Caso “Advogada dos Milagres” vira alerta sobre riscos na contratação de serviços de imigração nos EUA

Alexandra Lozano renunciou à licença para advogar no estado de Washington em 26 de maio de 2026, em meio a um processo disciplinar, e ficou permanentemente impedida de exercer a advocacia naquele estado. Semanas depois, seu escritório fechou e ela também foi suspensa de atuar perante autoridades federais de imigração.
O caso ganhou dimensão nacional depois que antigos clientes foram à Justiça. Uma ação federal apresentada inicialmente por nove pessoas foi ampliada em 21 de julho para 34 autores identificados. Eles acusam Lozano, seu escritório e empresas relacionadas de práticas que incluem negligência profissional, violações de proteção ao consumidor e apresentação de pedidos migratórios que, segundo os autores, continham informações falsas ou não autorizadas.
Lozano nega ter cometido irregularidades. Seu advogado afirmou à Associated Press que os clientes deveriam revisar os pedidos antes de assiná-los e sustentou que a atuação da advogada buscava alternativas legais disponíveis para cada caso. As acusações da ação civil ainda precisam ser julgadas.
Clientes dizem que descobriram informações que não haviam fornecido
Entre as denúncias mais graves estão relatos de clientes que afirmam ter descoberto que pedidos apresentados ao governo continham histórias de violência doméstica ou tráfico humano que eles dizem não ter relatado daquela maneira.
Os benefícios citados nas ações incluem pedidos relacionados à VAWA, legislação que permite que determinadas vítimas de abuso façam solicitações migratórias sem depender do agressor, e ao visto T, destinado a determinadas vítimas de tráfico humano.
A Associated Press relatou o caso de um casal que disse ter pago mais de US$ 32 mil ao escritório e posteriormente descoberto alegações que, segundo os dois, não correspondiam ao que haviam informado. Outros ex clientes disseram que só tomaram conhecimento do conteúdo de determinadas declarações quando seus processos já estavam avançados.
A escala do problema também chamou atenção das autoridades. Segundo a Washington State Bar Association, citada pela AP, a assinatura de Lozano aparecia em mais de 53 mil casos pendentes perante o USCIS. Esse número não significa que 53 mil processos tenham irregularidades. Não há confirmação de quantos casos eventualmente continham informações incorretas ou fraudulentas.
O USCIS publicou em 26 de junho um aviso específico aos antigos clientes de Lozano. A agência informou que ela havia fechado o escritório em 10 de junho e que, em 18 de junho, o Board of Immigration Appeals a suspendeu de atuar perante o Departamento de Segurança Interna, os tribunais de imigração e o próprio conselho.
O alerta vai além de um único escritório
O caso Lozano mostra por que uma promessa de resultado migratório precisa ser examinada antes de qualquer pagamento.
Um advogado pode avaliar possibilidades jurídicas, preparar uma estratégia e representar o cliente. Isso não significa que possa controlar a decisão do USCIS, de um tribunal de imigração ou de outra autoridade federal.
Outro sinal de risco aparece quando o cliente perde o controle sobre o próprio processo. A Federal Trade Commission orienta imigrantes a não assinarem formulários em branco nem documentos que contenham informações falsas. A recomendação ganha peso em processos migratórios porque as declarações apresentadas ao governo podem acompanhar o imigrante durante anos.
Entregar documentos ao escritório e simplesmente esperar o resultado também é uma prática perigosa. O cliente deve saber qual benefício está sendo solicitado, quais fatos sustentam o pedido e quais formulários serão apresentados em seu nome.
Se um profissional pedir uma assinatura em uma página vazia, desencorajar a leitura do processo, evitar entregar cópias ou apresentar uma história diferente daquela relatada pelo cliente, o problema deve ser esclarecido antes do protocolo.
Como verificar quem realmente está cuidando do seu caso
Nos Estados Unidos, a existência de um escritório, publicidade em redes sociais ou milhares de seguidores não substitui a verificação profissional.
Advogados precisam possuir licença válida em algum estado ou território americano para prestar serviços jurídicos dentro dos limites permitidos pelas regras aplicáveis. O Departamento de Justiça também mantém informações sobre profissionais que estão inelegíveis para atuar perante os tribunais de imigração e o Board of Immigration Appeals.
Também existem Accredited Representatives, representantes que não são advogados, mas receberam autorização do Departamento de Justiça e trabalham vinculados a organizações reconhecidas. A extensão da autorização depende do tipo de credenciamento. Consultores de imigração, preparadores de formulários e notarios não recebem automaticamente poder para oferecer aconselhamento jurídico apenas por utilizarem esses títulos.
Antes de contratar, o imigrante pode pesquisar o nome completo do profissional na ordem estadual correspondente e consultar os registros do Departamento de Justiça quando houver atuação perante os tribunais de imigração.
Já contratou alguém e não sabe o que foi enviado ao USCIS?
A primeira providência não deve ser inventar uma explicação nem tentar corrigir sozinho um documento que você não conhece.
O cliente pode solicitar ao antigo representante uma cópia completa do processo. Também é possível pedir os próprios registros migratórios ao USCIS por meio do Freedom of Information Act, conhecido como FOIA. Desde 22 de janeiro de 2026, os pedidos de registros do USCIS pelo FOIA ou Privacy Act devem ser apresentados pelo sistema online da agência.
Esse arquivo pode ajudar um novo advogado a comparar o que o cliente realmente declarou com aquilo que consta nos documentos enviados ao governo.
Encontrar uma informação desconhecida também não significa que a pessoa deva retirar imediatamente o pedido. Cancelar, alterar ou responder a um processo migratório pode produzir consequências diferentes conforme o histórico individual. A decisão deve ser tomada depois de uma revisão independente do caso.
Para os antigos clientes de Lozano, o próprio USCIS criou uma orientação específica e pediu que pessoas com processos pendentes mantenham o endereço atualizado para continuar recebendo comunicações oficiais.
O principal alerta deixado pelo caso é simples: seu nome está no processo, mesmo quando outra pessoa preparou os documentos. Saber o que foi declarado ao governo antes do protocolo não é uma formalidade. Pode determinar o futuro de todo o caso migratório.
Jacy Abreu
Redatora do portal Vou Para América, com cerca de 30 anos de experiência na área de Comunicação. Ao longo da carreira, atuou em grandes empresas de mídia como América Online e Editora Abril. Possui ampla experiência em produção de conteúdo jornalístico e institucional, coordenação de projetos de comunicação e planejamento editorial. É fundadora da Lumepress Comunicação, agência de assessoria de imprensa.
Fontes e Créditos
Esta matéria foi apurada a partir de documentos e orientações da Washington State Bar Association, do U.S. Citizenship and Immigration Services, do Executive Office for Immigration Review do Departamento de Justiça, da Federal Trade Commission, dos registros divulgados pela equipe responsável pela ação civil contra Alexandra Lozano e de reportagem da Associated Press.
Transparência Editorial
As acusações de fraude, falsidade em pedidos migratórios, negligência e outras irregularidades mencionadas nesta reportagem constam de ações judiciais, processos disciplinares ou depoimentos atribuídos às respectivas fontes. Alexandra Lozano nega irregularidades, e as acusações da ação civil não são apresentadas nesta matéria como condenações judiciais. A informação disponível foi verificada até 14 de agosto de 2026. Orientações sobre imigração podem mudar e nenhum trecho desta matéria substitui análise jurídica individual.