Proibição de celular nas escolas reduz distração, mas não melhora notas de imediato, diz estudo nos EUA

Jacy Abreu16 de junho de 2026Educação
Proibição de celular nas escolas reduz distração, mas não melhora notas de imediato, diz estudo nos EUA

Celulares desaparecem da rotina escolar, mas notas permanecem estáveis

Proibir celulares nas escolas reduz o uso dos aparelhos durante o período letivo, mas não produz melhora imediata no desempenho acadêmico. Essa é a principal conclusão de um estudo do National Bureau of Economic Research (NBER), que avaliou escolas americanas que adotaram bolsas lacráveis para impedir o acesso dos alunos aos celulares ao longo do dia.

A pesquisa analisou políticas baseadas em lockable phone pouches, bolsas com trava nas quais os estudantes guardam seus aparelhos ao chegar à escola. O celular permanece com o aluno, mas só pode ser desbloqueado em bases magnéticas autorizadas, normalmente ao final do turno ou em situações específicas.

O estudo foi conduzido por pesquisadores ligados à Stanford University, Duke University, University of Pennsylvania e University of Michigan. A análise combinou pesquisas com estudantes e professores, registros administrativos, resultados de testes padronizados, dados de GPS e informações sobre a adoção das bolsas lacráveis em escolas de diferentes regiões dos Estados Unidos.

Segundo os pesquisadores, quando existe um mecanismo físico que impede o acesso ao aparelho, o uso do celular durante o horário escolar cai de maneira consistente. O mesmo não ocorreu com as notas.

O que o estudo encontrou

O efeito mais direto foi a redução do uso dos celulares.

De acordo com o NBER, as escolas que adotaram as bolsas lacráveis registraram queda no uso dos aparelhos medida por sinais de GPS e por relatos de professores. O resultado confirma o argumento dos defensores da medida: quando a regra é clara e existe fiscalização efetiva, os alunos utilizam menos o telefone durante as aulas.

O desempenho acadêmico, porém, apresentou resultados diferentes.

A pesquisa encontrou efeitos médios próximos de zero nos testes padronizados. Houve uma melhora modesta em matemática entre estudantes do ensino médio e uma pequena piora nos anos finais do ensino fundamental. No balanço geral, os efeitos acabaram se anulando.

Para os pesquisadores, isso mostra que eliminar o celular não transforma automaticamente o processo de aprendizagem. A redução de uma distração não substitui fatores como qualidade das aulas, rotina pedagógica, relacionamento com professores e apoio aos alunos que enfrentam dificuldades.

Bem-estar piorou antes de melhorar

O comportamento dos estudantes seguiu uma trajetória diferente.

Segundo análise divulgada pela Stanford University, o primeiro ano após a adoção das bolsas lacráveis registrou aumento de incidentes disciplinares e queda nos indicadores de bem-estar dos alunos.

Com o passar do tempo, o cenário mudou.

No terceiro ano de implementação da política, os problemas disciplinares retornaram aos níveis anteriores e os indicadores de bem-estar passaram a superar a linha de base observada antes da restrição.

A interpretação mais cautelosa é que os estudantes precisam de tempo para se adaptar.

O celular deixou de ser apenas uma ferramenta de comunicação. Para muitos jovens, ele também serve para entretenimento, socialização, tradução de idiomas, localização e contato constante com a família. Quando esse acesso é interrompido, a adaptação nem sempre acontece sem resistência.

Por que as notas não melhoraram?

Uma das hipóteses levantadas pelos pesquisadores é que o celular não representa a única fonte de distração em sala de aula.

Sem acesso ao aparelho, alguns alunos podem substituir a distração digital por conversas paralelas, deslocamentos frequentes ou outros comportamentos que afetam a concentração.

Outra possibilidade envolve o uso pedagógico dos dispositivos.

Em algumas escolas, professores utilizam celulares para pesquisas rápidas, tradução de conteúdos, acesso a plataformas educacionais ou atividades de aprendizagem. Quando o aparelho é retirado sem uma alternativa adequada, parte dessas funções também desaparece.

Os pesquisadores observaram ainda que os impactos variam de acordo com a idade dos estudantes. Alunos do ensino médio, que costumam utilizar mais redes sociais e aplicativos, podem se beneficiar mais da restrição em determinadas disciplinas. Já estudantes mais jovens podem reagir inicialmente com maior resistência.

O que isso significa para famílias brasileiras nos EUA

Para famílias brasileiras, a principal lição do estudo é que a discussão vai além da simples pergunta sobre permitir ou proibir celulares.

As regras variam conforme o estado, o distrito escolar e cada instituição de ensino.

Segundo levantamento da Education Week, pelo menos 38 estados americanos e Washington, D.C., já exigem que distritos escolares adotem restrições ou proibições relacionadas ao uso de celulares nas escolas.

Isso significa que a tendência deixou de ser uma iniciativa isolada e passou a integrar políticas públicas em grande parte do país.

Antes do início do ano letivo, pais brasileiros devem consultar o student handbook, documento que reúne as regras da escola sobre disciplina, transporte, faltas, comunicação com responsáveis e uso de dispositivos eletrônicos.

Questões que merecem atenção

A comunicação entre pais e filhos durante o horário escolar costuma gerar dúvidas entre famílias recém-chegadas aos Estados Unidos.

Em muitas escolas americanas, o procedimento correto para emergências não é enviar mensagens diretamente ao aluno, mas entrar em contato com a secretaria da instituição.

Outro ponto importante envolve estudantes que ainda estão aprendendo inglês.

Para muitos imigrantes, o celular funciona como ferramenta de tradução e apoio à adaptação. Quando a escola restringe o uso do aparelho, os responsáveis devem verificar quais recursos substituem essa função, como equipes bilíngues, Chromebooks, tradutores autorizados ou programas de apoio linguístico.

As políticas também costumam prever exceções para necessidades médicas, acessibilidade, planos educacionais individualizados ou situações de emergência.

O que perguntar à escola

Antes de concordar ou discordar da regra, os pais devem buscar informações objetivas.

A escola guarda os aparelhos ou os alunos permanecem com eles trancados? Existem exceções para tradução? Como ocorre o contato em caso de emergência? O uso é permitido durante o almoço ou recreio? A política inclui smartwatches e fones de ouvido?

Essas respostas ajudam a evitar conflitos e permitem que o estudante saiba exatamente o que esperar.

Para adolescentes recém-chegados aos Estados Unidos, compreender essas regras pode facilitar a adaptação a um ambiente escolar diferente daquele encontrado no Brasil.

E o Brasil?

O debate também avançou no sistema educacional brasileiro.

A Lei nº 15.100, de 13 de janeiro de 2025, passou a regulamentar o uso de aparelhos eletrônicos portáteis pessoais, incluindo celulares, em escolas públicas e privadas da educação básica.

Segundo o texto da lei, a medida busca proteger a saúde mental, física e psíquica de crianças e adolescentes.

O Ministério da Educação informou em fevereiro de 2025 que a restrição já estava em vigor e que redes públicas e privadas deveriam se adequar às novas regras.

A comparação entre Brasil e Estados Unidos, porém, exige cautela.

O estudo do NBER avaliou especificamente escolas que utilizaram bolsas lacráveis para controlar o acesso aos aparelhos. Como as formas de implementação variam entre os países e entre as próprias escolas, não é possível assumir que os resultados serão idênticos.

O que fazer agora

Para famílias brasileiras nos Estados Unidos, a recomendação é tratar a política de celular como parte do processo de matrícula.

Ler o manual da escola, entender as regras de comunicação, verificar recursos para alunos que utilizam tradução e conversar com os filhos sobre as consequências do descumprimento das normas são passos importantes.

A pesquisa do NBER não encerra o debate sobre celulares na educação.

Ela mostra que a proibição reduz o uso dos aparelhos, produz impacto limitado sobre o desempenho acadêmico e gera efeitos que aparecem de forma mais lenta no bem-estar dos estudantes.

Para as escolas, a mensagem é clara: restringir o celular pode ser apenas o primeiro passo. O resultado final depende do que acontece depois que o aparelho sai de cena.

Jacy Abreu

Jacy Abreu

Redatora do portal Vou Para América, com cerca de 30 anos de experiência na área de Comunicação. Ao longo da carreira, atuou em grandes empresas de mídia como América Online e Editora Abril. Possui ampla experiência em produção de conteúdo jornalístico e institucional, coordenação de projetos de comunicação e planejamento editorial. É fundadora da Lumepress Comunicação, agência de assessoria de imprensa.

Fontes e Créditos

Esta matéria foi produzida com base no estudo “The Effects of School Phone Bans: National Evidence from Lockable Pouches”, publicado pelo National Bureau of Economic Research (NBER), em cobertura institucional da Stanford University, em levantamento da Education Week sobre políticas estaduais nos Estados Unidos, na Lei nº 15.100 de 2025 e em informações do Ministério da Educação do Brasil. Texto-base fornecido pelo usuário.

Transparência Editorial

A matéria trata o estudo como evidência relevante, não como resposta definitiva. A pesquisa avaliou escolas que adotaram bolsas lacráveis para celulares. Os resultados não devem ser aplicados automaticamente a instituições que apenas exigem que os aparelhos permaneçam guardados na mochila. As regras variam conforme estado, distrito e escola. Apuração válida para junho de 2026.

Compartilhar

Comentários

Faça login para comentar

Entrar

Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a comentar!