
Eu sou imigrante. Defendo a imigração. E talvez exatamente por isso eu tenha me incomodado com o show de Bad Bunny no intervalo do Super Bowl, no dia 8 de fevereiro de 2026. Não foi raiva, nem rejeição automática. Foi desconforto. Um tipo de desconforto que muitos imigrantes sentem, mas raramente dizem em voz alta.
O Super Bowl não é apenas um evento esportivo. Ele é um ritual cultural dos Estados Unidos. Um palco simbólico que representa, goste-se ou não, a identidade americana diante do mundo. Quando esse espaço se transforma em um manifesto, ainda que implícito, a discussão deixa de ser sobre música e passa a ser sobre limites.
Eu não me incomodo com o espanhol. Não me incomodo com a cultura latina. Muito pelo contrário. O que me incomodou foi a sensação de que o entretenimento foi usado para tensionar, não para aproximar. Existe uma diferença clara entre inclusão e imposição simbólica, e fingir que ela não existe só empobrece o debate.
Quando você escolhe viver em outro país, existe um pacto silencioso. Você pode ser quem você é, manter suas raízes, celebrar sua história. Mas também precisa respeitar a casa que te recebe. Isso não é submissão cultural. É convivência. É entender que nem todo espaço precisa ser ressignificado o tempo todo.
Imaginar um cenário inverso ajuda a entender o incômodo. Se eu entro em um supermercado no Brasil e o caixa só fala francês, algo está fora do lugar. Não é ódio ao idioma. É quebra de expectativa social básica. Nos Estados Unidos, o inglês cumpre esse papel. Negar isso não torna a sociedade mais inclusiva, apenas mais fragmentada.
O que me preocupa é ver qualquer crítica sendo automaticamente rotulada como preconceito. Muitos imigrantes que trabalham, pagam impostos e respeitam as regras do país pensam parecido, mas se calam para não serem cancelados. O resultado é um debate raso, onde só uma narrativa parece autorizada a existir.
O show de Bad Bunny virou símbolo dessa fratura. Para alguns, avanço histórico. Para outros, um recado político desnecessário. Eu fiquei no meio desse caminho. Defendo diversidade, mas não acredito que ela precise passar por cima da identidade cultural de quem acolhe.
Talvez o maior problema não seja o show em si, mas a incapacidade de aceitar que o incômodo também é legítimo. Ignorá-lo não resolve nada. Só amplia a distância entre quem chegou e quem já estava aqui.
Super Bowl 2026. Repercussão pública do show. Análise e opinião do autor para o portal Vou pra América.
Este texto é um artigo de opinião em primeira pessoa. As posições expressas refletem exclusivamente a visão do autor, com base em sua experiência como imigrante e na observação do debate público.
Jorge Kubrusly é empresário e estrategista de negócios, com mais de 20 anos de experiência. Residente em Orlando desde 2019, fundou o Vou pra América com o propósito de colocar os brasileiros que moram ou desejam morar nos Estados Unidos no controle da própria jornada, oferecendo clareza, estratégia e autonomia para decisões importantes de vida e carreira.