Famílias criam planos de emergência para proteger filhos em caso de detenção pelo ICE

Jacy Abreu24 de julho de 2026Imigração
Famílias criam planos de emergência para proteger filhos em caso de detenção pelo ICE

Famílias imigrantes nos Estados Unidos estão preparando planos de emergência para evitar que crianças fiquem sem cuidador caso um dos pais seja detido pelo Serviço de Imigração e Alfândega, o ICE. A estratégia inclui reunir documentos, memorizar contatos e definir quem poderá buscar os filhos na escola.

Por que as famílias começaram a se preparar

O planejamento ganhou urgência com a expansão das detenções migratórias durante o segundo governo de Donald Trump. Uma análise publicada pelo The Marshall Project em junho de 2026 identificou pelo menos 500 bebês e crianças de até 3 anos que passaram pela custódia do ICE. Em um dia comum, a agência mantinha aproximadamente 25 crianças dessa faixa etária detidas. (The Marshall Project)

O número não representa 500 crianças detidas ao mesmo tempo. Ele corresponde ao total de bebês e crianças pequenas que passaram pelo sistema durante o período analisado.

Outra apuração do mesmo veículo contabilizou mais de 6.200 menores de 18 anos detidos desde o início do segundo mandato de Trump. Os dados vieram de registros do ICE obtidos pelo Deportation Data Project. (The Marshall Project)

A possibilidade de separação cria um problema imediato. Uma criança pode permanecer na escola, precisar de medicamentos ou ficar sem um adulto autorizado para tomar decisões médicas enquanto a família tenta descobrir onde o responsável foi levado.

O que deve entrar no plano familiar

O Immigrant Legal Resource Center, organização especializada em direitos de imigrantes, recomenda que a família escolha previamente um adulto de confiança para cuidar das crianças em uma emergência. A escola também deve saber quais pessoas estão autorizadas a buscar o aluno. (Immigrant Legal Resource Center)

Os pais precisam deixar acessíveis cópias de certidões de nascimento, passaportes, registros escolares, informações médicas, dados do seguro de saúde e documentos migratórios. Também devem registrar o A-Number, número utilizado pelo governo para identificar processos e registros migratórios, quando houver. (Family Preparedness Plan)

Esses documentos não devem ficar junto com senhas bancárias ou códigos de acesso sem proteção. O ideal é manter cópias físicas em local seguro e arquivos digitais protegidos, com acesso restrito a uma pessoa de confiança.

Crianças maiores podem memorizar o telefone de um responsável, advogado ou amigo próximo. Para as menores, a família pode colocar os contatos de emergência na mochila, sem incluir informações financeiras ou dados que aumentem o risco de fraude.

Quem poderá cuidar dos filhos

Escolher informalmente um parente ou amigo pode não ser suficiente para autorizar consultas médicas, matrícula escolar ou outras decisões. Dependendo do estado, a família poderá precisar de uma autorização de cuidador, procuração específica, declaração juramentada ou instrumento temporário de guarda.

As regras não são iguais em todo o país. Um documento válido na Califórnia pode ter nome, requisitos e efeitos diferentes na Flórida, em Massachusetts, no Texas ou em Nova Jersey.

Por isso, pais com filhos menores devem consultar um advogado de direito de família no estado onde vivem. A orientação migratória também deve ser feita por advogado habilitado ou representante credenciado pelo Departamento de Justiça. O governo federal mantém listas de organizações reconhecidas, representantes credenciados e prestadores de serviços gratuitos ou de baixo custo. (Departamento de Justiça)

O que fazer se agentes aparecerem na residência

A American Civil Liberties Union orienta que moradores não precisam abrir a porta apenas porque agentes de imigração se identificaram do lado de fora. A organização recomenda pedir que qualquer mandado seja mostrado pela janela ou passado por baixo da porta. (ACLU)

A família deve verificar se o documento foi assinado por um juiz, se contém o endereço correto e se identifica a pessoa ou o local que será revistado. Um mandado administrativo emitido por uma agência migratória não equivale automaticamente a um mandado judicial.

Essa orientação não autoriza resistência física, confronto ou interferência no trabalho dos agentes. Cada situação pode envolver circunstâncias específicas. Quem estiver diante de uma operação deve evitar declarações falsas, não assinar documentos que não compreenda e procurar assistência jurídica.

As crianças podem ser orientadas a não abrir a porta para desconhecidos e a chamar um adulto responsável. A conversa precisa ser adequada à idade e não deve colocar sobre elas a responsabilidade de enfrentar agentes.

Como localizar uma pessoa detida

Caso um familiar seja levado, o primeiro passo é reunir o nome completo, a data e o país de nascimento e, quando disponível, o A-Number.

O ICE mantém o Online Detainee Locator System, ferramenta pública usada para localizar pessoas que estão sob custódia da agência ou que permaneceram por mais de 48 horas sob custódia da Alfândega e Proteção de Fronteiras. (Localizador do ICE)

A ausência do nome no sistema não confirma que a pessoa foi liberada. Transferências e atualizações podem levar algum tempo. A família deve registrar a hora, o local e as circunstâncias da detenção e entregar essas informações ao advogado.

Gestantes também precisam de orientação jurídica

Uma diretiva do ICE determina que a agência, em regra, não mantenha detidas pessoas grávidas, no período de até um ano após o parto ou que estejam amamentando. A política prevê exceções quando a liberação é proibida por lei ou quando a agência identifica circunstâncias excepcionais. (ICE)

Isso não representa imunidade absoluta contra abordagem, prisão ou custódia. Gestantes e mães no período pós-parto devem manter registros médicos acessíveis e informar imediatamente sua condição a agentes, profissionais de saúde e ao advogado.

O que o brasileiro deve fazer agora

Famílias brasileiras não precisam esperar uma operação para organizar o plano. A primeira providência é definir quem cuidará dos filhos e confirmar se essa pessoa está autorizada pela escola e pelos médicos.

O segundo passo é reunir documentos, registrar o A-Number e manter contatos jurídicos atualizados. O terceiro é revisar, com profissionais habilitados, se existe algum processo pendente, ordem de remoção antiga, mudança de endereço não comunicada ou possibilidade legítima de regularização.

Ter um filho cidadão americano não impede automaticamente a detenção ou remoção dos pais. Também não concede residência imediata. Cada caso depende do histórico migratório, da idade dos familiares, das formas de elegibilidade e de possíveis impedimentos legais.

O plano não elimina o risco de uma detenção. Ele reduz a chance de que uma criança fique sem cuidador, remédio, documento ou informação durante as primeiras horas de uma emergência.

Jacy Abreu

Jacy Abreu

Redatora do portal Vou Para América, com cerca de 30 anos de experiência na área de Comunicação. Ao longo da carreira, atuou em grandes empresas de mídia como América Online e Editora Abril. Possui ampla experiência em produção de conteúdo jornalístico e institucional, coordenação de projetos de comunicação e planejamento editorial. É fundadora da Lumepress Comunicação, agência de assessoria de imprensa.

Fontes e Créditos

Esta matéria foi produzida a partir de reportagem publicada pela CNN em Espanhol, com informações da jornalista Susana Erazo, e complementada por dados e orientações do The Marshall Project, Immigration and Customs Enforcement, Departamento de Segurança Interna, Departamento de Justiça, American Civil Liberties Union e Immigrant Legal Resource Center.

Transparência Editorial

O Vou pra América reescreveu integralmente o insumo original e verificou separadamente os principais dados e orientações citados. A matéria apresenta informações gerais e não substitui aconselhamento jurídico. Instrumentos de guarda, procurações e autorizações para cuidado de menores variam conforme o estado e devem ser revisados por profissionais habilitados.

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