EUA podem perder 111 mil estudantes estrangeiros após novas restrições de visto

Os Estados Unidos podem ter até 111 mil estudantes internacionais a menos em universidades e faculdades no outono de 2026, segundo projeção divulgada pela NAFSA, associação de educadores internacionais, em parceria com a JB International. A redução representaria até US$ 3,4 bilhões em perdas para a economia americana.
O levantamento, publicado em 11 de agosto, ainda não representa o número definitivo de matrículas. Trata-se de uma análise preliminar construída a partir de respostas de instituições de ensino e outras bases do setor. Os números consolidados só poderão ser comparados depois que dados mais completos sobre o semestre forem divulgados.
No cenário mais negativo calculado pelos pesquisadores, o número de estudantes internacionais cairia de uma projeção de 1,168 milhão no ano acadêmico de 2025/26 para cerca de 1,057 milhão em 2026/27. Um cenário intermediário aponta aproximadamente 1,105 milhão.
A perda estimada de US$ 3,4 bilhões não deve ser interpretada apenas como dinheiro retirado diretamente dos caixas das universidades. A análise mede a contribuição econômica associada aos estudantes matriculados, que inclui gastos relacionados à permanência deles nos Estados Unidos. O estudo calcula também quase 40 mil empregos a menos vinculados a essa atividade econômica.
Por que os Estados Unidos podem receber menos estudantes
A NAFSA atribui a projeção a uma combinação de redução das candidaturas, dificuldade para conseguir entrevistas e processar vistos e mudanças na política migratória. Aplicações internacionais para programas de doutorado caíram 21%, enquanto os pedidos enviados por estudantes estrangeiros pelo Common App recuaram 9% para o ciclo de 2026/27.
Quase dois terços das instituições que responderam a uma pesquisa do Institute of International Education disseram esperar nova redução na quantidade de estudantes internacionais em 2026/27. Em alguns programas de pós graduação, a previsão de queda chega a 40%.
O relatório também cita restrições de entrada para cidadãos de determinados países e dificuldades de agendamento consular. Essas proibições não atingem estudantes brasileiros simplesmente por terem nacionalidade brasileira. O impacto para quem solicita o visto no Brasil está principalmente nas regras gerais aplicadas aos vistos de estudante e intercâmbio.
Brasileiros também entram em um sistema mais rigoroso
O Brasil enviou 17.277 estudantes para instituições de ensino superior americanas no ano acadêmico de 2024/25, aumento de 2,4% sobre o período anterior, segundo o Open Doors 2025. O país respondeu por 1,5% do total de estudantes internacionais contabilizados pelo levantamento.
Para quem pretende seguir esse caminho agora, uma das mudanças já existentes está na análise de presença online feita durante o processo de visto.
O Departamento de Estado informa que candidatos aos vistos F, destinados principalmente a estudantes acadêmicos, M, voltados à educação vocacional, e J, usados em programas de intercâmbio, estão sujeitos à revisão da presença online. O órgão também orienta esses candidatos a configurar seus perfis em redes sociais como públicos ou abertos para facilitar a análise.
Isso não significa que uma postagem específica provoque automaticamente uma negativa. Significa que a presença digital passou a integrar formalmente as informações que podem ser examinadas no processo consular. O solicitante continua responsável por demonstrar que atende aos requisitos da categoria de visto solicitada.
Outra mudança começa em setembro
Uma alteração maior entra em vigor em 15 de setembro de 2026. O Departamento de Segurança Interna publicou uma regra final que substitui, para estudantes com status F, o modelo tradicional conhecido como duration of status por um período determinado de admissão.
Até a entrada em vigor da nova regra, estudantes F continuam sendo admitidos pelo período vinculado ao cumprimento das condições do status. Depois da mudança, a admissão passa a ter uma data determinada e, em determinadas situações, o estudante poderá precisar solicitar extensão para permanecer legalmente além do período autorizado. A regra estabelece período de admissão de até quatro anos.
Para brasileiros matriculados em cursos mais longos, esse ponto merece atenção especial. A duração do programa, a data registrada nos documentos migratórios e eventual necessidade de extensão passam a exigir acompanhamento mais cuidadoso.
Quem já estuda nos Estados Unidos ou pretende iniciar um curso não deve presumir que a validade do visto estampado no passaporte determina, sozinha, até quando pode permanecer no país. São questões migratórias diferentes, e a regra aplicável dependerá da situação individual e da data de entrada.
OPT não foi extinto
O relatório da NAFSA também cita incertezas envolvendo o Optional Practical Training, conhecido como OPT. O programa permite que determinados estudantes com status F-1 trabalhem temporariamente em atividades relacionadas à área de formação.
Até a publicação desta matéria, o relatório não sustenta a afirmação de que o OPT tenha sido eliminado. A entidade afirma que existem indicações de possíveis reformas e defende a preservação do programa. Tratar uma possível mudança futura como cancelamento já efetivado seria incorreto.
O que o brasileiro precisa observar antes de solicitar o visto
A projeção de queda no número de estudantes não significa que os Estados Unidos deixaram de conceder vistos acadêmicos a brasileiros. O que mudou é o ambiente em que essas solicitações são analisadas.
Quem pretende estudar nos EUA precisa verificar com antecedência a categoria correta de visto, conferir se os documentos da instituição estão atualizados, revisar as informações apresentadas no pedido e acompanhar os prazos consulares. Também deve considerar que sua presença pública em redes sociais pode fazer parte da análise.
Para quem inicia ou mantém um programa depois de 15 de setembro, a nova regra sobre período determinado de admissão torna ainda mais importante acompanhar as datas registradas no processo migratório e procurar orientação qualificada quando houver necessidade de extensão ou mudança de status.
O número de 111 mil estudantes a menos ainda é uma projeção. As novas exigências de análise consular e a mudança na duração da permanência, porém, são fatos concretos. Para o brasileiro que planeja uma graduação, pós graduação ou intercâmbio nos Estados Unidos, isso transforma prazo, documentação e acompanhamento do status migratório em parte ainda mais importante do planejamento.
Jacy Abreu
Redatora do portal Vou Para América, com cerca de 30 anos de experiência na área de Comunicação. Ao longo da carreira, atuou em grandes empresas de mídia como América Online e Editora Abril. Possui ampla experiência em produção de conteúdo jornalístico e institucional, coordenação de projetos de comunicação e planejamento editorial. É fundadora da Lumepress Comunicação, agência de assessoria de imprensa.
Fontes e Créditos
Esta matéria foi apurada a partir do relatório Fall 2026 International Student Enrollment Outlook & Economic Impact, produzido pela NAFSA e pela JB International, de informações oficiais do Departamento de Estado e do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos e dos dados do Open Doors 2025, publicado pelo Institute of International Education. O conteúdo recebido como insumo foi utilizado apenas como ponto de partida editorial. A redação, estrutura, contextualização e checagem foram refeitas de forma independente.
Transparência Editorial
Os 111 mil estudantes e os US$ 3,4 bilhões citados nesta matéria são projeções, não resultados definitivos do semestre de 2026. A própria NAFSA informa limitações metodológicas, entre elas taxas diferentes de resposta das instituições e ausência de dados recentes de emissão de vistos como variável de previsão. Os resultados efetivos poderão ficar fora da faixa estimada. Também diferenciamos medidas já em vigor de mudanças futuras. A revisão de presença online para candidatos F, M e J já integra o processo de análise de vistos. A nova regra de período determinado de admissão entra em vigor em 15 de setembro de 2026. Eventuais alterações no OPT não foram tratadas como fato consumado.