Governo Trump retira conteúdos sobre diversidade da formação de diplomatas dos EUA

O Departamento de Estado dos Estados Unidos anunciou em 13 de agosto que eliminou conteúdos classificados como diversidade, equidade e inclusão, conhecidos pela sigla DEI, dos programas de formação do Foreign Service, responsável pela carreira diplomática americana.
A revisão atingiu materiais usados na preparação de diplomatas no Foreign Service Institute. Segundo o próprio departamento, havia treinamentos sobre privilégio branco, racismo sistêmico, Black Lives Matter, microagressões e uso de pronomes não binários. Também existiam exercícios em cursos de idiomas que incorporavam discussões sobre raça e diversidade.
O governo informou ainda que um dia e meio do curso de orientação de cinco semanas do Foreign Service havia sido destinado a conteúdos de DEI. No curso de fundamentos de diplomacia pública, com duração de cinco dias, um dia era dedicado ao tema.
Por que o governo retirou esses conteúdos
A decisão segue uma diretriz assinada por Donald Trump em março de 2025. O memorando determinou que recrutamento, contratação, promoção e permanência no Foreign Service não fossem baseados em raça, cor, religião, sexo ou origem nacional. Também ordenou a retirada de referências a diversidade, equidade, inclusão e acessibilidade dos critérios usados para promoção na carreira.
A justificativa da administração é que o mérito individual deve orientar as decisões profissionais e que programas classificados pelo governo como ideológicos desviavam a instituição de suas funções diplomáticas. Essa é a posição oficial da Casa Branca e do Departamento de Estado.
A discussão sobre representatividade no corpo diplomático americano, porém, é muito anterior ao governo de Joe Biden.
O Foreign Service Act de 1980 estabeleceu a busca por uma carreira diplomática mais representativa da população americana. Dados históricos do próprio Departamento de Estado mostram que, entre 1980 e 1990, a participação das mulheres no Foreign Service dobrou e chegou a quase 25%. A participação de minorias chegou a 12,5%.
Qual é o risco apontado por críticos da mudança
Eliminar políticas de preferência na contratação é uma discussão diferente de retirar da formação conteúdos sobre raça, gênero e diferenças culturais.
É neste segundo ponto que aparece a principal controvérsia.
Diplomatas americanos trabalham em países com conflitos étnicos, religiosos, raciais e sociais. Conhecer esses temas não determina qual posição o profissional deverá adotar. Esse conhecimento pode fazer parte do repertório necessário para interpretar sociedades, governos e grupos com os quais os Estados Unidos mantêm relações.
A American Foreign Service Association, entidade profissional que representa integrantes da carreira, já manifestou preocupação com mudanças mais amplas promovidas pelo Departamento de Estado nos processos de seleção e treinamento. Em abril de 2026, a associação afirmou que reformas na formação levantavam questões sobre a preparação profissional do corpo diplomático.
Isso não permite afirmar, neste momento, que a retirada dos conteúdos produzirá diplomatas menos preparados. Não há evidência publicada que demonstre esse resultado. O que existe é uma mudança concreta no repertório oferecido durante a formação e uma discussão sobre quais conhecimentos devem fazer parte da preparação de quem representa os Estados Unidos no exterior.
O que muda para brasileiros que procuram consulados americanos
Até a publicação desta matéria, a decisão não alterou automaticamente regras para concessão de vistos nem estabeleceu novos critérios para entrevistas consulares.
O memorando de Trump trata principalmente de contratação, promoção, retenção e orientação institucional do Foreign Service. O anúncio de agosto detalha mudanças no treinamento. Os documentos divulgados não estabelecem uma nova regra específica para brasileiros, imigrantes, pessoas negras ou integrantes da comunidade LGBTQIA+ que solicitem vistos.
Para quem pretende solicitar um visto americano, portanto, a mudança deve ser entendida pelo que ela é hoje: uma alteração na formação e na política interna da diplomacia dos Estados Unidos, não uma nova regra consular.
Jacy Abreu
Redatora do portal Vou Para América, com cerca de 30 anos de experiência na área de Comunicação. Ao longo da carreira, atuou em grandes empresas de mídia como América Online e Editora Abril. Possui ampla experiência em produção de conteúdo jornalístico e institucional, coordenação de projetos de comunicação e planejamento editorial. É fundadora da Lumepress Comunicação, agência de assessoria de imprensa.
Fontes e Créditos
A apuração utilizou o Departamento de Estado dos Estados Unidos, o memorando presidencial de 19 de março de 2025, registros históricos do Office of the Historian do Departamento de Estado e manifestações públicas da American Foreign Service Association.
Transparência Editorial
Esta matéria diferencia as justificativas apresentadas pelo governo Trump das possíveis consequências debatidas por representantes e observadores da carreira diplomática. Não foram encontrados, até 15 de agosto de 2026, dados que permitam afirmar que a mudança já provocou prejuízo mensurável à atuação diplomática ou alteração específica nas regras de vistos.