Relatório mostra que negócios de Trump passaram de US$ 2 bilhões em 2025

O presidente dos EUA, Donald Trump, discursa em um comício para dar início à Great American State Fair (Grande Feira Estadual Americana) em celebração ao 250º aniversário da independência dos EUA, no National Mall, em Washington, D.C., EUA, 24 de junho de 2026. — Foto: Reuters/Evan Vucci
O U.S. Office of Government Ethics divulgou o relatório financeiro anual certificado do presidente Donald Trump em 30 de junho de 2026. O documento abriu uma nova rodada de questionamentos sobre negócios privados, criptomoedas e conflito de interesses na Casa Branca.
A publicação do relatório é obrigatória para autoridades do Executivo americano. O formulário mostra ativos, rendas, posições e transações declaradas pelo ocupante do cargo. Ele não funciona como uma declaração de imposto de renda completa, mas permite identificar fontes de receita e vínculos financeiros relevantes.
Reportagem do Wall Street Journal afirmou que negócios e investimentos ligados a Trump passaram de US$ 2 bilhões em 2025. O jornal atribuiu parte do salto a apostas em criptomoedas e acordos imobiliários, além de receitas de hotéis, campos de golfe e licenciamento de marca.
O ponto mais sensível está no setor de criptoativos. Segundo a NPR, Trump e sua família ganharam mais de US$ 1 bilhão no ano passado com negócios de criptomoedas e outras empresas. A reportagem informou que mais de US$ 500 milhões vieram da World Liberty Financial, empreendimento de cripto cofundado por integrantes da família Trump, e que vendas de uma memecoin com a marca Trump geraram mais de US$ 600 milhões.
A Casa Branca negou conflito de interesses. A porta-voz Anna Kelly afirmou à NPR que Trump trabalha para fazer dos Estados Unidos a “capital mundial das criptomoedas”. O presidente também disse que instituições externas administram seus investimentos e que ele não conversa com elas sobre esses ativos.
Por que o relatório levanta debate ético
Presidentes americanos tradicionalmente procuram reduzir conflitos entre patrimônio privado e decisões públicas. O mecanismo mais conhecido é o blind trust, estrutura em que ativos são administrados por terceiros independentes, sem interferência do político. Também há presidentes que venderam empresas ou participações antes de assumir o cargo.
Trump adotou outro caminho. Ele manteve vínculos com negócios privados e deixou a administração das empresas familiares com os filhos mais velhos, segundo a defesa apresentada pela Casa Branca em reportagens sobre o caso.
Para Richard Painter, ex-advogado de ética da Casa Branca, a situação cria um problema direto. Em entrevista à NPR, Painter afirmou que leis federais de conflito de interesses impediriam outros funcionários do Executivo de agir de forma semelhante. Ele disse que Trump “stands alone” por ter conflitos financeiros tão substanciais enquanto ocupa a Presidência.
A diferença jurídica é importante. O presidente dos Estados Unidos não está sujeito a todas as mesmas restrições aplicadas a outros servidores do Executivo. Isso não elimina o debate ético. Apenas muda o tipo de responsabilização, que passa mais pelo escrutínio público, pelo Congresso, pela imprensa e por eventuais questionamentos judiciais.
Cripto virou o centro da discussão
O caso ganha peso porque Trump não é apenas um investidor privado no setor. Como presidente, ele também influencia a regulação de criptomoedas nos Estados Unidos. Medidas, discursos e nomeações do governo podem alterar o valor de ativos digitais, a confiança de investidores e o ritmo de fiscalização.
Isso cria uma zona de risco. Quando uma figura pública com poder regulatório também tem ganhos relevantes em ativos do mesmo setor, investidores podem confundir decisão política com sinal de investimento seguro.
Para brasileiros nos EUA, esse ponto importa mais do que a disputa partidária. Muitos imigrantes usam ou acompanham cripto por três motivos: remessa internacional, tentativa de proteger dinheiro contra câmbio e busca de rendimento fora do sistema bancário tradicional.
O problema é que memecoins, tokens de governança e projetos ligados a nomes políticos não funcionam como conta bancária, poupança ou investimento garantido. O preço pode subir por influência, marketing e especulação. Também pode cair com a mesma velocidade.
O que muda para brasileiros nos EUA
A primeira consequência prática é a necessidade de separar política de investimento. O fato de um ativo carregar o nome de um presidente, de um bilionário ou de uma celebridade não reduz o risco financeiro. Em alguns casos, aumenta.
Brasileiros que vivem nos EUA devem prestar atenção ao tipo de ativo. Stablecoin é uma moeda digital desenhada para manter paridade com uma moeda tradicional, geralmente o dólar. Memecoin é um ativo especulativo movido por marca, comunidade ou internet. Token de governança costuma dar direito de voto em decisões de uma plataforma, mas não equivale a ação de empresa.
Essa diferença precisa estar clara antes de qualquer compra. Quem entra em um ativo sem entender liquidez, taxa, custódia, tributação e risco de perda total está apostando, não investindo.
Outro ponto é imposto. Ganhos com cripto nos EUA podem gerar obrigação fiscal. A Receita americana, o IRS, exige declaração de transações com ativos digitais. Imigrantes que declaram imposto com Social Security Number ou ITIN devem guardar comprovantes de compra, venda, troca e transferência.
Também há risco migratório indireto. Perder dinheiro em golpe ou investimento especulativo não afeta automaticamente um visto. Mas dívidas, problemas fiscais e omissão de renda podem criar complicações financeiras e legais para quem tenta regularizar vida bancária, crédito, financiamento ou empresa nos EUA.
Como evitar cair em promessa de ganho político
A regra prática é simples: se o principal argumento de venda é o nome de uma pessoa poderosa, e não o funcionamento do produto, o risco é alto.
Antes de comprar qualquer criptoativo, o brasileiro deve verificar quem emite o token, qual empresa opera o projeto, onde estão os termos de uso, qual é a política de resgate, se há auditoria independente e se o ativo está listado em plataformas com controles mínimos de conformidade.
Também é preciso desconfiar de promessas de acesso político, grupos fechados, jantares exclusivos, retornos garantidos ou frases como “o governo vai favorecer esse setor”. Nenhuma dessas mensagens substitui análise financeira.
Quem usa cripto para enviar dinheiro ao Brasil deve comparar o custo final com bancos, fintechs e remessadoras licenciadas. Taxa baixa na transferência não significa operação mais barata se houver variação de preço, spread, tarifa de saque ou dificuldade para converter o valor em reais.
O que ainda não está totalmente claro
O relatório financeiro mostra fontes de renda e participações declaradas, mas não responde sozinho a todas as perguntas sobre lucro líquido, estrutura societária e influência direta do cargo presidencial em cada negócio.
Também não há, até a publicação desta matéria, conclusão oficial de que Trump tenha cometido ilegalidade por causa das receitas ligadas a cripto. O que existe é um debate público sobre conflito de interesses, sustentado por documentos oficiais, reportagens e declarações de especialistas em ética governamental.
Para o leitor brasileiro nos EUA, a conclusão prática é outra: investimento ligado a figura política exige cuidado redobrado. Quando poder público, marca pessoal e ativo financeiro aparecem no mesmo pacote, a chance de o investidor comum ficar com o maior risco aumenta.
Jacy Abreu
Redatora do portal Vou Para América, com cerca de 30 anos de experiência na área de Comunicação. Ao longo da carreira, atuou em grandes empresas de mídia como América Online e Editora Abril. Possui ampla experiência em produção de conteúdo jornalístico e institucional, coordenação de projetos de comunicação e planejamento editorial. É fundadora da Lumepress Comunicação, agência de assessoria de imprensa.
Fontes e Créditos
Esta matéria foi produzida com base no comunicado do U.S. Office of Government Ethics sobre a divulgação dos relatórios financeiros certificados do presidente e do vice-presidente, em reportagem do Wall Street Journal sobre receitas ligadas a negócios de Trump em 2025 e em reportagem da NPR, reproduzida pela WUFT, sobre receitas de cripto, posição da Casa Branca e avaliação do ex-advogado de ética Richard Painter.
Transparência Editorial
O texto não afirma que Trump cometeu crime ou ilegalidade. A matéria trata o caso como debate de conflito de interesses, com base em documento oficial e reportagens jornalísticas. Os valores foram atribuídos às fontes que os publicaram. Termos opinativos presentes no insumo original foram removidos ou substituídos por formulações factuais, em linha com a Política Zero Ficção e com o padrão editorial anti-thin content do Vou pra América.