ICE usa sistema da Palantir para mapear endereços e localizar alvos de deportação

O Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos, o ICE, usa uma plataforma chamada ELITE para localizar pessoas procuradas em operações migratórias. O sistema cruza informações de diferentes bases e ajuda agentes a decidir em quais endereços realizar diligências.
ELITE significa Enhanced Leads Identification & Targeting for Enforcement, expressão que pode ser traduzida como identificação avançada de pistas e seleção de alvos para fiscalização.
Um manual interno obtido pela 404 Media mostra que a ferramenta pode preencher mapas com possíveis alvos, abrir dossiês individuais e exibir um confidence score, índice que indica o grau de confiança do sistema em determinado endereço. A documentação associa parte das informações consultadas a órgãos governamentais, incluindo o Departamento de Saúde e Serviços Humanos.
Relatório teria citado sistema em prisão
Uma advogada de imigração afirmou que o formulário I-213 de um cliente registrou o uso do ELITE para localizá-lo em 28 de junho. O I-213 é preenchido por agentes do Departamento de Segurança Interna após uma prisão migratória e reúne informações sobre a abordagem e o processamento do caso.
A profissional não apresentou o documento original ao Vou pra América. Por isso, o caso individual não pôde ser verificado de forma independente. O ano da prisão também não foi informado no relato enviado à redação.
Segundo a advogada, o sistema teria cruzado endereços e registros ligados a serviços públicos, telefonia, internet e veículos. Não há, no material apresentado, documentação suficiente para afirmar que National Grid, Comcast, Verizon ou o RMV fornecem dados diretamente ao ELITE.
Ferramenta não mostra localização exata em tempo real
O ELITE não deve ser descrito como um rastreador que acompanha todos os movimentos de uma pessoa. Os documentos conhecidos indicam que a ferramenta organiza registros associados ao alvo e apresenta possíveis endereços com diferentes graus de confiança.
Isso significa que uma conta antiga, um registro de veículo ou um endereço mantido em uma base pública pode ajudar agentes a escolher onde procurar. Também significa que informações desatualizadas podem apontar para locais onde a pessoa já não mora.
Parlamentares americanos pediram explicações ao Departamento de Segurança Interna sobre o ELITE, as fontes utilizadas e os controles aplicados ao acesso aos dados. A carta afirmou que agentes do ICE reconheceram sob juramento o uso da plataforma em operações.
A Palantir confirmou que o ELITE integra capacidades fornecidas em um programa piloto com o ICE. A empresa declarou que atua como processadora de dados, não escolhe quais informações o governo coleta e mantém registros de auditoria das operações realizadas em sua plataforma.
O que brasileiros nos EUA devem fazer
O uso do sistema torna necessário manter endereço e documentos migratórios atualizados nos processos oficiais, guardar cópias dos protocolos e preparar um contato jurídico para emergências.
Famílias também devem saber onde localizar o número de registro migratório, os documentos do processo e informações sobre eventual audiência. Ter status regular reduz determinados riscos migratórios, mas não impede erros cadastrais, abordagens ou associações com endereços antigos.
Orientações sobre como agir diante de agentes dependem do local da abordagem, do status migratório e da existência de mandado. Decisões individuais devem ser tomadas com um advogado de imigração habilitado.
Jacy Abreu
Redatora do portal Vou Para América, com cerca de 30 anos de experiência na área de Comunicação. Ao longo da carreira, atuou em grandes empresas de mídia como América Online e Editora Abril. Possui ampla experiência em produção de conteúdo jornalístico e institucional, coordenação de projetos de comunicação e planejamento editorial. É fundadora da Lumepress Comunicação, agência de assessoria de imprensa.
Fontes e Créditos
A apuração utilizou o manual do ELITE e reportagens da 404 Media, documentos e páginas oficiais do ICE, carta de integrantes do Congresso americano e manifestação pública da Palantir. O relato sobre o cliente e o formulário I-213 foi fornecido como insumo à redação. O documento original não foi disponibilizado.
Transparência Editorial
O Vou pra América confirmou a existência do ELITE e suas funções gerais em fontes rastreáveis. A redação não confirmou de forma independente o caso individual, o ano da prisão nem a participação direta das empresas mencionadas pela advogada.