Governo Trump leva programa a cidades brasileiras para atrair empresas aos EUA em meio a novas tarifas

O governo dos Estados Unidos passou a percorrer cidades brasileiras para convencer empresas a abrir ou ampliar operações em território americano. Os encontros fazem parte do SelectUSA, programa do Departamento de Comércio voltado à atração de investimento estrangeiro e à geração de empregos nos EUA.
A programação do SelectUSA Every Day prevê eventos em cidades como Goiânia, Uberlândia, Uberaba, Ribeirão Preto, São Carlos, Londrina, São José dos Campos, Fortaleza e Recife. As atividades reúnem representantes do governo americano, entidades empresariais e especialistas em internacionalização.
O movimento ocorre em um período de maior pressão comercial sobre o Brasil. O governo de Donald Trump manteve tarifas específicas sobre produtos importados e abriu uma nova etapa de investigação comercial contra práticas brasileiras. A Casa Branca também adotou tarifas setoriais, como as aplicadas a determinados produtos feitos de aço, alumínio e cobre.
A coincidência não significa que o circuito do SelectUSA tenha sido criado como resposta às tarifas. O programa existe desde 2011. O Departamento de Comércio afirma que a iniciativa já facilitou mais de US$ 400 bilhões em investimentos e apoiou mais de 270 mil empregos nos Estados Unidos.
Por que os EUA querem empresas produzindo dentro do país
A política econômica do governo Trump combina proteção à indústria nacional e atração de fábricas, centros de distribuição e outras operações produtivas. A lógica é aumentar o custo de determinados produtos importados e, ao mesmo tempo, estimular empresas estrangeiras a produzir no mercado americano.
O SelectUSA atua como porta de entrada institucional. O programa aproxima investidores de governos estaduais, autoridades locais e agências de desenvolvimento econômico. Essas entidades apresentam informações sobre mão de obra, infraestrutura, imóveis, fornecedores e possíveis incentivos.
O programa, porém, não paga automaticamente pela instalação de uma empresa. Também não garante financiamento, benefício fiscal ou aprovação de um projeto. Incentivos econômicos costumam ser negociados com estados, condados e municípios e dependem do volume de investimento, do número de empregos previstos e do setor da companhia.
Exportar ou produzir nos Estados Unidos
Para empresas brasileiras atingidas por tarifas, abrir uma operação nos EUA pode reduzir a dependência de produtos enviados diretamente do Brasil. A decisão exige uma conta mais ampla.
Uma fábrica ou unidade de montagem dentro do país pode escapar da tarifa incidente sobre o produto final importado. Mas a empresa passa a pagar salários americanos, seguro, aluguel industrial, licenças, impostos estaduais, custos trabalhistas e despesas jurídicas.
A origem das matérias-primas também importa. Uma empresa que monta o produto nos Estados Unidos, mas continua importando componentes tarifados, ainda poderá enfrentar custos alfandegários.
A análise precisa comparar pelo menos três caminhos: continuar exportando do Brasil, contratar um fabricante americano ou instalar uma estrutura própria nos EUA. Não existe uma resposta única para todos os setores.
Abrir uma empresa não concede visto
O empresário também precisa separar o projeto comercial do processo migratório. Estrangeiros podem ser proprietários de empresas americanas, mas a abertura de uma LLC ou de outra sociedade não concede residência, visto nem autorização para trabalhar nos Estados Unidos.
Uma companhia pode ser criada sem que o proprietário more no país. O problema surge quando ele pretende administrar pessoalmente a operação, receber salário ou exercer atividades diárias dentro dos EUA. Nessa situação, é necessário avaliar uma categoria migratória compatível.
O SelectUSA não aprova vistos e não substitui a análise de um advogado de imigração. Também não representa garantia de enquadramento em categorias voltadas a investidores, executivos ou profissionais transferidos entre empresas.
O que o empresário deve verificar antes do evento
A participação nos encontros pode ser útil para empresas com produto validado, capacidade de investimento e plano de expansão. Antes de escolher um estado, o empresário deve calcular o custo total da operação e verificar onde estão clientes, fornecedores, trabalhadores e rotas logísticas.
A carga tributária também muda conforme a estrutura escolhida. Uma subsidiária americana, uma filial da empresa brasileira e uma sociedade formada nos EUA podem produzir obrigações diferentes nos dois países.
O empresário precisa avaliar ainda licenças locais, seguro de responsabilidade civil, regras trabalhistas, contratos, proteção de marca e tributação sobre lucros enviados ao Brasil. Essa análise deve ocorrer antes da assinatura de aluguel, compra de equipamentos ou contratação de funcionários.
O que muda para brasileiros que já vivem nos EUA
A chegada de empresas brasileiras também pode abrir mercado para profissionais e prestadores de serviços da comunidade. Contadores, advogados, corretores comerciais, empresas de logística, recrutadores, seguradoras e consultores podem participar da estruturação dessas operações.
Esse potencial não equivale a contratos garantidos. O SelectUSA aproxima investidores de mercados e autoridades, mas cada empresa decide onde investir, quanto aplicar e quais fornecedores contratar.
Para o brasileiro que pretende internacionalizar um negócio, o principal valor do programa está no acesso a informações oficiais e contatos locais. A decisão final precisa considerar custos, tributação, imigração e viabilidade comercial. Uma tarifa pode tornar a produção americana mais atraente, mas não transforma automaticamente uma expansão internacional em bom negócio.
Jacy Abreu
Redatora do portal Vou Para América, com cerca de 30 anos de experiência na área de Comunicação. Ao longo da carreira, atuou em grandes empresas de mídia como América Online e Editora Abril. Possui ampla experiência em produção de conteúdo jornalístico e institucional, coordenação de projetos de comunicação e planejamento editorial. É fundadora da Lumepress Comunicação, agência de assessoria de imprensa.
Fontes e Créditos
A apuração utilizou informações do SelectUSA e da Administração de Comércio Internacional dos Estados Unidos, da Casa Branca, do Escritório do Representante de Comércio dos EUA e de entidades empresariais responsáveis pela divulgação de etapas do programa no Brasil. O insumo inicial foi publicado pelo g1 em 8 de julho de 2026.
Transparência Editorial
O Vou pra América não confirmou uma tarifa adicional geral de 25% sobre todos os produtos brasileiros. O texto foi ajustado porque as medidas vigentes variam conforme o produto e o fundamento legal. A matéria também não estabelece relação causal entre as tarifas e a realização do SelectUSA Every Day, já que o programa foi criado antes do atual governo.