
A nova leva de documentos divulgados pelas autoridades americanas sobre o caso Jeffrey Epstein trouxe um detalhe até então pouco explorado: o financista, acusado de comandar uma rede de exploração sexual de menores, possuía um CPF brasileiro emitido em 23 de abril de 2003.
O registro aparece em uma listagem intitulada “Miscellaneous Files I – Jeffrey Epstein”. No item 21, consta a descrição “Brazilian CPF (Has old POA in it)”. A sigla POA, comum em documentação jurídica internacional, costuma significar Power of Attorney, ou procuração. Isso sugere que o arquivo não se limitava ao número do CPF, mas possivelmente incluía uma procuração vinculada ao documento.
Além da menção nos arquivos do Departamento de Justiça, há um comprovante de situação cadastral emitido pela Receita Federal do Brasil em nome de Jeffrey Edward Epstein, nascido em 20 de janeiro de 1953. O número de inscrição foi gerado em 2003 e, segundo a consulta, o status permanece “Regular”.
No sistema da Receita Federal, a classificação “Regular” indica que não há pendências cadastrais associadas ao CPF. O status não significa atividade financeira recente nem comprova movimentação patrimonial. No caso de pessoas falecidas, a atualização para a condição de “titular falecido” depende de comunicação formal ao Fisco. Se essa informação não é registrada, o cadastro pode permanecer como regular.
O que a existência de um CPF revela, então? No Brasil, estrangeiros podem obter CPF para uma série de finalidades formais, como abertura de contas bancárias, aquisição de imóveis, participação societária ou representação legal em contratos. O documento é frequentemente exigido para qualquer operação que envolva registro fiscal ou patrimonial.
Até o momento, os documentos divulgados não indicam diretamente a existência de bens, empresas ou investimentos em território brasileiro vinculados ao nome de Epstein. A simples emissão do CPF não comprova atividade econômica no país. Também não há, nos arquivos analisados até aqui, confirmação de pedido formal de cidadania brasileira.
Relatos anteriores sobre trocas de e-mails indicam que Epstein teria cogitado obter cidadania brasileira em 2011, mas teria desistido por receio de impacto em sua mobilidade internacional. Esses registros, no entanto, tratam de discussões internas e não configuram prova de que o processo tenha sido iniciado.
O caso Epstein, que envolve mais de 250 vítimas identificadas e conexões com figuras influentes, continua a revelar ramificações internacionais mesmo anos após sua morte, ocorrida em 2019, em uma prisão federal de Nova York. A inclusão de um CPF brasileiro na documentação oficial amplia o mapa geográfico do escândalo, mas ainda carece de elementos que indiquem qual teria sido, na prática, o grau de vínculo formal com o Brasil.
A presença da expressão “Has old POA in it” pode ser o ponto mais sensível do material até agora. Caso a procuração mencionada seja confirmada e seu teor venha a público, será possível entender se houve representação legal no país ou delegação de poderes a terceiros.
Por ora, o dado concreto é a existência do CPF e sua inclusão nos arquivos oficiais do processo. O restante permanece no campo das hipóteses que exigem investigação documental adicional.
Departamento de Justiça dos Estados Unidos, acervo público do caso Epstein Secretaria da Receita Federal do Brasil, consulta de situação cadastral no CPF Documentos oficiais divulgados no pacote “Epstein Files”
A informação sobre o CPF brasileiro baseia-se em documentos incluídos no acervo oficial divulgado pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos e em comprovante de situação cadastral emitido pela Receita Federal do Brasil. A reportagem não encontrou, até o fechamento, registros públicos que comprovem bens ou empresas vinculados ao CPF mencionado. Eventuais atualizações serão incorporadas mediante confirmação documental.
Jorge Kubrusly é empresário e estrategista de negócios, com mais de 20 anos de experiência. Residente em Orlando desde 2019, fundou o Vou pra América com o propósito de colocar os brasileiros que moram ou desejam morar nos Estados Unidos no controle da própria jornada, oferecendo clareza, estratégia e autonomia para decisões importantes de vida e carreira.