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A comunidade brasileira nos Estados Unidos tem enfrentado um aumento consistente de golpes migratórios, especialmente aqueles divulgados em redes sociais e aplicativos de mensagens. O padrão se repete: anúncios ou contatos diretos prometendo regularização rápida, processos “garantidos” ou supostos programas especiais de imigração que não existem na legislação americana.
Dados da Federal Trade Commission mostram que denúncias relacionadas a serviços migratórios quase dobraram em um ano. Registros classificados como “immigration services fraud” passaram de pouco mais de 600 relatos em 2023 para cerca de 1.300 em 2024. Embora esses números representem queixas e não decisões judiciais, autoridades usam o volume crescente como indicador claro de tendência.
O fenômeno não é isolado e costuma se intensificar em momentos de maior incerteza migratória. Mudanças de governo, discursos mais rígidos sobre imigração ou boatos de possíveis anistias criam um ambiente de medo e urgência, terreno fértil para golpistas. Brasileiros recém-chegados, com barreira linguística e pouco conhecimento do sistema americano, estão entre os alvos mais frequentes.
Grande parte desses golpes ocorre fora de canais formais. Perfis no Instagram, Facebook e WhatsApp se apresentam como “especialistas em imigração”, “consultores” ou até como advogados, mesmo sem licença válida nos Estados Unidos. Em alguns casos, os golpistas utilizam nomes de escritórios reais ou documentos oficiais para criar aparência de legitimidade. O resultado é que muitas vítimas só percebem a fraude quando o dinheiro já foi pago ou quando recebem notificações negativas de órgãos federais.
Autoridades federais alertam que promessas de resultado garantido são um dos principais sinais de irregularidade. O próprio US Citizenship and Immigration Services reforça que nenhum advogado ou representante pode assegurar aprovação de visto, asilo ou green card. Processos migratórios dependem de critérios legais, análise individual e prazos que variam amplamente.
Além do prejuízo financeiro, há riscos legais relevantes. Petições mal preenchidas, informações falsas ou documentos protocolados sem consentimento adequado podem comprometer pedidos futuros e, em casos mais graves, resultar em acusações de fraude migratória. Mesmo quando a pessoa age de boa-fé, a responsabilidade sobre o conteúdo enviado às autoridades é do solicitante.
Há também um problema estrutural de informação. Muitos brasileiros buscam orientação quase exclusivamente em redes sociais, onde conteúdos virais têm mais alcance do que informações oficiais. Isso dificulta a distinção entre profissionais habilitados e intermediários ilegais, conhecidos nos Estados Unidos como “notarios” ou “consultores”, que não têm autorização para oferecer serviços jurídicos de imigração.
Do ponto de vista legal, apenas dois tipos de profissionais podem representar alguém em processos migratórios. Advogados licenciados em algum estado americano e representantes credenciados por organizações reconhecidas pelo Executive Office for Immigration Review. Qualquer outra pessoa que cobre por esse tipo de serviço atua fora da lei.
De acordo com Dr. Vinícius Bicalho, advogado licenciado nos EUA: "O aumento dos golpes migratórios contra brasileiros nos Estados Unidos não é coincidência. Sempre que há incerteza no cenário migratório, seja por mudança de governo, endurecimento do discurso político ou rumores de anistia, surge um ambiente de medo e urgência que é explorado por golpistas.
Muitos desses esquemas se apresentam como soluções rápidas ou ‘garantidas’, algo que simplesmente não existe no sistema migratório americano. Nenhum visto, asilo ou green card pode ser prometido com aprovação certa.
O problema vai além da perda financeira. Um pedido mal feito, com informações falsas ou protocolado por alguém sem autorização legal, pode comprometer seriamente o histórico migratório da pessoa e gerar consequências legais graves no futuro.”
Para quem já foi vítima ou suspeita de fraude, existem canais oficiais de denúncia. O USCIS recebe relatos de golpes migratórios e encaminha casos para investigação. A FTC coleta denúncias de consumidores, ajudando a mapear esquemas recorrentes. Em situações que envolvem possível crime federal, o Federal Bureau of Investigation também pode ser acionado. Quando o problema envolve má conduta profissional, há ainda os conselhos estaduais de advocacia e o próprio EOIR.
Para brasileiros que pretendem imigrar para os Estados Unidos, o crescimento desses golpes serve de alerta ainda antes da mudança. Verificar credenciais, desconfiar de promessas rápidas e exigir contratos claros são medidas básicas de proteção. O sistema migratório americano é complexo e, em geral, lento. Qualquer proposta que ignore essa realidade merece atenção redobrada.
Especialistas em imigração destacam que informação confiável é hoje uma das principais formas de proteção do imigrante. Entender quem pode prestar serviços legais, como funcionam os processos e onde buscar ajuda oficial reduz drasticamente o risco de cair em fraudes que exploram medo, urgência e desinformação.
Federal Trade Commission, Consumer Sentinel Network US Citizenship and Immigration Services Executive Office for Immigration Review Federal Bureau of Investigation Documentação pública de agências federais dos EUA
A matéria foi produzida com base em dados oficiais de agências federais americanas e alertas institucionais, sem indicação de serviços ou profissionais específicos.
Redatora do portal Vou Para América, com cerca de 30 anos de experiência na área de Comunicação. Ao longo da carreira, atuou em grandes empresas de mídia como América Online e Editora Abril. Possui ampla experiência em produção de conteúdo jornalístico e institucional, coordenação de projetos de comunicação e planejamento editorial. É fundadora da Lumepress Comunicação, agência de assessoria de imprensa.