IA faz estudantes nos EUA reverem cursos e muda cálculo para quem quer trabalhar após a faculdade

Jacy Abreu22 de junho de 2026Trabalho
IA faz estudantes nos EUA reverem cursos e muda cálculo para quem quer trabalhar após a faculdade

Estudantes nos Estados Unidos passaram a rever escolhas acadêmicas por medo de que a inteligência artificial reduza vagas de entrada em áreas como computação, estatística, finanças e funções administrativas.

A discussão ganhou força após análise do Goldman Sachs citada por veículos econômicos. O banco avaliou a exposição de diferentes cursos à substituição por IA com base nas ocupações mais comuns entre jovens formados de 21 a 30 anos. A leitura é que cursos que levam a funções de escritório, análise, programação básica e serviços profissionais aparecem mais expostos à automação.

Os dados não indicam o fim de carreiras em tecnologia. Indicam outra coisa: o diploma, sozinho, deixou de ser proteção suficiente para quem entra no mercado em funções iniciais.

O que os dados mostram sobre matrículas

O National Student Clearinghouse Research Center informou que as matrículas em programas tradicionais de Computer and Information Science caíram em todos os níveis no outono de 2025. Em instituições de quatro anos, a queda foi de 8,1% na graduação. Na pós-graduação, a redução chegou a 14%.

A queda ocorreu mesmo com crescimento geral das matrículas no ensino superior americano. No outono de 2025, os Estados Unidos registraram mais de 19,4 milhões de matrículas pós-secundárias, alta de 1% em relação ao ano anterior, segundo o Clearinghouse.

Na primavera de 2026, a tendência continuou. O relatório mais recente do Clearinghouse apontou queda de 8,4% nas matrículas de Computer and Information Sciences em instituições de quatro anos e de 11,2% em instituições de dois anos, em comparação com a primavera de 2025. No mesmo período, cursos de Health Professions cresceram entre 6% e 7,1%, dependendo do tipo de instituição e do nível de certificação.

A leitura do mercado é que estudantes passaram a observar a empregabilidade de forma mais prática. Cursos ligados à saúde, educação e áreas com atendimento presencial aparecem menos expostos à substituição direta por IA. Já formações que levam a tarefas padronizadas de escritório enfrentam risco maior.

Quais cursos aparecem mais expostos à IA

A análise atribuída ao Goldman Sachs listou cursos cujos recém-formados tendem a entrar em ocupações mais expostas à substituição por inteligência artificial. A lista não significa que essas carreiras deixarão de existir. Ela indica que parte das funções iniciais associadas a essas formações envolve tarefas mais fáceis de automatizar, como análise padronizada, programação básica, relatórios, atendimento administrativo e produção de documentos.

20 cursos mais expostos à IA

Ciências da Gestão e Métodos Quantitativos
Ciência da Computação
Engenharia da Computação
Estatística e Ciências da Decisão
Programação de Computadores
Ciência da Computação e Informação (Geral)
Administração e Gestão de TIC
Ciência de Dados
Redes de Computadores e Telecomunicações
Matemática
Recursos Humanos e Serviços de Gestão
Finanças e Serviços de Gestão Financeira
Estudos Jurídicos
Sistemas de Informação de Gestão e Serviços
Contabilidade e Serviços Relacionados
Economia Empresarial/Gerencial
Economia
Física
Estudos de Escrita
Ciência Política e Governo

Quais cursos aparecem menos expostos à IA

Na outra ponta, aparecem cursos ligados a saúde, educação, engenharia aplicada, ciências biológicas e atividades que dependem mais de presença física, licença profissional, atendimento direto ou prática em ambientes regulados.

Para brasileiros, isso exige cuidado. Áreas como enfermagem, farmácia, terapia, educação especial e outras profissões reguladas podem ter menor exposição à IA, mas costumam exigir validação, provas, licenças estaduais, estágio, inglês técnico e autorização de trabalho.

20 cursos menos expostos à IA

Farmácia
Enfermagem
Educação Especial
Formação de Professores
Programas Preparatórios de Saúde/Medicina
Farmacologia e Toxicologia
Reabilitação e Profissões Terapêuticas
Engenharia Civil
Engenharia de Materiais
Fisiologia, Patologia e Ciências Relacionadas
Ciências Arquitetônicas
Serviço Social
Engenharia Arquitetônica
Biologia
Engenharia Química
Ciências Animais
Bioquímica, Biofísica e Biologia Molecular
Serviços de Saúde (Geral)
Engenharia Industrial
Neurobiologia e Neurociências

Por que isso importa para brasileiros nos EUA

Para um estudante americano, trocar de curso já envolve custo, tempo e mercado de trabalho. Para um brasileiro com visto F-1, o cálculo é mais sensível.

O F-1 é o visto usado por estudantes internacionais em instituições autorizadas nos EUA. Após a graduação, muitos alunos buscam o OPT, sigla para Optional Practical Training, uma autorização temporária de trabalho relacionada diretamente à área de estudo. O USCIS informa que estudantes F-1 podem ter autorização para trabalho dentro ou fora do campus, conforme regras específicas, e que o OPT deve estar ligado à área principal de estudo do aluno.

Isso muda a lógica da escolha acadêmica. Não basta escolher um curso “menos exposto à IA”. O brasileiro precisa avaliar se aquele curso permite trabalhar legalmente depois da graduação, se há demanda real por vagas de entrada e se a profissão exige licença estadual.

Cursos de saúde, por exemplo, aparecem como menos expostos à substituição por IA, mas não são atalhos simples. Enfermagem, farmácia, terapia, educação especial e outras profissões reguladas podem exigir provas, validação, estágio, licenças estaduais e inglês técnico. Uma área pode ser resistente à automação e, ainda assim, difícil de acessar para um estrangeiro recém-formado.

Em tecnologia, o cuidado é outro. Ciência da Computação e Ciência de Dados continuam relevantes, mas o mercado parece menos tolerante com formação baseada apenas em tarefas repetíveis. Programação básica, análise simples de dados e produção padronizada de documentos são justamente os tipos de atividade que ferramentas de IA conseguem acelerar ou substituir em parte.

STEM OPT virou peça central do planejamento

A escolha do curso também afeta o tempo legal de permanência para experiência profissional.

Estudantes F-1 formados em áreas STEM elegíveis, sigla para ciência, tecnologia, engenharia e matemática, podem pedir uma extensão de 24 meses do OPT. O Departamento de Segurança Interna informa que estudantes interessados precisam solicitar e receber um Employment Authorization Document, o EAD, emitido pelo USCIS.

Na prática, isso faz diferença para quem tenta transformar a graduação em experiência profissional nos EUA. Um curso STEM elegível pode dar mais tempo para ganhar experiência, construir currículo, buscar empregadores e avaliar caminhos futuros. Mas essa vantagem não elimina o risco de automação nem garante emprego.

O erro comum é escolher um curso apenas porque ele aparece na lista STEM. O estudante precisa verificar se o programa específico da universidade é elegível, se a instituição é certificada, se o empregador aceita cumprir as regras do STEM OPT e se a vaga tem relação direta com o curso.

Como escolher curso sem cair em promessa fácil

A decisão mais segura começa pelo cruzamento de quatro perguntas.

A primeira é sobre o mercado. O curso leva a vagas de entrada que ainda contratam jovens formados ou a área está concentrando oportunidades em profissionais experientes?

A segunda é sobre automação. A formação ensina apenas execução de tarefas ou também desenvolve julgamento, comunicação, solução de problemas e domínio técnico difícil de substituir?

A terceira é sobre imigração. O curso permite OPT? É elegível para STEM OPT? A profissão exige sponsor no futuro? A universidade tem histórico de suporte a estudantes internacionais?

A quarta é sobre custo. A mensalidade, o aluguel, o seguro saúde e o tempo sem renda compensam o retorno provável da carreira?

Para brasileiros, essa conta deve ser feita antes da matrícula. Trocar de curso nos EUA pode aumentar tuition, atrasar a graduação e criar ruído no planejamento migratório. Também pode afetar prazos de estágio, autorização de trabalho e o caminho até uma vaga compatível com o visto.

O que muda agora

A IA não elimina a necessidade de estudar tecnologia. Ela muda o tipo de formação que tende a sobreviver melhor.

Cursos com base técnica forte, aplicação prática, contato com sistemas reais, segurança, infraestrutura, produto, saúde, engenharia e operações presenciais tendem a exigir mais do que execução automática de tarefas. Já cursos que preparam o aluno apenas para produzir relatórios, planilhas, códigos simples ou documentos padronizados enfrentam mais pressão.

Para o brasileiro que quer estudar nos EUA, a pergunta deixou de ser “qual curso dá mais dinheiro”. A pergunta correta é mais dura: qual curso tem demanda real, menor risco de automação, custo viável e caminho legal de trabalho depois da formatura?

A resposta não está em uma lista pronta. Está na comparação entre diploma, visto, mercado e retorno financeiro.

Jacy Abreu

Jacy Abreu

Redatora do portal Vou Para América, com cerca de 30 anos de experiência na área de Comunicação. Ao longo da carreira, atuou em grandes empresas de mídia como América Online e Editora Abril. Possui ampla experiência em produção de conteúdo jornalístico e institucional, coordenação de projetos de comunicação e planejamento editorial. É fundadora da Lumepress Comunicação, agência de assessoria de imprensa.

Fontes e Créditos

Esta matéria foi elaborada com base em dados do National Student Clearinghouse Research Center sobre matrículas no ensino superior americano, informações oficiais do USCIS sobre trabalho para estudantes F-1, orientações do Study in the States, do Departamento de Segurança Interna dos EUA, e análise atribuída ao Goldman Sachs sobre exposição de cursos à substituição por inteligência artificial.

Transparência Editorial

O Vou pra América não teve acesso, até a redação desta matéria, ao relatório primário completo do Goldman Sachs citado no insumo original. Por isso, a lista de cursos é apresentada como dado atribuído à análise do banco, não como recomendação individual de carreira. Os dados numéricos sobre matrículas foram checados em fontes rastreáveis, com prioridade para o National Student Clearinghouse Research Center. As informações sobre F-1, OPT e STEM OPT foram checadas em fontes oficiais do governo americano, incluindo USCIS e Study in the States.

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