Idosos dividem casa nos EUA para cortar aluguel e enfrentar solidão

Jacy Abreu6 de julho de 2026Moradia
Idosos dividem casa nos EUA para cortar aluguel e enfrentar solidão

Idosos nos Estados Unidos estão dividindo casa para reduzir gastos com moradia e enfrentar a solidão. A prática ganhou força em meio ao aumento do aluguel, dos impostos residenciais, dos seguros e dos custos de manutenção.

A Folha de S.Paulo publicou, com base em reportagem do The New York Times, casos de pessoas acima de 65 anos que passaram a morar juntas para dividir despesas. Em um dos exemplos, uma aposentada em Denver deixou um aluguel acima de US$ 1.500 e passou a pagar US$ 800 para viver na casa de outra idosa.

O dado que explica a pressão financeira é direto. Em 2023, mais de um terço dos domicílios chefiados por idosos nos EUA gastava mais de 30% da renda com moradia, segundo o Joint Center for Housing Studies, da Universidade Harvard. O mesmo levantamento apontou 12,4 milhões de domicílios de idosos nessa condição.

Nos EUA, famílias que gastam mais de 30% da renda com moradia são consideradas “cost burdened”, expressão usada para indicar que o custo da casa pesa demais no orçamento. Quando o gasto passa de 50%, a situação é considerada severa.

Para quem vive de aposentadoria, Social Security ou renda fixa, a conta fica mais apertada. Mesmo proprietários sem financiamento precisam pagar imposto anual do imóvel, seguro residencial, consertos, condomínio em alguns casos, luz, água, aquecimento e adaptações para envelhecer com segurança.

Por que idosos estão dividindo casa

O modelo é conhecido nos EUA como “home sharing”, ou compartilhamento de moradia. Ele pode ocorrer de forma informal, quando uma pessoa aluga um quarto dentro da própria casa, ou por meio de organizações que ajudam a aproximar moradores e interessados.

O National Shared Housing Resource Center afirma que programas de home sharing nos EUA atendem públicos diferentes, incluindo idosos, estudantes, profissionais e pessoas que precisam de moradia mais acessível. A entidade mantém um diretório de programas por estado.

A lógica é simples. Quem tem uma casa grande, mas renda apertada, transforma um quarto vazio em dinheiro mensal. Quem precisa morar pagando menos encontra uma alternativa ao aluguel tradicional, que normalmente exige renda comprovada, depósito, histórico de crédito e, em muitos casos, checagem rígida de antecedentes.

Mas o arranjo não é só financeiro.

A AARP, organização voltada a pessoas acima de 50 anos, publicou em 2025 que colegas de casa pagantes podem gerar renda extra, compensar custos de moradia e ajudar idosos a permanecerem na própria casa. A entidade também trata o tema como uma alternativa para envelhecer no lugar onde a pessoa já vive, em vez de se mudar para uma instituição ou para uma moradia menor.

O que isso tem a ver com brasileiros nos EUA

Para brasileiros que vivem nos EUA há muitos anos, a pauta toca em uma questão pouco discutida: envelhecer no país pode ser caro e solitário.

Muitos imigrantes chegaram jovens, trabalharam em limpeza, construção, delivery, restaurantes, salões de beleza, serviços domésticos ou pequenos negócios. Nem todos conseguiram acumular aposentadoria suficiente, comprar casa sem dívida ou manter uma rede familiar próxima.

O problema aparece quando a renda diminui, mas os custos continuam subindo. Um quarto vazio pode virar complemento de renda. Uma casa grande pode se tornar pesada demais para uma pessoa só. Um aluguel inteiro pode comprometer quase toda a aposentadoria.

Para brasileiros recém-chegados, o tema também importa. Dividir casa é uma das primeiras soluções de moradia para quem ainda não tem histórico de crédito, Social Security, comprovante de renda local ou dinheiro para depósito alto. A diferença é que o improviso cobra preço quando não há regra escrita.

Um acordo verbal pode terminar em despejo, perda de depósito, briga por contas, acusação de dano ao imóvel ou conflito sobre visitas, limpeza, barulho e uso da cozinha.

Quando dividir casa ajuda

O compartilhamento de moradia pode funcionar quando há contrato, regras claras e compatibilidade mínima de rotina.

O contrato deve dizer quanto será pago, em que dia, quais contas estão incluídas, se há depósito, como será a devolução, quais áreas da casa podem ser usadas, quais são as regras para visitas, animais, estacionamento, limpeza e encerramento do acordo.

Também precisa deixar claro se a pessoa está apenas alugando um quarto ou se existe algum tipo de ajuda doméstica em troca de desconto. Essa diferença importa.

Morar junto não é a mesma coisa que prestar cuidado. Preparar uma refeição ocasional, carregar uma compra ou ajudar com uma tarefa leve pode fazer parte da convivência. Cuidar de medicação, banho, mobilidade, transporte médico ou rotina de saúde já entra em outro campo e pode exigir responsabilidade legal, seguro, autorização ou contratação formal, dependendo do caso.

Para idosos brasileiros, esse ponto é essencial. Um conterrâneo alugando um quarto pode parecer mais seguro por falar português e entender a cultura. Ainda assim, proximidade cultural não substitui contrato, referência e checagem.

Onde estão os riscos

O primeiro risco é financeiro. Quem recebe alguém em casa precisa calcular se o valor pago cobre o custo real do quarto, das contas e do desgaste do imóvel. Também precisa verificar se o aluguel de parte da casa afeta regras de condomínio, hipoteca, seguro residencial ou zoneamento local.

O segundo risco é de segurança. Receber uma pessoa desconhecida dentro de casa exige checagem de identidade, antecedentes, referências e estabilidade de renda. Isso vale mais ainda para idosos que vivem sozinhos.

O terceiro risco é migratório indireto. Dividir casa não muda status de imigração, não regulariza ninguém e não cria direito automático de permanência no imóvel. O problema aparece quando uma pessoa sem contrato usa endereço para documentos, recebe correspondência importante ou entra em conflito com o dono da casa.

O quarto risco é familiar. Filhos adultos podem discordar da presença de um estranho na casa dos pais. Herdeiros podem questionar pagamentos, uso de espaços, acesso a documentos ou relação de confiança. Quanto mais informal for o acordo, maior a chance de conflito.

O que fazer antes de aceitar ou oferecer um quarto

O primeiro passo é tratar a moradia como um contrato, não como um favor. Mesmo quando as duas pessoas falam português, frequentam a mesma igreja ou foram indicadas por conhecidos, o acordo precisa estar por escrito.

O segundo passo é pesquisar programas locais de home sharing. Em algumas cidades, organizações ajudam na triagem, no pareamento e na criação de regras. Em Boston, por exemplo, a prefeitura já apresentou um programa de homeshare intergeracional voltado a conectar idosos com pessoas em busca de moradia.

O terceiro passo é consultar regras locais. Leis de locação variam por estado e cidade. Um basement, uma suíte anexa ou um quarto alugado dentro da casa podem ter exigências diferentes. Em alguns lugares, há regras específicas sobre ocupação, saída de emergência, aluguel de curto prazo e sublocação.

O quarto passo é proteger pagamentos. O ideal é evitar dinheiro vivo sem recibo. Transferências identificáveis, recibos mensais e contrato reduzem risco de disputa.

Para quem está alugando o quarto, também vale guardar comprovantes de pagamento, mensagens sobre o acordo e fotos do estado do espaço no dia da entrada. Para quem recebe, vale registrar regras da casa e fazer inventário simples de móveis e chaves entregues.

Dividir casa pode aliviar o orçamento e reduzir a solidão, mas não resolve o problema estrutural da moradia cara nos EUA.

O próprio levantamento de Harvard mostra que o peso da moradia sobre idosos cresceu nos últimos anos. Entre proprietários idosos, a taxa de domicílios com custo excessivo subiu de 24% em 2019 para quase 28% em 2023. Isso representa 7,9 milhões de domicílios de proprietários idosos pressionados por custos de moradia.

A solidão também pesa. Uma pesquisa da AARP divulgada em 2025 apontou que 40% dos adultos consultados relataram solidão, alta em relação a 2018 e 2010. O levantamento ouviu adultos nos EUA com 45 anos ou mais.

Para brasileiros nos EUA, a decisão deve juntar três perguntas. A primeira é financeira: o valor realmente ajuda ou só adia um problema maior? A segunda é de segurança: quem entra na casa foi checado? A terceira é jurídica: o acordo respeita as regras locais e está por escrito?

Quando essas respostas existem, dividir casa pode ser uma saída possível. Quando não existem, o quarto barato pode sair caro.

Jacy Abreu

Jacy Abreu

Redatora do portal Vou Para América, com cerca de 30 anos de experiência na área de Comunicação. Ao longo da carreira, atuou em grandes empresas de mídia como América Online e Editora Abril. Possui ampla experiência em produção de conteúdo jornalístico e institucional, coordenação de projetos de comunicação e planejamento editorial. É fundadora da Lumepress Comunicação, agência de assessoria de imprensa.

Fontes e Créditos

Esta matéria foi produzida a partir de reportagem publicada pela Folha de S.Paulo, com base no The New York Times, e de dados do Joint Center for Housing Studies, da Universidade Harvard, da AARP, do National Shared Housing Resource Center e da Prefeitura de Boston.

Transparência Editorial

O Vou pra América não afirma que brasileiros idosos estejam aderindo em massa ao home sharing, porque não há dado público específico sobre esse recorte. A matéria usa dados nacionais dos EUA para explicar uma pressão real de moradia e aplica o ângulo de serviço ao público brasileiro, conforme a linha editorial de utilidade, verificação e combate a conteúdo raso do portal.

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