Mais de 60% dos estudantes querem ser influenciadores, aponta levantamento nos EUA e na Noruega

Mais de 60% dos estudantes ouvidos em um levantamento nos Estados Unidos e na Noruega disseram querer ser influenciadores digitais ou escolheram carreiras inspiradas por conteúdos vistos na internet.
O dado foi divulgado por Matthew Simoneau, pesquisador de Educação e Carreiras da University of Wisconsin-Stout, em artigo publicado originalmente pela The Conversation e republicado por veículos como Fortune e Chron. Segundo Simoneau, a pesquisa foi feita entre 2021 e 2024 com crianças do ensino fundamental, estudantes do ensino médio e adolescentes em grupos de discussão.
A metodologia variou conforme a idade. Crianças menores receberam papéis com a frase “Quando eu crescer, eu gostaria de ser...” e completaram a resposta. Adolescentes participaram de conversas sobre planos acadêmicos e profissionais.
Nas respostas, redes sociais apareceram como uma das maiores influências na escolha de carreira, atrás apenas de familiares, amigos e professores. Entre os caminhos citados pelos estudantes estavam influenciador digital, youtuber, jogador profissional, músico e ator.
Fama, dinheiro e a distância da renda real
Simoneau afirmou que muitos estudantes associam a carreira de criador de conteúdo a fama e dinheiro. A percepção, segundo ele, é que influenciadores ganham bem fazendo atividades simples diante de uma câmera.
O problema é que o mercado não funciona dessa forma para a maioria.
Dados da CreatorIQ, plataforma de marketing de influência, mostram que a renda da creator economy ficou concentrada em poucos criadores em 2025. O top 10% recebeu 62% dos pagamentos registrados pela plataforma. O top 1% ficou com 21%. A mediana de ganhos foi de US$ 3 mil, apesar de a média por campanha ter chegado a US$ 11,4 mil.
Essa diferença entre média e mediana é importante. A média sobe quando poucos criadores ganham muito. A mediana mostra melhor o centro do mercado. Nesse caso, ela indica que muitos criadores recebem valores baixos ou irregulares.
Para famílias brasileiras nos EUA, essa informação muda a conversa dentro de casa. O problema não é o filho querer criar conteúdo. O risco está em tratar influência digital como plano de carreira sem discutir renda, impostos, contrato, tempo de trabalho, segurança online e alternativas profissionais.
Redes sociais já fazem parte da escolha profissional
O interesse dos adolescentes por carreiras digitais não acontece fora da realidade. O Pew Research Center informou em julho de 2025 que nove em cada dez adolescentes nos EUA usam YouTube. A mesma pesquisa apontou uso majoritário de TikTok, Instagram e Snapchat entre jovens americanos.
Isso significa que muitos adolescentes não apenas se divertem nas plataformas. Eles também observam profissões, estilos de vida, formas de ganhar dinheiro e modelos de sucesso.
O próprio levantamento de Simoneau mostra que a influência online nem sempre leva a expectativas irreais. Em um dos exemplos citados, um estudante de área rural disse querer ser biólogo marinho por causa de vídeos que assistiu na internet.
A diferença está no tipo de conversa que a família e a escola conseguem construir a partir desse interesse.
O que pais brasileiros nos EUA devem observar
Para pais imigrantes, há uma camada adicional. Muitos chegaram aos EUA com foco em estabilidade, renda e ascensão social. Os filhos, especialmente os que estudam em escolas americanas, crescem em um ambiente em que a internet também aparece como vitrine de profissão.
A conversa precisa sair do “isso não dá futuro” e entrar no “como isso funciona de verdade”.
Se o adolescente quer ser criador de conteúdo, a família pode perguntar qual tema ele domina, quanto tempo pretende dedicar, como pretende medir resultado e que habilidades precisa desenvolver. Edição de vídeo, escrita, inglês, apresentação, vendas, design, análise de dados e noções de contrato são competências úteis mesmo fora das redes sociais.
Também é preciso falar de dinheiro. Um criador que recebe pagamento por publicidade, afiliados ou parcerias pode ter obrigação de declarar renda nos EUA. Para quem vive em família imigrante, esse ponto não deve ser tratado como detalhe. Renda informal, contratos mal compreendidos e pagamentos sem controle podem virar problema fiscal.
Outro ponto é segurança. Menores de idade expostos online precisam de orientação sobre privacidade, comentários, uso de imagem, mensagens de desconhecidos e golpes. O desejo de ganhar seguidores não pode passar por cima da proteção da criança ou do adolescente.
Como transformar interesse em plano real
O dado do levantamento não deve ser lido como prova de que jovens “não querem trabalhar”. Ele mostra que as referências de carreira mudaram.
Antes, crianças viam profissões principalmente dentro da família, na escola ou na televisão. Agora, veem pessoas comuns ensinando, vendendo, jogando, cozinhando, explicando ciência, mostrando rotina e construindo audiência.
Para brasileiros nos EUA, a orientação prática é tratar criação de conteúdo como porta de entrada para habilidades concretas. Um filho que gosta de gravar vídeos pode aprender edição. Quem gosta de games pode estudar programação, design ou marketing. Quem acompanha influenciadores de moda pode se aproximar de varejo, produção, fotografia ou negócios.
A pergunta central não é se ser influenciador é uma carreira boa ou ruim. A pergunta é qual plano existe por trás desse desejo.
Sem plano, a promessa de fama vira frustração. Com orientação, o interesse por redes sociais pode ajudar o jovem a desenvolver repertório, disciplina e competências valorizadas no mercado americano.
Jacy Abreu
Redatora do portal Vou Para América, com cerca de 30 anos de experiência na área de Comunicação. Ao longo da carreira, atuou em grandes empresas de mídia como América Online e Editora Abril. Possui ampla experiência em produção de conteúdo jornalístico e institucional, coordenação de projetos de comunicação e planejamento editorial. É fundadora da Lumepress Comunicação, agência de assessoria de imprensa.
Fontes e Créditos
Esta matéria foi produzida com base no artigo de Matthew Simoneau, da University of Wisconsin-Stout, publicado pela The Conversation e republicado por Fortune e Chron. Também foram consultados dados do Pew Research Center, da CreatorIQ e reportagem do Business Insider.
Transparência Editorial
O levantamento citado por Simoneau foi descrito como pesquisa em andamento e ainda não deve ser tratado como estatística nacional definitiva sobre todos os jovens dos EUA. Por isso, o texto atribui o dado diretamente ao pesquisador e limita a conclusão ao universo informado na publicação original. A análise para famílias brasileiras nos EUA foi construída a partir de dados rastreáveis sobre uso de redes sociais por adolescentes e concentração de renda na creator economy.