Por que é tão raro ver cães soltos nas ruas dos Estados Unidos

Quem chega do Brasil aos Estados Unidos pode notar uma diferença nas ruas: em muitas cidades americanas, é pouco comum encontrar cães circulando sozinhos por longos períodos. Isso não significa que o país tenha eliminado animais abandonados. Em 2025, milhões deles passaram pela rede americana de abrigos.
Dados nacionais compilados pelo Shelter Animals Count mostram que aproximadamente 5,8 milhões de cães e gatos entraram em shelters e organizações de resgate nos Estados Unidos em 2025. Cerca de 2,8 milhões eram cães. Os números descartam a ideia de que o país tenha “praticamente zero” animais perdidos ou sem tutor. (aspca.org)
A diferença está, em parte, no que acontece depois que um animal aparece sozinho.
O que acontece quando um cachorro é encontrado na rua
Os Estados Unidos não possuem uma única política nacional para animais domésticos. Estados, condados e cidades estabelecem suas próprias regras, e a estrutura disponível muda conforme a região.
Em locais que contam com serviços de animal control, cães encontrados soltos podem ser recolhidos e encaminhados a shelters. A partir daí, a identificação do animal pode permitir que a equipe localize o tutor antes que o cachorro seja colocado para adoção.
Os resultados desse sistema aparecem nas estatísticas. Em 2025, cerca de 638 mil cães e gatos que passaram por shelters foram reunidos com suas famílias, segundo o Shelter Animals Count. Entre os cães, a ASPCA estima que aproximadamente 542 mil retornaram aos seus tutores naquele ano.
O número não pode ser atribuído apenas ao microchip. Plaquinhas de identificação, registros dos shelters, licenças municipais e contato direto com o tutor também participam do processo.
*Por que microchip e identificação fazem diferença
O microchip é um pequeno dispositivo de identificação implantado sob a pele do animal. Quando um cão encontrado é levado a um abrigo ou clínica que possui leitor compatível, o número pode ser consultado em um banco de registro para tentar localizar os dados de contato associados ao animal.
Não existe, porém, uma exigência federal que obrigue todos os cães americanos a terem microchip. A própria American Veterinary Medical Association informa que nem sequer há um padrão federal ou estadual único para todos os chips usados no país.
Por isso, uma das medidas mais importantes para o tutor é manter os dados de contato associados ao microchip atualizados. Um chip registrado com telefone antigo reduz sua utilidade justamente quando o cachorro desaparece.
As regras municipais podem ser mais rígidas. Los Angeles, por exemplo, exige microchip em determinadas situações envolvendo cães não esterilizados. Animais adotados pelo sistema municipal também saem com vacinação, esterilização e microchip incluídos no processo de adoção.
Castração também faz parte do controle populacional
A esterilização de cães e gatos é outra peça da política de controle populacional adotada por diferentes comunidades americanas.
Los Angeles mantém atualmente programas que oferecem castração gratuita ou subsidiada para moradores da cidade. Há certificados gratuitos e cupons que cobrem parte do procedimento em clínicas participantes. Em 2026, o LA Animal Services continuava oferecendo esse tipo de programa.
Isso não significa que a castração tenha eliminado sozinha os animais abandonados nos Estados Unidos. O próprio cenário atual mostra os limites dessa explicação. Dados divulgados pela ASPCA em junho de 2026 indicam que somente 25% dos cães que chegam aos shelters já entram esterilizados.
O resultado observado nas cidades decorre de uma combinação de medidas: esterilização, identificação, vacinação, recolhimento, abrigos, programas de adoção e regras de responsabilidade para os tutores.
Ter um cachorro pode exigir licença municipal
Este é um detalhe que surpreende alguns brasileiros: dependendo de onde a família mora, manter um cachorro pode exigir uma licença emitida pelo governo local.
Los Angeles é um exemplo. A cidade exige licença para cães a partir de quatro meses de idade. Para emitir o documento, o tutor precisa apresentar comprovação da vacinação contra raiva e informações relacionadas à esterilização do animal.
A licença anual para um cachorro esterilizado foi informada pela cidade em US$ 20. Algumas categorias possuem tarifas diferentes, e cães mantidos sem esterilização podem estar sujeitos a requisitos e custos maiores. Idosos que atendam aos critérios da cidade podem conseguir licença por US$ 10.
Esses valores são de Los Angeles e não devem ser usados como referência nacional. Outra cidade pode cobrar uma tarifa diferente ou adotar regras completamente distintas.
O que o brasileiro com cachorro precisa verificar
Para quem mora nos Estados Unidos ou pretende levar um animal do Brasil, o endereço da residência importa.
O tutor deve consultar o governo da própria cidade ou condado para verificar se há licença obrigatória, qual vacinação é exigida, se existe regra local para esterilização e quais procedimentos são adotados quando um cachorro é recolhido.
Também é recomendável identificar o animal com uma plaquinha contendo telefone atualizado e verificar se o cadastro do microchip, quando houver, contém os dados corretos.
Essas providências têm consequência prática. Um cachorro que escapa pode parar em um shelter, e recuperar o animal pode envolver comprovação de propriedade, atualização de licença e pagamento de tarifas previstas pela jurisdição.
E por que ainda existem milhões de animais nos shelters?
A estrutura americana reduziu a permanência de muitos cães nas ruas, mas não resolveu o abandono nem a superlotação dos abrigos.
Em julho de 2026, a ASPCA alertou que muitos shelters americanos continuavam operando no limite da capacidade. Quase seis milhões de cães e gatos haviam entrado em shelters e organizações de resgate durante 2025, e cães estavam permanecendo mais tempo sob os cuidados dessas instituições antes da adoção.
Isso muda a conclusão da comparação com o Brasil. Os Estados Unidos não são um país sem animais abandonados. Em muitas localidades, existe uma infraestrutura capaz de tirar parte desses animais das ruas e encaminhá-los para identificação, devolução ao tutor, adoção ou outros destinos previstos pelo sistema local.
Para o brasileiro que vive no país, a principal diferença aparece na responsabilidade cotidiana. Ter um pet pode significar cumprir regras municipais, manter vacinação e identificação em dia e conhecer os procedimentos da cidade antes que o animal escape ou precise ser entregue a um shelter.
Jacy Abreu
Redatora do portal Vou Para América, com cerca de 30 anos de experiência na área de Comunicação. Ao longo da carreira, atuou em grandes empresas de mídia como América Online e Editora Abril. Possui ampla experiência em produção de conteúdo jornalístico e institucional, coordenação de projetos de comunicação e planejamento editorial. É fundadora da Lumepress Comunicação, agência de assessoria de imprensa.
Fontes e Créditos
A matéria foi apurada com dados do Shelter Animals Count divulgados pela ASPCA, estatísticas nacionais da ASPCA, informações da American Veterinary Medical Association e regras e programas oficiais do Los Angeles Animal Services. Dados e páginas foram verificados em 8 de agosto de 2026.
Transparência Editorial
Esta matéria partiu de um conteúdo em vídeo que afirmava haver “praticamente zero” cães de rua nos Estados Unidos e atribuía o resultado principalmente à castração e ao sistema de identificação. A apuração não encontrou dados que sustentem essa afirmação absoluta. Também foram retirados do texto os números de que a castração resolveria entre 70% e 90% do problema e a afirmação de que 638 mil animais retornaram aos tutores em 2025 exclusivamente graças ao sistema de identificação. As fontes disponíveis não demonstram essas relações causais. Regras de licenciamento, microchip, vacinação, recolhimento e esterilização variam entre estados e governos locais. Los Angeles foi usada nesta matéria como exemplo documentado e não como retrato de todos os Estados Unidos.