Homem da Flórida planejou matar ex pelo ChatGPT, e conversas chegaram ao FBI

Um homem de 25 anos de South Palm Beach, na Flórida, declarou-se culpado em agosto de três acusações criminais após investigadores encontrarem ameaças contra sua ex-namorada em conversas mantidas com o ChatGPT e em mensagens enviadas diretamente à jovem.
Darren Shida Zhou começou a conversar com o chatbot em março de 2026, após o fim de um relacionamento de cerca de seis meses. Segundo registros judiciais consultados pelo Palm Beach Post, as mensagens passaram a incluir ameaças de morte e descrições de violência contra a ex, que tinha 21 anos.
O conteúdo chamou a atenção dos mecanismos de segurança da OpenAI. O caso passou por revisão e foi encaminhado ao FBI. Posteriormente, agentes federais forneceram cerca de dois meses de conversas ao Palm Beach County Sheriff’s Office, que investigou o caso.
A polícia também recebeu da própria jovem registros de contatos feitos por Zhou. Segundo a investigação, ele continuou procurando a ex por ligações, mensagens e números diferentes mesmo depois de ela pedir que interrompesse o contato.
Zhou foi preso em maio e passou dois dias na cadeia antes de pagar fiança de US$ 100 mil. Em agosto, declarou-se culpado de perseguição agravada com ameaça crível, ameaça escrita de matar ou causar lesão corporal e uso de dispositivo de comunicação para facilitar um crime.
O acordo evitou uma pena de prisão. Reportagens baseadas nos registros do processo informam que ele recebeu probation, modalidade de supervisão judicial cumprida fora da prisão, além de restrições que incluem monitoramento eletrônico, proibição de contato com a ex e limitações relacionadas a armas, álcool e drogas. Há divergência entre veículos sobre a duração exata da probation, ponto que exige conferência no registro judicial antes da publicação definitiva.
O ChatGPT chamou a polícia?
Não exatamente.
O episódio não significa que o ChatGPT tenha decidido, de forma autônoma, denunciar Zhou. A OpenAI afirma que utiliza sistemas para identificar possíveis violações envolvendo violência e que determinados casos podem ser enviados para uma análise humana mais aprofundada.
Segundo a empresa, a maioria das medidas fica restrita à relação entre a plataforma e o usuário, incluindo suspensão ou encerramento de contas. Casos que apresentam sinais de possível dano grave no mundo real, porém, podem receber uma avaliação adicional de risco.
Quando a empresa conclui que existe ameaça iminente e crível de dano físico grave contra terceiros, suas políticas permitem o encaminhamento do caso às autoridades.
Essa distinção é importante. Uma mensagem problemática não significa automaticamente que a polícia receberá aquela conversa. Existe uma etapa de identificação, avaliação e, em determinados casos, revisão humana.
Conversas com inteligência artificial são privadas?
O caso da Flórida expõe um limite que usuários precisam conhecer. Conversas com uma plataforma de inteligência artificial não devem ser tratadas como se fossem protegidas pelo mesmo tipo de sigilo existente em determinadas relações profissionais, como entre advogado e cliente.
Nos Estados Unidos, empresas de tecnologia também podem receber solicitações legais de dados ou fazer divulgações emergenciais em circunstâncias específicas envolvendo risco de morte ou lesão física grave.
Para brasileiros que vivem no país, a principal conclusão prática é simples: uma conversa digital não está necessariamente isolada do sistema de segurança e Justiça americano.
Isso não significa que autoridades tenham acesso irrestrito às conversas de todos os usuários. Significa que plataformas podem possuir mecanismos próprios de segurança e procedimentos para responder a ameaças graves ou solicitações governamentais previstas em lei.
No caso de Zhou, as mensagens ao chatbot não foram o único elemento analisado. Investigadores também tiveram acesso às comunicações que a ex-namorada disse ter recebido diretamente dele. O processo criminal foi construído a partir do conjunto dessas evidências.
Jacy Abreu
Redatora do portal Vou Para América, com cerca de 30 anos de experiência na área de Comunicação. Ao longo da carreira, atuou em grandes empresas de mídia como América Online e Editora Abril. Possui ampla experiência em produção de conteúdo jornalístico e institucional, coordenação de projetos de comunicação e planejamento editorial. É fundadora da Lumepress Comunicação, agência de assessoria de imprensa.
Fontes e Créditos
A apuração utilizou reportagem original de Hannah Phillips, do Palm Beach Post, republicada pela rede USA Today, cobertura da WPBF 25, documentos e informações judiciais descritos pelas reportagens e a política oficial de segurança da OpenAI.
Transparência Editorial
O Vou pra América não teve acesso direto, até o fechamento desta versão, à íntegra do processo judicial. O Palm Beach Post e veículos que reproduziram sua apuração informam oito anos de probation. A WPBF informa cinco anos. Por existir divergência em um dado judicial relevante, a duração exata da medida deve ser confirmada no registro oficial antes da publicação definitiva. Nenhuma ameaça reproduzida por terceiros foi apresentada neste texto como constatação independente do portal.