Trump pede incentivo federal para trazer produções de cinema e TV de volta aos EUA

O presidente Donald Trump pediu ao Congresso que democratas e republicanos aprovem um incentivo federal para estimular produções de cinema e televisão nos Estados Unidos e recuperar empregos ligados à indústria audiovisual. A proposta ainda não virou lei e seus detalhes não foram definidos.
Trump fez o pedido em 31 de agosto. A iniciativa ganhou apoio de organizações que representam profissionais de Hollywood, entre elas o SAG-AFTRA, sindicato de atores e outros trabalhadores do entretenimento.
Sean Astin, presidente do SAG-AFTRA, e Duncan Crabtree-Ireland, diretor executivo da entidade, afirmaram em comunicado que incentivos federais podem ajudar os Estados Unidos a fortalecer a produção doméstica diante da transferência de projetos para outros mercados.
A discussão ocorre após meses de conversas entre o ator Jon Voight, representantes de sindicatos, associações profissionais e integrantes do governo. Voight foi nomeado por Trump como um de seus representantes especiais para assuntos relacionados a Hollywood e defende a criação de um crédito tributário nacional para filmagens realizadas no país.
O incentivo ainda não está disponível
Apesar do apoio público de Trump, não existe até agora um novo crédito fiscal federal aprovado que uma produtora possa solicitar com base nesse anúncio.
Entre as ideias apresentadas durante as negociações está um crédito federal equivalente a 20% dos custos trabalhistas de determinadas produções realizadas nos Estados Unidos, segundo a Reuters. Esse percentual faz parte de uma proposta discutida por representantes ligados a Voight e não deve ser tratado como regra definitiva.
O Congresso ainda precisará definir elementos centrais, como quais produções poderiam participar, quais despesas seriam elegíveis, qual seria o tamanho do benefício e quais contrapartidas seriam exigidas.
Também não está definido se o incentivo poderá ser combinado integralmente com programas estaduais.
Essa diferença é importante porque dezenas de estados americanos já utilizam benefícios tributários para disputar filmes, séries e produções de streaming.
Califórnia já colocou US$ 750 milhões por ano na disputa
A Califórnia, principal centro histórico da indústria audiovisual americana, aumentou seu programa de incentivos para US$ 750 milhões por ano no período fiscal iniciado em julho de 2025. O valor anterior era de US$ 330 milhões.
Os primeiros resultados já aparecem nas estatísticas locais.
No primeiro trimestre de 2026, projetos beneficiados pelo programa representaram quase 7% dos dias de filmagem externa registrados na Grande Los Angeles. Entre os longas, a participação chegou a 21,8%. Nas produções de televisão, foi de 17,1%, segundo a FilmLA.
No segundo trimestre, 170 projetos já haviam recebido créditos dentro da nova versão do programa estadual.
A reação da Califórnia tem uma explicação econômica. Los Angeles encerrou 2025 com 19.694 dias autorizados de filmagens externas, queda de 16,1% em relação aos 23.480 registrados em 2024.
A perda não ocorreu apenas para outros estados americanos. Países que oferecem custos menores ou incentivos competitivos também passaram a disputar produções de Hollywood.
Foi esse movimento que levou Trump, em 2025, a ameaçar uma tarifa de 100% sobre filmes produzidos fora dos Estados Unidos. A medida provocou dúvidas dentro da própria indústria sobre como uma tarifa desse tipo poderia ser implementada. Agora, o governo voltou sua atenção para incentivos à produção doméstica.
Por que uma filmagem cria empregos muito além dos atores
O tamanho econômico da indústria ajuda a explicar por que sindicatos e governos disputam essas produções.
Dados divulgados pela Motion Picture Association em fevereiro de 2026 indicam que cinema e televisão sustentam cerca de 2,01 milhões de empregos nos Estados Unidos e US$ 202 bilhões em salários. A entidade contabiliza mais de 162 mil empresas ligadas ao setor.
A cadeia não termina em atores, diretores ou roteiristas.
Uma produção contrata profissionais de maquiagem, figurino, construção de cenários, iluminação, efeitos especiais, transporte e outras atividades técnicas. Também movimenta empresas externas, incluindo alimentação, lavanderia, fornecimento de materiais, equipamentos e serviços locais.
Segundo a Motion Picture Association, produções realizadas em locações acrescentam, em média, mais de US$ 670 mil por dia à economia da região onde estão sendo filmadas. Projetos de grande orçamento chegam a uma média de US$ 1,3 milhão por dia. Os números são produzidos pela própria associação do setor e devem ser interpretados nesse contexto.
É justamente essa cadeia secundária que torna a discussão relevante também para brasileiros que vivem nos Estados Unidos.
Onde o brasileiro entra nessa história
Se o Congresso aprovar um programa capaz de trazer mais produções para os Estados Unidos, o efeito não ficará restrito aos profissionais que aparecem diante das câmeras.
Brasileiros que já atuam legalmente no país em produção, fotografia, edição, maquiagem, figurino, cenografia, transporte, catering, locação de equipamentos e serviços relacionados podem encontrar mais demanda se houver aumento efetivo no volume de filmagens.
Isso não significa que a proposta criará automaticamente vagas nem que brasileiros terão algum benefício específico.
Também não cria autorização de trabalho.
Estrangeiros só podem trabalhar legalmente nos Estados Unidos quando sua situação migratória permite emprego ou quando recebem a autorização correspondente. O USCIS estabelece que algumas categorias possuem autorização vinculada ao próprio status migratório, enquanto outras precisam solicitar um Employment Authorization Document, o EAD, documento que comprova a permissão para trabalhar.
Para quem pretende entrar no audiovisual americano, o ponto a acompanhar agora não é a abertura de inscrições para um benefício federal. Elas não existem.
O que precisa ser observado é o Congresso: eventual apresentação de um projeto de lei, definição dos gastos que poderão receber crédito e exigências sobre onde a produção e os trabalhadores deverão estar localizados.
Empresas brasileiras que fornecem serviços ao setor também precisarão esperar o texto da legislação antes de avaliar qualquer vantagem tributária.
Não é exatamente uma “Lei Rouanet americana”
A comparação com a Lei Rouanet ajuda a explicar ao público brasileiro que o governo discute usar o sistema tributário para estimular uma atividade cultural, mas os mecanismos não são equivalentes.
A proposta americana em discussão é voltada especificamente para trazer produção audiovisual e empregos para dentro dos Estados Unidos. O desenho final ainda será negociado pelo Congresso.
Por isso, chamar a iniciativa de “Lei Rouanet americana” funciona como comparação jornalística, mas não como descrição jurídica do programa.
Até a publicação desta matéria, Trump havia pedido a aprovação do incentivo e representantes do setor haviam manifestado apoio. O Congresso ainda precisava transformar a ideia em legislação para definir quem recebe, quanto recebe e sob quais condições.
Jacy Abreu
Redatora do portal Vou Para América, com cerca de 30 anos de experiência na área de Comunicação. Ao longo da carreira, atuou em grandes empresas de mídia como América Online e Editora Abril. Possui ampla experiência em produção de conteúdo jornalístico e institucional, coordenação de projetos de comunicação e planejamento editorial. É fundadora da Lumepress Comunicação, agência de assessoria de imprensa.
Fontes e Créditos
A apuração utilizou reportagem da Reuters sobre o anúncio de Trump e as negociações conduzidas por Jon Voight. Reuters: Trump pede incentivo federal para a indústria do entretenimento Também foram consultados o comunicado oficial do SAG-AFTRA, os dados da FilmLA sobre produção em Los Angeles, informações oficiais do programa tributário da Califórnia, dados econômicos da Motion Picture Association e orientações do USCIS sobre autorização de trabalho. SAG-AFTRA: posicionamento sobre incentivos federais FilmLA Research California Film and Television Tax Credit Program Motion Picture Association: impacto econômico
Transparência Editorial
Esta matéria foi produzida a partir de um insumo publicado por O Globo, mas a narrativa foi reestruturada e ampliada com apuração independente em fontes primárias, dados setoriais e Reuters. A expressão “Lei Rouanet americana” não foi adotada como definição técnica porque os mecanismos brasileiro e americano são diferentes. Efeitos futuros sobre empregos foram apresentados como condicionais porque o incentivo federal ainda depende de aprovação legislativa.
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