação. Mais de meio milhão de pistas foram examinadas, segundo a própria agência.
Os investigadores identificaram os 19 sequestradores. Quinze eram cidadãos sauditas, dois eram dos Emirados Árabes Unidos, um era egípcio e um era libanês. Os quatro homens responsáveis por pilotar os aviões haviam recebido treinamento de voo nos Estados Unidos. O FBI afirma que todos os 19 foram treinados pela Al Qaeda.
A Comissão do 11 de Setembro, criada pelo Congresso e formada de maneira bipartidária, publicou em 2004 uma reconstrução independente dos ataques e das falhas que os antecederam. Seu trabalho examinou documentos governamentais, inteligência, depoimentos e investigações realizadas depois dos atentados.
Quem planejou os ataques
A investigação americana atribuiu a operação à Al Qaeda, organização comandada por Osama bin Laden. O FBI afirma que Bin Laden posteriormente reconheceu seu papel na organização dos ataques. Ele permaneceu foragido durante quase dez anos e foi morto em maio de 2011 durante uma operação americana em Abbottabad, no Paquistão.
Khalid Sheikh Mohammed é acusado pelos Estados Unidos de ter concebido elementos centrais do plano e apresentado a ideia a Bin Laden. Aqui existe uma distinção jurídica necessária. Sua responsabilidade é uma acusação criminal que ainda precisa ser julgada no processo de Guantánamo.
Isso não significa que a investigação do 11 de Setembro permaneça sem respostas. Significa que o principal processo contra os homens acusados de organizar a operação ainda não produziu um veredicto.
A diferença tornou se particularmente importante porque Mohammed foi capturado em 2003 e transferido para Guantánamo em 2006, mas seu julgamento não começou.
Em agosto de 2026, um juiz militar marcou para 5 de junho de 2028 o início da seleção do júri no processo contra Mohammed e outros três acusados. Se o calendário for mantido, o julgamento começará quase 27 anos depois dos atentados.
Por que o julgamento demorou tanto
Uma das razões está na forma como os Estados Unidos interrogaram suspeitos depois do 11 de Setembro.
Mohammed passou por prisões secretas da CIA antes de chegar a Guantánamo. A utilização de métodos coercitivos durante esses interrogatórios abriu uma disputa que atravessou o processo: quais declarações e provas podem ser utilizadas legalmente contra os acusados?
Essa discussão ganhou novo peso em 28 de agosto de 2026. O juiz militar responsável pelo caso acolheu um pedido para excluir declarações prestadas por Mohammed a investigadores em Guantánamo em 2007 porque o governo não conseguiu demonstrar que elas haviam sido dadas voluntariamente. O registro da decisão consta do próprio sistema das Comissões Militares.
Isso ajuda a explicar um paradoxo do caso. Os Estados Unidos reuniram provas, capturaram suspeitos e mantiveram os principais acusados sob custódia durante anos, mas os métodos usados na chamada guerra ao terror criaram problemas jurídicos para a própria acusação.
Também houve tentativa de encerrar parte do caso por acordo. Mohammed e dois corréus chegaram a negociar declarações de culpa que retirariam a possibilidade de pena de morte. A validade desses acordos passou por nova batalha judicial. Em julho de 2025, uma corte federal de apelações decidiu que o então secretário da Defesa Lloyd Austin tinha autoridade para revogá los.
O resultado é um processo que já atravessou diferentes governos, juízes, equipes jurídicas e estratégias de acusação.
O governo americano sabia que os ataques aconteceriam?
Documentos oficiais mostram que havia alertas sobre a ameaça representada pela Al Qaeda antes de setembro de 2001. Isso não equivale a demonstrar que autoridades conheciam antecipadamente o plano específico e permitiram que ele acontecesse.
A Comissão do 11 de Setembro identificou falhas profundas de compartilhamento de informações e preparação. Um exemplo aparece na própria manhã dos ataques. Segundo a comissão, quando o primeiro avião atingiu o World Trade Center, às 8h46, não havia evidência de que a informação sobre seu sequestro tivesse chegado às principais agências em Washington antes da colisão.
A investigação, portanto, encontrou falhas institucionais graves. Não concluiu que o governo americano tenha organizado ou deliberadamente permitido os atentados.
As torres foram demolidas com explosivos?
A hipótese de uma demolição controlada tornou se uma das teorias mais conhecidas sobre o 11 de Setembro.
O National Institute of Standards and Technology, órgão federal responsável pela investigação técnica dos colapsos, analisou milhares de fotografias e vídeos, documentos estruturais, centenas de componentes de aço e depoimentos de mais de mil sobreviventes e socorristas. Mais de 200 especialistas participaram do trabalho.
A conclusão do NIST foi que os impactos dos aviões provocaram danos estruturais e removeram proteção contra fogo de partes da estrutura. Os incêndios posteriores enfraqueceram componentes das torres até o início dos colapsos.
O instituto afirma não ter encontrado evidência que confirmasse a hipótese de demolição controlada das Torres Gêmeas. Também investigou separadamente o World Trade Center 7, prédio que não foi atingido por avião e desabou horas depois. O relatório final atribuiu o início da falha estrutural aos efeitos de incêndios que queimaram sem controle em vários andares.
Isso não impede que teorias continuem circulando. Significa que, até hoje, elas não substituíram as conclusões técnicas das investigações oficiais com evidências verificadas capazes de demonstrar uma demolição planejada.
Houve dinheiro ganho com conhecimento antecipado dos ataques?
Outra suspeita surgiu a partir de negociações incomuns no mercado financeiro nos dias anteriores ao atentado. A hipótese era de que alguém teria comprado posições capazes de lucrar com a queda das ações de companhias aéreas sabendo antecipadamente o que ocorreria.
A Comissão do 11 de Setembro examinou esse tema separadamente. Segundo o relatório sobre financiamento do terrorismo, autoridades federais e reguladores investigaram as operações suspeitas e não encontraram evidência de que alguém com conhecimento prévio dos atentados tenha lucrado com negociações de ações.
E a Arábia Saudita?
A nacionalidade de 15 dos 19 sequestradores colocou a relação com a Arábia Saudita sob escrutínio desde os primeiros anos da investigação.
A Comissão do 11 de Setembro concluiu que a Arábia Saudita havia sido uma importante origem de recursos privados destinados à Al Qaeda, mas afirmou não ter encontrado evidência de que o governo saudita, como instituição, ou altos funcionários sauditas tivessem financiado a organização. A comissão também registrou que essa conclusão não excluía a possibilidade de recursos de instituições beneficentes patrocinadas por autoridades sauditas terem sido desviados.
O relatório também concluiu que não havia evidência de que um governo estrangeiro ou funcionário de governo estrangeiro tivesse fornecido o dinheiro usado pelos 19 sequestradores. A estimativa da comissão foi de que toda a operação custou entre US$ 400 mil e US$ 500 mil e foi financiada pela Al Qaeda.
É justamente nesse tipo de questão que a linguagem importa. A ausência de comprovação de financiamento oficial não significa que todas as relações, contatos e possíveis redes de apoio tenham deixado de ser investigadas ou discutidas. Significa que a conclusão publicada pela comissão não estabeleceu financiamento governamental saudita para os ataques.
O Iraque participou do 11 de Setembro?
Outra associação que marcou os anos seguintes aos atentados envolveu o Iraque de Saddam Hussein.
A Comissão do 11 de Setembro encontrou registros de contatos anteriores entre representantes iraquianos e integrantes da Al Qaeda. Mas concluiu não haver evidência de que esses contatos tenham evoluído para uma relação operacional conjunta nem de que o Iraque tenha cooperado com a Al Qaeda na preparação ou execução dos ataques contra os Estados Unidos.
Essa distinção tornou se historicamente relevante porque os Estados Unidos invadiram o Iraque em 2003, menos de dois anos depois do 11 de Setembro.
O país que surgiu depois dos ataques
O legado do 11 de Setembro não ficou restrito às guerras e à política externa.
A Transportation Security Administration, a TSA, foi criada por lei em novembro de 2001 e assumiu a segurança dos aeroportos americanos. O governo federal passou a controlar diretamente a inspeção de passageiros e bagagens e adotou novas camadas de verificação para a aviação.
Em 2003 começou a operar o Department of Homeland Security, que reuniu 22 estruturas federais. A antiga agência de imigração, o INS, foi desmontada, e suas funções passaram principalmente para três órgãos que brasileiros conhecem hoje: USCIS, responsável por benefícios migratórios e naturalização, CBP, responsável pelo controle de fronteiras e entrada no país, e ICE, responsável por parte da fiscalização migratória interna.
Para quem chegou aos Estados Unidos depois de 2001, boa parte dessa estrutura parece ter existido sempre. Não existia.
O passageiro que hoje passa pela TSA, o imigrante que apresenta documentos ao CBP na entrada do país, o residente que protocola um processo no USCIS e a própria estrutura institucional do ICE vivem dentro de um sistema profundamente reorganizado depois dos atentados.
Vinte e cinco anos depois, o 11 de Setembro já é história para uma geração que nasceu após os ataques. Seu principal processo criminal, porém, continua aberto.
Os responsáveis diretos pelos sequestros morreram nos quatro aviões. Bin Laden foi morto em 2011. Investigações reconstruíram a preparação da operação e responderam a uma grande parte das dúvidas sobre aquele dia. Algumas alegações que atravessaram décadas foram investigadas sem encontrar comprovação.
Mas a Justiça ainda não pronunciou seu veredicto no processo contra aquele que os Estados Unidos acusam de ter sido o principal arquiteto do plano.
Se o calendário atual for cumprido, esse julgamento começará em junho de 2028.
Essa talvez seja uma das contradições mais duradouras do 11 de Setembro: um ataque que mudou em poucas horas a segurança, a política externa e até a estrutura migratória dos Estados Unidos ainda aguarda, um quarto de século depois, o desfecho de seu processo criminal mais importante.
Jacy Abreu
Redatora do portal Vou Para América, com cerca de 30 anos de experiência na área de Comunicação. Ao longo da carreira, atuou em grandes empresas de mídia como América Online e Editora Abril. Possui ampla experiência em produção de conteúdo jornalístico e institucional, coordenação de projetos de comunicação e planejamento editorial. É fundadora da Lumepress Comunicação, agência de assessoria de imprensa.
Fontes e Créditos
Esta matéria foi produzida a partir de documentação oficial e fontes jornalísticas verificáveis, incluindo o [Relatório da Comissão do 11 de Setembro] Relatório oficial da Comissão do 11 de Setembro, registros do [FBI] Investigação do FBI sobre o 11 de Setembro, estudos técnicos do [NIST] Investigação do NIST sobre o World Trade Center, registros das [Comissões Militares dos Estados Unidos] Office of Military Commissions, documentos do Department of Homeland Security e do USCIS, além da Reuters para a situação judicial atualizada em agosto de 2026. O material jornalístico inicialmente fornecido para esta pauta também foi utilizado como ponto de partida para a apuração.
Transparência Editorial
Apuração atualizada em 10 de setembro de 2026. O texto diferencia conclusões de investigações oficiais, acusações criminais e alegações sem comprovação. Khalid Sheikh Mohammed e os demais réus mencionados são acusados e não foram condenados no principal processo militar do 11 de Setembro. A data de junho de 2028 corresponde ao calendário vigente na publicação desta matéria e pode ser alterada por novas decisões judiciais.
Mais notícias

Só 34% da Geração Z vê ascensão da China como ameaça crítica nos EUA, diz pesquisa
13/09/2026

Trump promete US$ 5 mil se republicanos vencerem: entenda o que os EUA vão eleger em novembro
11/09/2026

Trump sugere trocar nome do Novo México por “New America”, mas não pode fazer mudança sozinho
09/09/2026

Moedas de US$ 1 com rosto de Trump ficam sem estoque horas após lançamento nos EUA
08/09/2026

Casa Branca transforma deportações e muro da fronteira em jogos online
05/09/2026

Brasil e EUA retomam negociação sobre tarifas após novas sobretaxas sobre produtos brasileiros
01/09/2026