O sonho dele nunca foi apenas visitar a NASA. Era trabalhar até chegar à indústria espacial

Jacy Abreu17 de julho de 2026Brasileiros nos EUA
O sonho dele nunca foi apenas visitar a NASA. Era trabalhar até chegar à indústria espacial

Muitos turistas que chegam à Flórida reservam um dia para conhecer o Kennedy Space Center e observar de perto os foguetes que ajudaram a transformar a exploração espacial. Vinícius poderia ter feito o mesmo durante seus primeiros anos nos Estados Unidos, mas havia estabelecido uma condição para si mesmo: só visitaria a NASA quando já estivesse trabalhando em uma empresa ligada ao setor aeroespacial.

Não era falta de interesse. Pelo contrário. Desde muito jovem, máquinas, computadores e tecnologia despertavam sua curiosidade. O que existia naquela promessa era uma mistura de ambição e compromisso. Ele não queria apenas contemplar de longe um universo que admirava. Queria se preparar até encontrar uma maneira de fazer parte dele.

Naquele momento, porém, o objetivo parecia distante. Antes de trabalhar com foguetes, Vinícius precisaria enfrentar a construção civil, o peso da saudade, a dificuldade com o inglês, a insegurança financeira e uma sequência de oportunidades perdidas. Precisaria também compreender que recomeçar em outro país exigia algo que nenhum diploma era capaz de garantir: humildade suficiente para aceitar o primeiro degrau.

A história começou em Fortaleza, no Ceará, onde nasceu e cresceu. Desde os 14 ou 15 anos, o trabalho já fazia parte de sua rotina. Gostava de informática, computadores e tudo o que envolvesse tecnologia, embora ainda não soubesse exatamente qual profissão seguiria. Depois do ensino médio, experimentou caminhos diferentes. Começou a cursar Educação Física, passou por um semestre de Direito e só encontrou uma direção mais clara quando passou a trabalhar com o pai.

O pai mantinha uma oficina de usinagem, e foi ali que Vinícius teve contato direto com a montagem de máquinas, a fabricação de eixos e engrenagens, a manutenção de equipamentos e a precisão exigida pelos processos industriais. À medida que conhecia aquele universo, percebeu que finalmente havia encontrado algo capaz de reunir raciocínio, tecnologia e trabalho prático.

Abandonou os cursos anteriores e ingressou em Engenharia Mecânica na Universidade de Fortaleza, a UNIFOR.

A decisão marcou o início de uma trajetória profissional consistente. Trabalhou com equipamentos industriais, participou da montagem de máquinas importadas da China e atuou em projetos dentro de indústrias de Fortaleza. Também esteve envolvido no transporte e na instalação de grandes equipamentos, acompanhando operações que começavam no porto e seguiam até as áreas industriais.

Mais tarde, levou a experiência para a construção civil, trabalhando com elevadores de obra, gruas, retroescavadeiras, Bobcats e locação de equipamentos. Participou ainda de uma operação de limpeza pós-obra e tornou-se sócio de uma pequena construtora com dois amigos engenheiros civis, em um período de forte expansão imobiliária na capital cearense.

Quando decidiu sair do Brasil, portanto, Vinícius não estava fugindo da falta absoluta de perspectivas. Aos poucos, havia construído uma carreira, criado contatos e conquistado experiência. O desafio estava justamente em abandonar algo que já começava a se tornar sólido para viver uma experiência cuja única certeza era a vontade de tentar.

O desejo de morar nos Estados Unidos havia surgido muitos anos antes.

No início dos anos 2000, alguns amigos de Fortaleza se mudaram para a Califórnia. Em uma época em que boa parte das conversas ainda acontecia por e-mail, ele acompanhava as experiências deles e imaginava como seria viver naquele país. Em 2005, decidiu solicitar o visto americano. Já havia feito planos, conversado com os amigos e alimentado expectativas, mas o pedido foi negado.

A recusa caiu como uma bomba. Durante algum tempo, sentiu que uma possibilidade importante havia sido encerrada antes mesmo de começar. Em vez de insistir imediatamente, interpretou o resultado como um sinal de que ainda não era o momento. Voltou a atenção para os estudos, o trabalho e a vida que estava construindo em Fortaleza.

O sonho não desapareceu. Apenas ficou adormecido.

Anos depois, o esporte o aproximou novamente dos Estados Unidos. Em 2013, começou a praticar triatlo e, com um grupo de amigos, decidiu participar de uma prova de meio Ironman em Cozumel, no México. Depois da competição, eles planejavam passar alguns dias entre Miami e Orlando. Dessa vez, o visto foi aprovado.

Ao chegar à Flórida, a antiga inquietação voltou com força. A infraestrutura, a organização e as possibilidades profissionais despertaram uma pergunta que começou a acompanhá-lo durante a viagem: por que não tentar viver ali?

Na época, mantinha um relacionamento com uma pessoa que tinha uma carreira estável no Brasil. A mudança chegou a ser discutida, mas foi descartada. Poucos meses depois, o relacionamento terminou, e Vinícius percebeu que já não existiam os mesmos compromissos que o impediam de partir. Não tinha filhos e carregava novamente aquela vontade de experimentar uma vida diferente.

Entre o fim de 2013 e o início de 2014, começou a se organizar. Conversou com amigos que moravam nos Estados Unidos, procurou brasileiros que já haviam passado pela mudança e tentou compreender o que o esperava. Ainda assim, nenhuma conversa seria capaz de antecipar completamente a experiência.

Seu maior medo não era o trabalho pesado. Era não conseguir caminhar com as próprias pernas.

Por estar sozinho diante daquela decisão, acreditava que precisaria encarar cada oportunidade com seriedade e responsabilidade. Queria construir uma vida nos Estados Unidos, ajudar a família e, no futuro, mostrar aos parentes um pouco do país que havia decidido conhecer por dentro.

Antes de embarcar, tomou uma decisão que considera essencial para tudo o que veio depois: deixou o ego no Brasil.

Em suas próprias palavras, “tirou a roupa do ego” e chegou de peito aberto para aceitar o que aparecesse. O diploma de Engenharia Mecânica, a experiência industrial e os anos de trabalho em Fortaleza não seriam usados como justificativa para rejeitar oportunidades honestas.

Ele nunca dizia que determinada função era simples demais. Quando um amigo precisava de ajuda para carregar ou descarregar uma van por algumas horas, oferecia-se para ir, mesmo que não houvesse pagamento.

“Passa aqui e me pega. Eu vou ajudar. Não precisa me pagar.”

O amigo chegou a se surpreender. Para Vinícius, porém, aquele comportamento fazia parte da construção de algo maior. Era uma maneira de aprender, criar confiança e mostrar que estava disposto a contribuir antes de exigir qualquer reconhecimento.

A disposição para trabalhar não eliminava a dificuldade emocional dos primeiros meses.

Antes da mudança, um amigo havia lhe feito um alerta durante um encontro no Centro das Tapioqueiras, em Fortaleza. Enquanto estavam sentados depois de pedalar, ele apontou para a convivência ao redor e disse que aquilo não existia da mesma maneira nos Estados Unidos. Vinícius ouviu a frase, mas só compreendeu seu verdadeiro significado depois de imigrar.

Nos domingos, enquanto via nas redes sociais os amigos reunidos na praia, comendo caranguejo, fazendo churrasco, jogando futebol ou andando de bicicleta, ele permanecia sozinho no quarto. Ainda conhecia poucas pessoas, não dominava o idioma e evitava gastos porque não sabia quanto dinheiro teria na semana seguinte.

Sentia falta da família, dos amigos e da vida que havia deixado em Fortaleza. Sentia falta, inclusive, da versão de si mesmo que sabia exatamente onde estava e a quem recorrer.

Para enfrentar essa sensação, criou uma maneira própria de pensar. Em vez de se concentrar apenas no presente, imaginava o próximo passo. Costumava dizer que chutava a bola para a frente e corria atrás dela. A pergunta não era apenas por que aquela fase estava difícil, mas o que poderia fazer para não permanecer na mesma situação.

Como acontece com muitos imigrantes, sua trajetória profissional nos Estados Unidos começou na construção civil. Trabalhou com brick, atividade ligada ao assentamento e acabamento de tijolos e pedras. Depois, uma conversa durante um churrasco abriu a oportunidade de trabalhar com pisos. O profissional que o contratou se tornaria um de seus grandes amigos no país.

A construção apresentou diferentes caminhos. Vinícius trabalhou com pintura, banheiros, muros, drywall, gabinetes, telhados e reparos em pisos. Cada serviço aumentava sua experiência e sua rede de contatos, mas os dias podiam ser longos e fisicamente exaustivos.

Embora tivesse levado algum dinheiro do Brasil, temia gastar as economias rapidamente e entrar em desespero. Por isso, decidiu não comprar um carro no início. Adquiriu uma pequena moto de 50 cilindradas por cerca de mil dólares.

O telefone também tinha limitações. Como não contava com internet durante o trajeto, usava o Wi-Fi da casa onde morava, em Winter Garden, para abrir o mapa e salvar capturas de tela de todas as ruas que precisaria percorrer.

Pela manhã, seguia de moto até MetroWest. Em cada semáforo, retirava o celular, comparava o nome da rua com os prints e verificava se continuava no caminho correto. Ao chegar ao endereço combinado, encontrava a equipe que seguiria de carro para uma obra em Daytona. No fim do expediente, refazia todo o percurso.

A rotina era improvisada, cansativa e muito distante da vida profissional que havia construído em Fortaleza. Ainda assim, representava independência. A pequena moto e as imagens salvas no telefone eram os recursos disponíveis para continuar avançando.

Foi justamente em Daytona, durante o segundo mês no país, que aconteceu um dos episódios mais marcantes da sua jornada.

Era domingo. Na hora do almoço, Vinícius estava sentado na obra, segurando uma Coca-Cola e um pedaço de pizza. Seu corpo e suas roupas estavam cobertos pela poeira produzida durante o corte das pedras. Ao olhar para os lados, sentiu uma vontade intensa de sair correndo.

Não era exatamente o desejo de voltar ao Brasil. Era o choque de não reconhecer a própria vida.

Ao chegar em casa, entrou no banho e chorou. Depois, tentou conversar consigo mesmo com a mesma racionalidade que usaria para resolver um problema técnico.

Estava nos Estados Unidos havia apenas dois meses. Não poderia cobrar de si a estabilidade de alguém que já tivesse vivido ali durante anos. Precisava aceitar que, naquele país, era ainda um “bebê de dois meses”.

A ideia trouxe paz.

Aquele momento de fragilidade nunca voltou a se repetir da mesma forma. Vinícius não cogitou desistir nem retornar ao Brasil. Entendeu apenas que todo recomeço precisa de tempo e que não seria justo comparar a nova vida, ainda em formação, com tudo o que havia levado anos para construir em Fortaleza.

A construção civil garantiu renda, experiência e contatos, mas ele sabia que não queria permanecer para sempre naquela área. A formação em Engenharia Mecânica continuava fazendo parte de sua identidade, assim como o interesse por tecnologia. Para acessar oportunidades mais próximas desse universo, havia uma barreira que precisava ser enfrentada.

O inglês.

A consciência ganhou força depois de um processo seletivo para uma empresa de tecnologia. A entrevista começou bem, mas, durante uma etapa por telefone, Vinícius não conseguiu responder perguntas que, tecnicamente, eram simples. A oportunidade escapou porque ele ainda não possuía o domínio necessário do idioma.

A frustração foi diferente das outras. Não poderia culpar o mercado, outra pessoa ou a falta de oportunidade. A vaga havia aparecido. O que faltava era preparação.

A experiência funcionou como um tapa no rosto.

Naquele momento, compreendeu que falar inglês não era algo extraordinário para quem desejava crescer nos Estados Unidos. Era o necessário. O diferencial poderia ser dominar outros idiomas, como o português e o espanhol que também aprendeu no país. O inglês, porém, era a base para participar plenamente do mercado americano.

A partir dali, passou a se cobrar mais. Estudava, conversava e procurava situações que o obrigassem a praticar. Mais tarde, quando precisou trabalhar como motorista de aplicativo, transformou cada corrida em oportunidade de comunicação. Conversava com passageiros, treinava a escuta e perdia, aos poucos, o medo de errar.

Antes disso, chegou a trabalhar em uma operação da Amazon. Em determinado momento, porém, seu documento de autorização de trabalho expirou antes que a renovação chegasse. Ao se apresentar para o expediente, foi barrado na porta.

A situação era especialmente delicada porque agora havia uma esposa, uma filha pequena e as despesas de um apartamento. Sem poder continuar no trabalho e sem saber quanto tempo levaria para receber o novo documento, precisou voltar a se movimentar.

Foi então que começou a dirigir para aplicativos.

O período trouxe outra cena que nunca esqueceu. Certa vez, foi ao Walmart com o valor exato para fazer as compras da casa. Encheu o carrinho, chegou ao caixa e tentou pagar. Um débito automático da conta telefônica havia consumido o dinheiro disponível.

A conta de telefone estava paga, mas faltava o necessário para levar comida para casa.

Era o tipo de situação que poderia quebrar sua confiança, sobretudo porque ele já não estava sozinho. Havia uma família contando com seu esforço. Ainda assim, continuou enviando currículos para empresas americanas sempre que encontrava uma vaga compatível.

Não sabia quando surgiria uma resposta. Apenas acreditava que precisava permanecer preparado para quando ela chegasse.

Uma dessas candidaturas foi para a General Electric.

O telefonema aconteceu enquanto aguardava uma corrida de aplicativo na fila do aeroporto. Quando o recrutador se apresentou, Vinícius mal se lembrava de ter enviado o currículo para aquela vaga, tamanho o número de aplicações que fazia.

A posição era ligada à energia eólica. Depois de algumas perguntas técnicas, recebeu um teste por e-mail. Saiu da fila, foi diretamente para casa, ligou o computador e realizou a avaliação. Pouco tempo depois, o recrutador telefonou novamente para dizer que o resultado havia sido positivo e que haveria uma nova entrevista, dessa vez com o gerente da área.

Vinícius não trabalhava havia anos diretamente com parte daquele conteúdo. Passou a rever vídeos, estudar conceitos e recuperar conhecimentos da Engenharia Mecânica que continuavam guardados, mas precisavam voltar à superfície.

Foi aprovado.

A etapa seguinte seria um treinamento de duas semanas na sede da GE, em Nova York. A cada semana, os candidatos enfrentavam novos testes, e aqueles que não alcançavam o desempenho esperado eram dispensados do processo para aquela função.

Ele avançou pelas etapas, mas ainda havia um problema. O novo documento de trabalho não tinha chegado.

A empresa aceitou temporariamente a comprovação do processo de renovação, mas informou que precisaria receber o documento definitivo até o último dia da seleção. Caso contrário, não seria possível concluir a contratação.

Durante aquele período, Vinícius telefonava diariamente para a esposa. Pedia que acompanhasse a correspondência e verificasse qualquer atualização. Depois de tudo o que havia enfrentado, via uma oportunidade em uma grande multinacional ameaçada por algo que não dependia apenas de sua preparação.

Na última sexta-feira, a empresa reforçou o prazo: se ele enviasse uma imagem do documento até o fim do dia, o processo poderia continuar. Caso contrário, seria eliminado.

A esposa acompanhou cada etapa daquele momento de tensão. A chegada da documentação representava mais do que uma exigência burocrática. Era a confirmação de que todo o esforço dos dois começava a encontrar uma direção.

A entrada na GE mudou o rumo da trajetória.

A empresa abriu portas para trabalhos ligados à engenharia, energia e operações técnicas. Também permitiu que ele viajasse por diferentes regiões e conhecesse os Estados Unidos de cima a baixo. Depois de anos tentando reconstruir a carreira, Vinícius finalmente conseguia usar de maneira mais direta a experiência que havia começado na oficina do pai e desenvolvido na universidade.

Em outro momento, participou do trabalho de comissionamento da VelociCoaster, atração da Universal Studios, acompanhando etapas técnicas até a abertura do brinquedo. Mais tarde, retornou à GE e, depois, recebeu uma oportunidade na Tesla.

Na Tesla, passou por treinamento na Califórnia e integrou o departamento de energia. A função ainda envolvia viagens, embora boa parte das atividades estivesse concentrada na Flórida.

Cada nova experiência parecia aproximá-lo de áreas mais avançadas da tecnologia. Mesmo assim, o sonho do setor aeroespacial permanecia distante. Vinícius enviava candidaturas repetidamente para empresas do segmento e recebia uma quantidade incontável de respostas negativas.

Não precisava, porém, que todas dissessem sim.

Precisava apenas de uma.

Enquanto trabalhava na Tesla, surgiram duas oportunidades: uma na SpaceX e outra na Blue Origin. Ele escolheu a Blue Origin.

A decisão o levou para a Space Coast da Flórida, região que concentra algumas das operações mais importantes do programa espacial americano. A empresa atua no desenvolvimento de foguetes, motores e sistemas destinados ao transporte de cargas, satélites e outros equipamentos para o espaço.

Há quatro anos, Vinícius trabalha na companhia. Inicialmente, participou de atividades ligadas ao sistema de pouso do New Glenn. Atualmente, atua no departamento de proteção térmica, trabalhando com materiais e equipamentos destinados a proteger o foguete das temperaturas extremas durante a reentrada na atmosfera.

O profissional que começou montando engrenagens e eixos com o pai em Fortaleza agora participa da construção de um veículo destinado ao espaço.

A conquista também revelou uma comunidade brasileira presente dentro da indústria. Segundo ele, dezenas de profissionais do Brasil trabalham na empresa, muitos vindos da aviação e de companhias como a Embraer. São engenheiros, técnicos e especialistas que ajudam a levar conhecimento brasileiro para um dos setores mais complexos do mercado americano.

A Blue Origin não apagou as fases anteriores. Ao contrário, tornou mais claro o papel de cada uma delas.

A construção civil ensinou humildade e resistência. A pequena moto ensinou independência. O momento vivido no Walmart reforçou a responsabilidade com a família. O Uber melhorou sua comunicação. A entrevista perdida mostrou que o inglês era indispensável. A GE devolveu a engenharia à sua trajetória. A Universal e a Tesla ampliaram seu contato com projetos técnicos de grande escala.

Nenhuma etapa foi inútil.

Vinícius acredita que sua maior transformação foi aprender a respeitar o tempo. Hoje, entende que as coisas nem sempre acontecem no momento desejado, mas no tempo que Deus permite. Essa crença, contudo, não significa esperar de braços cruzados.

Para ele, paciência sem foco não produz resultado. É preciso unir fé, preparação, determinação e resiliência. O tempo pode não estar sob controle, mas a maneira como alguém se prepara durante a espera está.

Ao olhar para trás, seu maior orgulho não está apenas no cargo que ocupa ou nas empresas pelas quais passou. Está na forma como chegou. Não precisou passar ninguém para trás, aproveitar-se de outras pessoas ou abandonar seus valores. Trabalhou, pediu ajuda quando necessário, venceu as próprias frustrações e continuou aprendendo.

A esposa teve papel importante nessa construção. Esteve ao seu lado durante momentos de insegurança, acompanhou a tensão dos processos migratórios e ajudou a sustentar a vida familiar enquanto as oportunidades ainda não estavam consolidadas. Hoje, os dois têm dois filhos, Isabela e Max, e construíram uma vida estável nos Estados Unidos.

A família também começou a se aproximar. Vinícius conseguiu trazer a mãe para conhecer sua rotina e seu trabalho. A irmã mais velha mudou-se para o país com o marido e o filho. Ele ainda sonha em convencer o pai, que resiste à ideia de sair do Brasil, e deseja aproximar outra irmã e o sobrinho.

Depois de tantos anos tentando abrir portas para si mesmo, passou a pensar em como pode abrir caminhos para as pessoas que ama.

Aos filhos, pretende transmitir o mesmo princípio que orientou sua própria trajetória: escolher algo que os faça crescer, manter o foco e desenvolver resiliência para atravessar os períodos em que o resultado ainda não apareceu.

Quando brasileiros perguntam se vale a pena mudar para os Estados Unidos, Vinícius evita transformar a resposta em uma promessa fácil. Admirar uma trajetória de sucesso é diferente de estar disposto a enfrentar tudo o que veio antes dela.

Há solidão, incerteza, decepções e momentos em que a própria capacidade será colocada em dúvida. A pessoa precisa perguntar não apenas se deseja o resultado, mas se aceita o caminho.

“Você quer? Está disposto?”

Para ele, quando essas duas respostas são verdadeiras, torna-se muito difícil impedir alguém de avançar. A lógica não depende de um país específico. Pode ser nos Estados Unidos, no Japão, no Brasil ou em qualquer lugar. O destino importa menos do que a disposição para construir o percurso.

Durante muitos anos, Vinícius manteve a promessa de não visitar a NASA enquanto ainda fosse apenas um admirador do lado de fora. Recebeu inúmeros “nãos”, mas continuou enviando currículos porque sabia que bastaria um único “sim”.

Esse sim chegou.

Hoje, aos 40 anos e depois de quase 11 anos nos Estados Unidos, ele trabalha em um projeto que leva a engenharia para além da atmosfera. Quando olha para o New Glenn, reconhece naquela estrutura um pouco de tudo o que viveu: a oficina do pai, a Engenharia Mecânica, as obras em Daytona, os prints no celular, o inglês aprendido com esforço e as oportunidades que quase escaparam.

A história de Vinícius não é apenas sobre um brasileiro que chegou à indústria espacial. É sobre alguém que entendeu que o ego pode ser pesado demais para quem precisa recomeçar e que, muitas vezes, o primeiro passo para chegar mais alto é aceitar começar novamente pelo chão.

Ele deixou Fortaleza sem saber exatamente onde o caminho terminaria. Sabia apenas que precisava continuar chutando a bola para a frente e correndo atrás dela.

Foi assim que atravessou a construção civil, as estradas americanas e os corredores de algumas das maiores empresas de tecnologia do mundo.

Até chegar a um lugar onde o próximo destino já não está apenas em outra cidade ou em outro país.

Está no espaço.

Jacy Abreu

Jacy Abreu

Redatora do portal Vou Para América, com cerca de 30 anos de experiência na área de Comunicação. Ao longo da carreira, atuou em grandes empresas de mídia como América Online e Editora Abril. Possui ampla experiência em produção de conteúdo jornalístico e institucional, coordenação de projetos de comunicação e planejamento editorial. É fundadora da Lumepress Comunicação, agência de assessoria de imprensa.

Fontes e Créditos

Entrevista concedida por Vinícius Gonzaga Respostas e áudios enviados pelo entrevistado Informações compartilhadas com a equipe do Vou Pra América

Transparência Editorial

Este conteúdo foi produzido a partir das informações fornecidas diretamente por Vinícius e organizado em formato storytelling para fins editoriais. A sequência dos acontecimentos foi ajustada para favorecer a clareza e a fluidez narrativa, sem alterar a essência dos relatos. As informações sobre funções, empresas e projetos profissionais refletem as declarações do entrevistado.

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