Saúde terá 1,9 milhão de vagas por ano nos EUA, mas diploma brasileiro não basta para trabalhar

O setor de saúde dos Estados Unidos deve abrir cerca de 1,9 milhão de vagas por ano entre 2024 e 2034, segundo projeção do U.S. Bureau of Labor Statistics. A demanda cresce com o envelhecimento da população e a saída de profissionais do mercado.
Para brasileiros formados em enfermagem, fisioterapia, medicina, assistência médica, terapia ocupacional ou outras áreas da saúde, o dado mostra uma oportunidade concreta. Mas o caminho não começa apenas pela tradução do diploma.
Antes de pensar em plantões, salário em dólar ou mudança de estado, o profissional precisa entender duas frentes separadas: autorização migratória para viver e trabalhar legalmente nos EUA, e licença profissional para exercer a função no estado escolhido.
Uma coisa não substitui a outra.
Um visto ou green card permite trabalhar legalmente dentro das condições aprovadas. A licença profissional, emitida por órgão estadual ou entidade reguladora, autoriza o exercício de uma profissão específica. Em saúde, esse segundo ponto costuma ser obrigatório.
Onde estão as vagas na saúde americana
O BLS projeta crescimento acima da média para várias ocupações da saúde. Registered Nurses, que são enfermeiros licenciados nos EUA, devem ter cerca de 189.100 vagas por ano entre 2024 e 2034. O salário mediano era de US$ 93.600 por ano em maio de 2024.
Physician Assistants também aparecem entre as carreiras em expansão. A profissão exige formação específica em programa credenciado nos EUA, geralmente em nível de mestrado, e licença estadual. O BLS projeta crescimento de 20% entre 2024 e 2034, com cerca de 12 mil vagas por ano e salário mediano de US$ 133.260 em maio de 2024.
Na enfermagem avançada, o cuidado precisa ser maior na leitura dos dados. O grupo formado por nurse anesthetists, nurse midwives e nurse practitioners tem salário mediano de US$ 132.050 e crescimento projetado de 35% entre 2024 e 2034. Mas nurse anesthetists, isoladamente, aparecem com salário mediano de US$ 223.210 e crescimento projetado menor dentro da tabela detalhada do BLS.
Esse detalhe importa porque uma tradução apressada pode criar expectativa errada. “Enfermeira anestesista” não deve ser tratada como sinônimo de todo o grupo de enfermeiros de prática avançada.
Por que o primeiro passo não é igual para todo mundo
O erro mais comum é procurar uma única resposta para todas as profissões da saúde. Não existe um processo universal.
Enfermeiros, fisioterapeutas, médicos, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos, técnicos e medical assistants seguem rotas diferentes. Algumas profissões exigem prova nacional. Outras dependem de avaliação acadêmica. Outras têm regras específicas por estado. Em certos casos, a formação brasileira não dá acesso direto à mesma função nos EUA.
Para enfermeiros formados fora dos Estados Unidos, o NCSBN informa que os requisitos variam por jurisdição e que a aprovação no NCLEX costuma ser parte do processo de licenciamento. O próprio NCSBN mantém uma ferramenta para orientar candidatos conforme o estado onde pretendem morar e trabalhar.
Isso muda a estratégia. Um brasileiro que mira Flórida pode enfrentar exigências diferentes de alguém que pretende trabalhar em Massachusetts, Texas ou New Jersey. A escolha do estado não é apenas uma decisão de moradia. Ela pode alterar o caminho profissional.
Visto, licença e VisaScreen não são a mesma coisa
Para várias profissões da saúde, o processo migratório envolve também certificação de credenciais. O USCIS informa que determinadas ocupações de saúde exigem certificação específica para fins migratórios.
O VisaScreen, administrado pela CGFNS, é uma avaliação de credenciais para profissionais de saúde que buscam visto ocupacional para trabalhar nos EUA. Segundo a CGFNS, candidatos aprovados recebem um certificado que atende aos requisitos federais de triagem para determinadas profissões de saúde.
Isso não significa que todo profissional da saúde usará o mesmo caminho. Também não significa que ter VisaScreen resolve a licença estadual ou garante emprego.
Na prática, o profissional precisa alinhar três decisões. A primeira é a ocupação exata que pretende exercer nos EUA. A segunda é o estado onde pretende trabalhar. A terceira é a estratégia migratória compatível com sua formação, experiência, oferta de emprego e objetivo de permanência.
O que é Schedule A e por que ele aparece em enfermagem e fisioterapia
Registered Nurses e Physical Therapists têm uma regra importante no sistema migratório americano. O USCIS informa que o Schedule A, Group I, inclui professional nurses e physical therapists.
O Schedule A existe para ocupações nas quais o Departamento do Trabalho reconhece escassez de trabalhadores americanos disponíveis. Pela regra federal, professional nurses e physical therapists estão no grupo listado. O processo, porém, ainda exige documentação, empregador e análise do caso.
Isso não é um “visto automático”. É um enquadramento que pode dispensar uma etapa tradicional de certificação trabalhista em certos pedidos de imigração baseada em emprego. O empregador ainda precisa apresentar a documentação correta, e o profissional precisa atender às exigências da ocupação e da imigração.
Para enfermeiros, a regra federal também prevê documentos como certificado da CGFNS, licença plena e irrestrita no estado de trabalho pretendido ou aprovação no NCLEX-RN, conforme o tipo de aplicação.
O que o brasileiro deve fazer antes de investir dinheiro
O primeiro passo é identificar o nome americano correto da profissão. “Médico assistente”, por exemplo, pode confundir. Physician Assistant é uma carreira regulada nos EUA, com formação própria, licença estadual e escopo de atuação definido. Não é apenas um médico estrangeiro trabalhando como assistente.
O segundo passo é escolher o estado. Na saúde, licença é assunto estadual. A pessoa precisa consultar o board da profissão no estado desejado antes de pagar curso, tradução, avaliação ou consultoria.
O terceiro passo é levantar os requisitos de inglês. Muitos processos exigem comprovação formal, principalmente quando há certificação de credenciais para fins migratórios.
O quarto passo é separar orçamento para taxas, traduções, provas, avaliações e eventuais cursos complementares. A oportunidade salarial existe, mas o custo de entrada pode ser alto.
O quinto passo é conversar com profissionais habilitados. A parte migratória deve ser analisada com advogado de imigração. A parte de licença deve ser conferida com o órgão regulador da profissão e do estado. Para impostos, contrato de trabalho e abertura de empresa, o caminho passa por CPA e orientação profissional específica.
Oportunidade existe, mas a pressa pode custar caro
O crescimento da saúde nos EUA não elimina barreiras. Ele torna o planejamento mais importante.
Para quem está no Brasil, a melhor estratégia costuma ser mapear primeiro a profissão equivalente nos EUA, depois o estado, depois a licença e só então o visto ou green card possível. Para quem já está nos EUA, o ponto de partida é verificar se o status migratório atual permite estudar, fazer prova, receber oferta de emprego ou trabalhar.
A demanda por profissionais de saúde é uma das mais fortes da economia americana. Mas o mercado não absorve diploma estrangeiro de forma automática.
Para o brasileiro, a pergunta principal não é apenas “quanto essa profissão paga?”. A pergunta correta é: “qual é o caminho legal para eu exercer essa profissão no estado onde quero viver?”.
Jacy Abreu
Redatora do portal Vou Para América, com cerca de 30 anos de experiência na área de Comunicação. Ao longo da carreira, atuou em grandes empresas de mídia como América Online e Editora Abril. Possui ampla experiência em produção de conteúdo jornalístico e institucional, coordenação de projetos de comunicação e planejamento editorial. É fundadora da Lumepress Comunicação, agência de assessoria de imprensa.
Fontes e Créditos
As informações de mercado de trabalho foram apuradas no U.S. Bureau of Labor Statistics, nas páginas oficiais de Healthcare Occupations, Registered Nurses, Physician Assistants e Nurse Anesthetists, Nurse Midwives and Nurse Practitioners. As informações sobre Schedule A, certificação de profissionais de saúde e licenciamento foram verificadas em fontes oficiais ou institucionais, incluindo USCIS, eCFR, NCSBN e CGFNS.
Transparência Editorial
Esta matéria é evergreen e foi produzida com base em dados oficiais disponíveis em junho de 2026. Os salários citados são medianos, não salários garantidos. As projeções do BLS cobrem o período de 2024 a 2034. O texto não oferece aconselhamento jurídico, migratório ou profissional individual. Cada caso depende de formação, experiência, estado de atuação, nível de inglês, empregador e estratégia migratória.