Imigrantes fundaram 59% das startups bilionárias dos EUA, aponta estudo

Imigrantes fundaram ou cofundaram 59% das startups privadas avaliadas em pelo menos US$ 1 bilhão nos Estados Unidos, segundo estudo publicado em junho de 2026 pela National Foundation for American Policy, a NFAP. São 455 empresas em um universo de 775 companhias analisadas.
O número ajuda a dimensionar uma participação que vai além da presença de trabalhadores estrangeiros no mercado americano. Imigrantes aparecem entre os fundadores de empresas que atuam em inteligência artificial, finanças, saúde, defesa, segurança digital, software corporativo e exploração espacial.
O valor combinado das 455 empresas chegou a US$ 5 trilhões em abril de 2026, de acordo com a NFAP. O estudo considerou startups privadas sediadas nos Estados Unidos, avaliadas em pelo menos US$ 1 bilhão e acompanhadas pela CB Insights.
A concentração também aparece na nova geração de empresas que tenta chegar a esse patamar. Na edição de 2026 da Next Billion-Dollar Startups, a Forbes e a TrueBridge Capital Partners selecionaram 20 companhias americanas financiadas por venture capital e ainda avaliadas abaixo de US$ 1 bilhão. Quase todas usam inteligência artificial de alguma maneira.
A Forbes não classificou essas 20 empresas pela origem migratória dos fundadores. Por isso, o Vou pra América não publica como dado confirmado os percentuais apresentados no levantamento preliminar fornecido à redação sobre quantas delas teriam fundadores estrangeiros. O que é possível afirmar, com base em levantamento nacional identificado e rastreável, é que a presença imigrante entre as startups bilionárias americanas já é majoritária.
De 50 empresas para 455 em oito anos
A comparação histórica mostra que o fenômeno cresceu junto com o próprio mercado de unicórnios.
Em 2018, os Estados Unidos tinham 91 startups privadas avaliadas em pelo menos US$ 1 bilhão na base utilizada pela NFAP. Cinquenta, ou 55%, tinham ao menos um fundador imigrante.
Em abril de 2026, o número total de unicórnios americanos havia chegado a 775. Entre eles, 455 tinham fundador ou cofundador nascido fora dos Estados Unidos. A fatia subiu para 59%, enquanto o número absoluto de empresas com participação de fundadores imigrantes aumentou mais de oito vezes.
Quando entram na conta também os americanos filhos de imigrantes, a participação chega a 66% das startups bilionárias, segundo o estudo.
A NFAP encontrou ainda outro dado: quase 80% dessas companhias tinham um imigrante como fundador ou ocupando uma função importante de liderança, como CEO ou vice-presidente de engenharia.
Os números não demonstram que ser imigrante, isoladamente, torna uma startup mais bem-sucedida. Valuation depende de setor, mercado, produto, acesso a capital, crescimento, execução e outros fatores.
A própria TrueBridge, responsável pela seleção feita com a Forbes, aponta eficiência no uso do capital, exposição a mercados com crescimento de longo prazo e validação por investidores, clientes e parceiros como sinais recorrentes entre empresas de alto crescimento. A nacionalidade dos fundadores não aparece como critério de sucesso.
O dado migratório mostra outra coisa: empreendedores estrangeiros ocupam espaço desproporcional entre as empresas privadas de maior valor dos Estados Unidos.
SpaceX, Anthropic e OpenAI estão no grupo
O alcance econômico fica mais visível quando se observa o topo do levantamento da NFAP.
Entre as empresas privadas bilionárias identificadas pelo estudo com pelo menos um fundador imigrante estão SpaceX, Anthropic, OpenAI, Databricks, Stripe, Ramp, Safe Superintelligence e Anysphere.
Os valores utilizados pela NFAP são um retrato de abril de 2026 e não devem ser interpretados como preços permanentes. Startups privadas podem ter seu valuation alterado a cada nova rodada de financiamento ou transação societária.
O relatório calculou ainda uma média de 833 empregos por empresa entre as startups privadas bilionárias com fundador imigrante. A NFAP informa que a maioria dessas vagas está nos Estados Unidos.
Esse ponto amplia a discussão sobre imigração econômica. O empreendedor estrangeiro não aparece apenas como alguém tentando acessar o mercado de trabalho americano. Em centenas dessas empresas, ele está do outro lado da contratação, criando negócios que empregam profissionais e atraem capital.
Um em cada quatro unicórnios tem fundador que chegou como estudante
A universidade aparece como uma das portas de entrada desse talento.
Segundo a NFAP, 24% das startups bilionárias americanas têm pelo menos um fundador que chegou inicialmente aos Estados Unidos como estudante internacional.
As empresas desse grupo tinham valor combinado de US$ 3,5 trilhões no levantamento e empregavam, em média, 1.123 pessoas cada.
O dado mostra como educação, imigração qualificada e empreendedorismo podem fazer parte da mesma trajetória. Um estrangeiro chega para estudar, entra no mercado profissional, desenvolve conhecimento ou tecnologia e, em alguns casos, torna-se fundador de uma empresa.
Mas essa sequência não é automática.
Um diploma americano não concede residência permanente. Abrir uma empresa também não cria, por si só, autorização para permanecer nos Estados Unidos ou trabalhar nela.
Essa distinção é especialmente importante para brasileiros que observam histórias de fundadores estrangeiros no Vale do Silício e imaginam que constituir uma LLC ou uma corporation seja suficiente para resolver o status migratório.
Não é.
Ter uma empresa não significa ter autorização para trabalhar nela
O USCIS mantém uma página específica sobre caminhos migratórios para empreendedores estrangeiros. O órgão deixa claro que diferentes classificações podem permitir determinadas atividades, mas cada uma possui requisitos próprios.
Um visitante em status B-1, por exemplo, pode realizar certas atividades comerciais permitidas, como reuniões e negociações. O USCIS afirma que essa pessoa não pode começar a operar ou trabalhar para uma nova empresa nos Estados Unidos apenas com o status de visitante de negócios.
Esse detalhe separa duas questões que frequentemente são confundidas: possuir participação societária e exercer trabalho nos Estados Unidos.
A empresa pode existir juridicamente. O estrangeiro, porém, continua submetido às regras de imigração aplicáveis ao seu status.
Há categorias que podem ser usadas por determinados empreendedores, executivos, investidores ou profissionais, como O-1, L-1A e, em circunstâncias específicas, classificações permanentes baseadas em emprego. Existe também o International Entrepreneur Rule, que permite ao Departamento de Segurança Interna conceder parole a determinados fundadores de startups que atendam aos requisitos do programa. Nenhuma dessas opções funciona como visto automático para quem simplesmente abriu uma empresa.
A escolha depende da nacionalidade, histórico profissional, estrutura da empresa, participação societária, investimento, vínculo com empresas no exterior, evidências de capacidade profissional e outros elementos do caso.
O E-2 exige atenção especial dos brasileiros
O visto E-2 aparece com frequência nas discussões sobre empreendedorismo nos Estados Unidos, mas existe uma limitação importante para quem possui somente cidadania brasileira.
A classificação é destinada a nacionais de países que mantêm tratado aplicável com os Estados Unidos. Na lista oficial do Departamento de Estado consultada em agosto de 2026, o Brasil não aparece entre os países habilitados ao E-2.
Isso significa que a cidadania brasileira, sozinha, não dá acesso a essa categoria.
A situação muda para brasileiros que também possuem nacionalidade de um país elegível e atendem aos demais requisitos legais. Portugal, por exemplo, passou a integrar as categorias E-1 e E-2 em março de 2024. Ter segunda cidadania, porém, não elimina a análise do investimento, da empresa e dos demais requisitos.
Esse é um exemplo de por que copiar a estratégia migratória de outro empreendedor pode gerar erro. Duas pessoas com negócios semelhantes podem ter opções completamente diferentes por causa de nacionalidade, currículo, estrutura empresarial ou histórico migratório.
O mapa das startups também mostra onde está o capital
A geografia identificada pela NFAP confirma a força dos grandes polos tecnológicos.
Das 455 startups bilionárias com fundador imigrante, 243 estavam sediadas na região da Baía de San Francisco. Isso representa 53% do grupo analisado.
Nova York tinha 83 empresas. A região de Boston e Cambridge aparecia com 30.
O levantamento também encontrou empresas em estados que concentram grandes comunidades brasileiras. A Flórida tinha nove startups bilionárias com fundador imigrante, cinco delas em Miami. Massachusetts tinha 31, Nova Jersey tinha quatro e Texas, 16.
Os números não significam que o empreendedor precise se mudar para a Califórnia para construir uma empresa de alto crescimento. Eles mostram onde se formaram concentrações de investidores, profissionais especializados, universidades, aceleradoras e empresas de tecnologia.
Para quem está começando, esse contexto importa porque capital e talento não estão distribuídos igualmente pelo território americano.
A nova lista da Forbes mostra onde os investidores estão olhando
A seleção de 2026 da Forbes reforça outro movimento. Inteligência artificial passou a integrar quase todas as empresas escolhidas para a lista Next Billion-Dollar Startups.
Os negócios atuam em áreas distintas, como saúde, energia, segurança digital, serviços jurídicos, finanças e infraestrutura. A IA aparece menos como um produto isolado e mais como uma ferramenta aplicada a operações específicas.
Para entrar no levantamento, a empresa precisa ser sediada nos Estados Unidos, receber capital de venture capital e ainda estar abaixo de US$ 1 bilhão de valuation.
A lista não é uma garantia de que os negócios chegarão ao bilhão. Mas seu histórico dá peso ao recorte: segundo a Forbes, 60% dos 275 ex-integrantes selecionados desde o início do projeto posteriormente atingiram valuation de unicórnio.
Isso transforma a seleção em uma fotografia de onde investidores e analistas enxergam empresas com potencial de escala, sem transformá-la em previsão infalível.
O que isso significa para o brasileiro que quer empreender nos EUA
As histórias das startups bilionárias ajudam a derrubar uma simplificação comum sobre o papel econômico do imigrante nos Estados Unidos.
O estrangeiro não participa apenas da economia ocupando empregos que já existem. Em centenas das empresas privadas mais valiosas do país, ele participou da criação do negócio.
Para um brasileiro, porém, a lição prática não é tentar reproduzir a trajetória de um fundador de unicórnio.
O primeiro passo é separar empresa, capital e imigração.
Constituir uma companhia trata da estrutura jurídica do negócio. Captar investimento trata do financiamento. Trabalhar para a empresa e permanecer legalmente nos Estados Unidos envolvem regras migratórias próprias.
Misturar essas três decisões pode produzir um negócio formalmente aberto e, ao mesmo tempo, um problema migratório para o proprietário.
Antes de assumir função operacional, receber remuneração ou estruturar uma mudança para os Estados Unidos, o empreendedor estrangeiro precisa identificar qual atividade pretende exercer, qual status possui e qual caminho migratório, se houver, corresponde aos fatos do seu caso.
É também por isso que histórias de sucesso no Vale do Silício não devem ser tratadas como modelo jurídico. O fato de um fundador estrangeiro ter conseguido permanecer no país não significa que outro empreendedor terá acesso à mesma categoria.
Os números de 2026 mostram que os Estados Unidos continuam convertendo talento vindo de outros países em empresas, empregos e valor econômico. Para o brasileiro que quer participar desse mercado, a oportunidade empresarial existe. O caminho migratório precisa ser planejado com a mesma atenção dada ao produto, ao capital e aos clientes.
Para orientação individual sobre imigração, abertura de empresa, tributação ou investimentos, o leitor pode consultar profissionais no diretório do Vou pra América. Informações gerais não substituem análise jurídica, migratória, contábil ou financeira do caso concreto.
Jacy Abreu
Redatora do portal Vou Para América, com cerca de 30 anos de experiência na área de Comunicação. Ao longo da carreira, atuou em grandes empresas de mídia como América Online e Editora Abril. Possui ampla experiência em produção de conteúdo jornalístico e institucional, coordenação de projetos de comunicação e planejamento editorial. É fundadora da Lumepress Comunicação, agência de assessoria de imprensa.
Fontes e Créditos
A principal base quantitativa desta matéria é o estudo Immigrants and U.S. Billion-Dollar Companies, publicado pela National Foundation for American Policy em 3 de junho de 2026. A NFAP declara ser uma organização independente e apartidária de pesquisa em políticas públicas. Os valuations utilizados pelo levantamento têm como referência abril de 2026 e se baseiam em empresas privadas acompanhadas pela CB Insights. O recorte sobre empresas emergentes utiliza a Next Billion-Dollar Startups 2026, publicada pela Forbes em parceria com a TrueBridge Capital Partners, e a explicação metodológica da seleção. As informações migratórias foram verificadas em páginas oficiais do USCIS sobre empreendedores estrangeiros, do International Entrepreneur Rule e na lista de países com tratados E-1 e E-2 do Departamento de Estado.
Transparência Editorial
Esta matéria partiu de um insumo fornecido à redação que cruzava a lista da Forbes de 2026 com a origem dos fundadores e apresentava percentuais próprios sobre valuation e capital captado por empresas de imigrantes. Esses cálculos não foram publicados como fatos porque a documentação empresa por empresa que permitiria auditar a classificação de nacionalidade não foi disponibilizada. A declaração atribuída no insumo a Fabiano Rocha, CEO da Jumpstart, também não foi utilizada entre aspas porque o registro original da entrevista ou manifestação não foi fornecido para verificação. A exclusão segue a Política Zero Ficção do Vou pra América, que exige fonte rastreável para números e declarações. A matéria não estabelece relação causal entre ser imigrante e obter valuation mais alto. Os dados sustentam a elevada participação de fundadores estrangeiros nas startups bilionárias americanas, mas não demonstram que a origem migratória seja responsável pelo desempenho financeiro das empresas. Informações migratórias verificadas em 9 de agosto de 2026. Regras, valores e critérios de imigração podem mudar e devem ser conferidos novamente antes de qualquer decisão individual.