Operações do ICE reduzem empregos até entre americanos, aponta estudo

A intensificação das operações do ICE reduziu o emprego de imigrantes sem documentos e não abriu as vagas prometidas para americanos. Nas regiões com maior aumento de prisões migratórias, trabalhadores nascidos nos Estados Unidos também perderam postos, segundo um estudo econômico publicado em 2026.
A pesquisa foi conduzida pelas economistas Elizabeth Cox, da Universidade do Colorado em Boulder, e Chloe N. East, da Universidade de Calgary. O trabalho foi divulgado pelo National Bureau of Economic Research, centro privado, apartidário e sem fins lucrativos dedicado à pesquisa econômica.
O estudo analisou os efeitos da fiscalização migratória durante o segundo governo de Donald Trump. As autoras compararam regiões onde as prisões do Immigration and Customs Enforcement, o ICE, cresceram de forma abrupta com áreas que não registraram o mesmo aumento.
O resultado contraria a ideia de que a retirada de trabalhadores sem documentos provoca uma substituição direta por mão de obra americana.
Emprego de indocumentados caiu entre 4% e 5%
Nas regiões atingidas pelo aumento das operações, o emprego entre homens provavelmente indocumentados caiu de 4% a 5%. Segundo a pesquisa, parte deles deixou de trabalhar por receio de ser detida, mesmo permanecendo nos Estados Unidos.
Os homens representavam cerca de 90% das prisões do ICE incluídas na análise. O estudo estimou aproximadamente 7.500 empregos a menos entre homens indocumentados nas áreas examinadas.
As autoras usaram dados mensais de emprego e observaram o que ocorreu antes e depois do crescimento das prisões. Esse método procura isolar o efeito da fiscalização migratória de outras mudanças econômicas que poderiam afetar as regiões.
O trabalho é apresentado como a primeira análise causal de alcance nacional sobre os efeitos trabalhistas do aumento da atividade do ICE no segundo governo Trump. Trata-se, porém, de um working paper, uma pesquisa acadêmica ainda sujeita a revisões.
Trabalhadores americanos também perderam vagas
A queda não ficou restrita aos imigrantes.
Para cada seis homens indocumentados que deixaram de trabalhar, um homem nascido nos Estados Unidos, com ensino médio completo ou escolaridade inferior, também perdeu o emprego, segundo a estimativa das pesquisadoras.
Os efeitos se concentraram em atividades que dependem de equipes formadas por trabalhadores com diferentes funções, principalmente agricultura, construção e indústria.
Nesses setores, a saída de um grupo não cria necessariamente uma vaga equivalente para outro. Uma construtora que perde trabalhadores pode atrasar obras, aceitar menos contratos e reduzir as horas de eletricistas, encanadores, motoristas ou supervisores. Uma fazenda com menos pessoas disponíveis para a colheita também pode diminuir sua produção e contratar menos trabalhadores para transporte, armazenamento e processamento.
Essa relação é chamada de complementaridade. Os trabalhadores não ocupam sempre funções intercambiáveis. Muitas vezes, o serviço de uma pessoa permite que outra continue empregada.
“As ações mais intensas do ICE prejudicaram o mercado de trabalho, não apenas para os imigrantes que permanecem nos Estados Unidos, mas também para trabalhadores nascidos no país”, afirmou Chloe East ao The Washington Post.
A Casa Branca contestou a interpretação. Em resposta ao jornal, a porta-voz Abigail Jackson afirmou que o país possui trabalhadores americanos disponíveis e que a política do governo busca criar empregos para eles enquanto aplica as leis migratórias.
Prisão, deportação e abandono do emprego não são a mesma coisa
Os resultados não podem ser resumidos apenas como consequência de deportações concluídas.
O estudo mediu principalmente o efeito do aumento das prisões e da atividade do ICE. Parte da redução do emprego ocorreu porque pessoas que não foram detidas ou deportadas deixaram de comparecer ao trabalho diante do risco de fiscalização.
Essa distinção é importante. O impacto econômico começa antes que uma remoção seja concluída. O medo de circular, dirigir até o emprego ou permanecer em locais de trabalho altera a oferta de mão de obra e o funcionamento das empresas.
O estudo também não afirma que todas as operações do ICE produzem exatamente o mesmo resultado. As estimativas representam a média observada nas regiões e no período analisado.
Menos trabalhadores também afetam impostos e preços
A perda de trabalhadores pode reduzir a produção, a renda e o consumo nas comunidades atingidas.
Um levantamento do Institute on Taxation and Economic Policy estimou que imigrantes sem documentos pagaram US$ 96,7 bilhões em impostos federais, estaduais e locais em 2022. Desse total, US$ 59,4 bilhões foram destinados ao governo federal e US$ 37,3 bilhões aos estados e municípios.
A estimativa inclui impostos sobre renda, folha de pagamento, compras, combustíveis, imóveis e aluguéis. A Flórida recebeu cerca de US$ 1,8 bilhão em tributos estaduais e locais atribuídos a essa população naquele ano.
Projeções econômicas anteriores também indicaram que deportações em larga escala poderiam reduzir o emprego total e aumentar custos em setores com forte presença de imigrantes. O Peterson Institute for International Economics calculou cenários com a retirada de 1,3 milhão ou 8,3 milhões de trabalhadores. Em ambos, o emprego e o Produto Interno Bruto ficaram abaixo do cenário sem deportações até 2028.
Essas projeções não representam uma previsão exata sobre a política atual. Elas mostram o que modelos econômicos indicam quando uma parcela expressiva da força de trabalho é retirada do país.
O que muda para brasileiros empregados nos Estados Unidos
O resultado interessa também a brasileiros com cidadania, residência permanente ou autorização de trabalho.
O status legal não impede que um empregado perca horas ou seja demitido quando sua empresa reduz contratos, turnos ou produção. O efeito pode atingir quem trabalha ao lado de pessoas sem documentos, presta serviços para negócios afetados ou depende do consumo das famílias que perderam renda.
Brasileiros que administram empresas também enfrentam riscos operacionais. A perda repentina de funcionários pode interromper obras, comprometer prazos e elevar custos de contratação. O empregador deve manter os formulários de elegibilidade de trabalho exigidos pela legislação e evitar decisões discriminatórias baseadas em idioma, aparência, origem ou nacionalidade.
Para o trabalhador, a medida prática é manter cópias de contratos, comprovantes de pagamento, registros de horas, informações do empregador e documentos migratórios em local seguro. Quem recebe salário abaixo do combinado, sofre ameaça ou perde pagamento por trabalho já realizado deve buscar orientação trabalhista. Questões sobre detenção, autorização de emprego ou risco de remoção exigem análise de um advogado de imigração licenciado.
O estudo não concluiu que a fiscalização migratória beneficia trabalhadores americanos. Nas regiões analisadas, o aumento das prisões retirou imigrantes do mercado e também eliminou empregos ocupados por pessoas nascidas nos Estados Unidos.
Jacy Abreu
Redatora do portal Vou Para América, com cerca de 30 anos de experiência na área de Comunicação. Ao longo da carreira, atuou em grandes empresas de mídia como América Online e Editora Abril. Possui ampla experiência em produção de conteúdo jornalístico e institucional, coordenação de projetos de comunicação e planejamento editorial. É fundadora da Lumepress Comunicação, agência de assessoria de imprensa.
Fontes e Créditos
A fonte principal desta matéria é o estudo Labor Market Impacts of ICE Activity in Trump 2.0, de Elizabeth Cox e Chloe N. East, publicado pelo National Bureau of Economic Research em abril de 2026 e revisado em junho de 2026. A resposta da Casa Branca e os números detalhados sobre os efeitos no emprego foram consultados na reportagem do The Washington Post. Os dados tributários são do Institute on Taxation and Economic Policy. As projeções macroeconômicas são do Peterson Institute for International Economics.
Transparência Editorial
Esta matéria separa os resultados empíricos do estudo do NBER das estimativas tributárias e projeções econômicas produzidas por outras instituições. O estudo é um working paper e pode passar por novas revisões. As conclusões representam médias das regiões analisadas e não permitem afirmar que toda ação do ICE causará a mesma redução de emprego. O conteúdo prático tem caráter informativo e não substitui orientação jurídica individual. Nenhuma declaração ou número sem fonte rastreável foi incorporado ao texto.