FMI diz que dólar segue no centro da economia global mesmo após tarifas de Trump

Jacy Abreu7 de julho de 2026Economia
FMI diz que dólar segue no centro da economia global mesmo após tarifas de Trump

O economista-chefe do FMI, Pierre-Olivier Gourinchas, disse que a economia global continua centrada no dólar, mesmo após as tarifas unilaterais impostas pelo presidente Donald Trump mudarem parte dos fluxos comerciais no mundo.

A declaração foi feita à Reuters em entrevista publicada em 26 de junho de 2026. Gourinchas afirmou que há poucos sinais concretos de afastamento do dólar no comércio internacional, no sistema bancário e nas reservas mantidas por bancos centrais.

Para brasileiros que vivem nos Estados Unidos, a fala do FMI tem efeito prático. O dólar segue sendo a moeda que define o valor das remessas ao Brasil, o custo de importados, a formação de reserva financeira, o financiamento imobiliário, o aluguel e parte relevante do planejamento de quem mantém renda, família ou patrimônio nos dois países.

Por que o FMI ainda vê um mundo centrado no dólar

Gourinchas disse à Reuters que os movimentos observados na última década ainda são pequenos demais para indicar uma substituição real da moeda americana. Segundo ele, o mundo segue “firmemente” inserido em uma estrutura centrada no dólar.

Os dados do próprio FMI ajudam a explicar a avaliação. No quarto trimestre de 2025, o dólar representava 56,77% das reservas internacionais alocadas, segundo a base COFER, que mede a composição das reservas cambiais oficiais dos países. O euro vinha em segundo lugar, com 20,25%. O renminbi chinês aparecia com 1,95%.

Reserva internacional é o conjunto de moedas e ativos que bancos centrais mantêm para proteger a economia, pagar compromissos externos e intervir no câmbio quando necessário. Quanto maior a fatia de uma moeda nessas reservas, maior tende a ser sua influência no sistema financeiro global.

O Federal Reserve, banco central dos Estados Unidos, também tratou o papel internacional do dólar como tema de uma conferência em Washington nos dias 22 e 23 de junho de 2026. A programação incluiu debates sobre pagamentos, câmbio, stablecoins e infraestrutura financeira baseada em blockchain.

O que ouro e stablecoins mostram

A entrevista também tratou da alta do ouro. Gourinchas atribuiu parte do movimento ao crescimento dos ETFs, fundos negociados em bolsa que permitem exposição ao metal sem que o investidor precise comprar ouro físico. Ele também citou emissores de stablecoins que mantêm ouro entre seus ativos.

Stablecoins são criptoativos criados para manter paridade com outro ativo, geralmente o dólar. Na prática, prometem funcionar como uma versão digital de uma moeda estável, embora continuem sujeitas a riscos de regulação, liquidez, custódia e confiança no emissor.

O crescimento desses instrumentos mostra que investidores e empresas buscam alternativas para guardar valor, fazer pagamentos ou reduzir custos de transferência. Mas a leitura do FMI é outra: esses movimentos ainda não deslocaram o dólar do centro do sistema.

Isso importa porque parte da comunidade brasileira nos EUA acompanha ouro, criptomoedas e stablecoins como possível proteção contra câmbio, inflação ou instabilidade política. A notícia não autoriza concluir que esses ativos substituem uma reserva em dólar. Ela mostra que, mesmo com alternativas crescendo, a moeda americana segue como referência dominante.

Como isso afeta remessas para o Brasil

A cotação do dólar continua sendo decisiva para quem manda dinheiro ao Brasil. Em 2 de julho de 2026, a taxa média de compra do dólar comercial informada pelo Ipeadata era de R$ 5,1939. No fechamento de 1º de julho, o Banco Central registrou taxa de venda de R$ 5,1950.

Na prática, uma diferença de poucos centavos muda o valor recebido pela família no Brasil quando a remessa é maior. Em uma transferência de US$ 2 mil, por exemplo, cada variação de R$ 0,10 no câmbio representa R$ 200 antes de taxas e impostos.

O custo da operação também pesa. Relatório do Banco Mundial sobre preços de remessas mostrou que, no terceiro trimestre de 2025, o Brasil era o país mais caro do G20 para enviar US$ 500, com custo médio de 11,45%.

Esse dado é central para o brasileiro nos EUA. Não basta acompanhar se o dólar subiu ou caiu. A escolha do serviço de transferência, o spread cambial, as tarifas fixas, o prazo de entrega e a forma de recebimento no Brasil podem reduzir o valor final que chega à conta da família.

O que o brasileiro nos EUA deve fazer agora

A primeira medida é separar planejamento financeiro de aposta. Quem vive nos Estados Unidos, paga contas em dólar e envia dinheiro ao Brasil precisa ter reserva de emergência na moeda em que gasta. Para a maioria dos imigrantes, isso significa manter parte relevante da proteção financeira em dólar, não em ativos voláteis ou de difícil resgate.

A segunda é comparar remessas pelo valor líquido recebido no Brasil, não apenas pela propaganda de “taxa zero”. Muitas empresas eliminam a tarifa visível, mas embutem custo no câmbio. O número que importa é quanto cai na conta em reais depois de todas as cobranças.

A terceira é evitar converter toda a renda em um único momento. Para quem envia valores recorrentes, dividir transferências ao longo do mês pode reduzir o risco de pegar uma cotação ruim em um só dia. Isso não elimina perdas, mas diminui a dependência de uma única taxa.

A quarta é tratar stablecoins e ouro como ativos com risco próprio. Eles podem fazer parte de estratégias de investimento, mas exigem entendimento de custódia, liquidez, tributação, regulação e possibilidade de perda. Para despesas de aluguel, documentação, escola, advogado, imposto ou emergência médica, liquidez e previsibilidade valem mais que promessa de ganho.

O recado do FMI não é que o dólar não muda de preço. Ele muda todos os dias. O ponto é que, até agora, a moeda americana continua organizando a vida financeira global. Para o brasileiro nos EUA, ignorar isso custa caro.

Jacy Abreu

Jacy Abreu

Redatora do portal Vou Para América, com cerca de 30 anos de experiência na área de Comunicação. Ao longo da carreira, atuou em grandes empresas de mídia como América Online e Editora Abril. Possui ampla experiência em produção de conteúdo jornalístico e institucional, coordenação de projetos de comunicação e planejamento editorial. É fundadora da Lumepress Comunicação, agência de assessoria de imprensa.

Fontes e Créditos

Esta matéria foi produzida com base em entrevista de Pierre-Olivier Gourinchas à Reuters, em dados do FMI sobre reservas internacionais, em informações do Federal Reserve sobre o papel internacional do dólar, em cotações do Banco Central do Brasil e do Ipeadata, e em relatório do Banco Mundial sobre custos de remessas.

Transparência Editorial

O Vou pra América não recomenda compra ou venda de dólar, ouro, criptomoedas, stablecoins ou qualquer ativo financeiro. A matéria tem caráter jornalístico e de serviço. Dados de câmbio mudam ao longo do dia. Antes de enviar dinheiro, investir ou contratar produtos financeiros, o leitor deve comparar custos reais e buscar orientação profissional quando necessário.

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